Editorial

«Os que, em Portugal, lutam contra a política de direita, são os mesmos que, no PE, se batem pelos interesses nacionais»

O direito de votar

Na democracia em que vivemos, a participação dos cidadãos é coisa quase inexistente. Mais: uma das grandes preocupações dos partidos que nos últimos vinte e oito anos têm (des)governado o País, tem sido a de desprezar ou liquidar as formas de participação popular no exercício da democracia. Assim, a participação dos cidadãos está praticamente reduzida ao acto de, de tanto em tanto tempo, cumprirem o dever cívico de votar. É significativo, aliás, que, no linguajar dos teóricos do modelo, o exercício de voto seja sempre apresentado como um dever e nunca como um direito... Essa opção linguística não é de somenos importância: ela é bem elucidativa de um conceito de democracia que vê no cidadão um instrumento ao serviço dos interesses do sistema dominante; e é, simultaneamente, causa e efeito da vasta rede condicionadora e limitativa de uma opção de voto reflectida, lúcida, consciente. Uma coisa é um cidadão ir votar sabendo porquê e para quê, ou seja, consciente de que o faz no pleno exercício de um direito conquistado; outra coisa, e bem diferente, é um cidadão ir votar cumprindo o sacrifício de um dever; com uma crescente sensação da inutilidade do seu gesto; fechado no cerco da tal rede manietadora que lhe tolhe a inteligência e o espírito crítico. A diferença entre a primeira e a segunda destas situações é a diferença entre uma democracia adulta e moderna, caracterizada por uma participação cidadã consciente e assumida e uma democracia de faz-de-conta, que empurra o cidadão para o papel de espectador passivo da realidade ao qual apenas é exigido que vote de acordo com os interesses da classe dominante.

A ideia - amplamente espalhada pelas mais diversas formas e feitios e candidamente repetida por muito boa gente – de que «os partidos são todos iguais», insere-se nessa perspectiva manipuladora dos eleitores e constitui um trunfo importante para os partidos que procuram esconder, por detrás da ostentação de profundas diferenças, as similitudes que os unem em relação às questões essenciais. Para cada um dos partidos que, alternadamente, têm vindo a exercer o poder desde 1976, é de todo o interesse que o eleitorado – face à constatação, eleição após eleição, de que «tudo continua na mesma» - acredite que tal se deve a circunstâncias inelutáveis, nomeadamente a de «os partidos serem todos iguais» - todos!: o PS, o PSD e o CDS-PP, que fazem a política de direita e provocam o descontentamento da maioria dos portugueses; e o PCP - que, na luta de todos os dias e nas batalhas eleitorais, combate e procura vencer essa política e contrapor-lhe uma política de esquerda. Assim, a generalização dessa ideia constitui uma forma de os partidos da política de direita prosseguirem a mistificação da alternância disfarçada de alternativa que lhes serve de alimento eleitoral.
Não nos poupemos, então, a esforços para que, nas próximas eleições, o maior número de eleitores exerça o seu direito de votar em consciência e com lucidez, analisando o que está em causa e fazendo do voto um instrumento da luta pela defesa dos seus interesses.

Eleger deputados portugueses para o Parlamento Europeu é o objectivo primeiro do acto eleitoral de 13 de Junho; eleger homens e mulheres que naquela instância europeia defendam os interesses nacionais deverá ser, mais do que um objectivo complementar do primeiro, a motivação essencial do voto de cada eleitor. Para isso, é indispensável que os eleitores saibam quanto fez e o que fez cada deputado dos que passaram pelo PE , ou seja, a quantidade do trabalho feito (visível no volume de iniciativas levadas a cabo) e a qualidade desse trabalho (visível no conteúdo dessas iniciativas). Se tal não souber, em que bases sustentará esse eleitor a sua opção no dia 13?. A divulgação desses dados, colocando ao dispor do eleitorado a informação sobre quanto fez e o que fez cada deputado no PE, seria a preocupação maior de uma comunicação social que quisesse contribuir para o enriquecimento do conteúdo democrático do acto eleitoral. Só que, no actual contexto mediático, tal divulgação é impensável na medida em que isso significaria fazer chegar a verdade a todos os eleitores e, assim, informá-los de que os deputados comunistas foram, de longe, os que mais trabalharam no PE e que ninguém como eles ali defendeu os interesses nacionais. Por isso, teremos que ser nós, activistas da CDU, a proceder a essa divulgação.
Nestas eleições está igualmente em causa, como não poderia deixar de ser, a política de direita, a política que é responsável pelo mau estado do País, pelas dificuldades e problemas sofridos pelos trabalhadores e pelo povo. É por de mais evidente a dimensão do descontentamento popular face à acção do Governo PSD/CDS-PP – um descontentamento cujas causas essenciais, insista-se, residem nessa política de direita a que o actual Governo confere crescentes contornos do antigamente. Daí que, também neste caso, seja indispensável que cada eleitor tenha a noção clara dessa realidade e distinga com nitidez quem são, de facto, os responsáveis por esse descontentamento generalizado e quem são, de facto, os que todos os dias se batem contra as causas desse descontentamento. Quem proceder a tal exercício de reflexão, não terá dificuldade em concluir que aqueles que, em Portugal, lutam contra a política de direita, são os mesmos que, no Parlamento Europeu, se batem pelos interesses nacionais – e que é votando neles que melhor se defendem os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.


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