Editorial

«A luta de massas constitui a essência da oposição ao governo e à política de direita»

NA LINHA DA FRENTE

Há dias, um editorialista de um matutino lisboeta, a pretexto sabe-se bem de quê, decretava assim: «O PCP está reduzido ao silêncio, à espera de Setembro». Não há qualquer novidade neste decreto: por estas ou por outras palavras e com a mesma ausência de rigor, ele é repetido e repetido pela generalidade dos comentadores políticos, os quais, como se sabe, em matéria de opinião pessoal sobre o PCP, têm uma rigorosa opinião comum: basta-lhes pegar na velha cassette e (pensando pelas suas próprias cabeças, como gostam de acentuar...), proceder às variações sobre os dois temas centrais que lhes são oferecidos: o PCP está morto e enterrado ou o PCP está quase morto e quase enterrado... É assim há mais de oitenta anos. E assim continuará a ser. Até ver.
Presume-se que a alusão a Setembro (como mês em que, supostamente, o PCP quebraria o tal silêncio) tenha a ver com a Festa do Avante!. Se assim for, há que dizer que é surdo como uma porta quem não houve o ruído da construção da Festa, o som de fraternidade produzido por centenas de militantes e simpatizantes comunistas nas jornadas de trabalho voluntário iniciadas em Junho passado, os sinais de solidariedade nascidos da militância assumida e consciente. Mas não é de todo impossível que a referência a Setembro tenha a ver, apenas, com a Assembleia da República e seja decorrente de um raciocínio muito caro aos comentadores políticos de praticamente todo o mundo (cada um pensando pela sua própria cabeça, obviamente...) e que se pode resumir assim: a Assembleia da República fechou para férias, logo os partidos, todos sem excepção, foram a banhos, a oposição calou-se, a vida política parou; quando a AR reabrir... a vida política acordará – e aí, então, como veremos nos próximos episódios, as referências ao PCP voltarão à faixa mais batida da cassette: partido desgastado, velho, ultrapassado, inactivo, (quase) morto e (quase) enterrado...

Voltando ao tal «silêncio» a que o PCP «está reduzido»: curiosamente, dois dias antes da publicação do fulminante editorial, o PCP realizara uma conferência de imprensa na qual, relembrando Hiroshima e Nagasaki, se manifestava contra o militarismo e a guerra, condenava a subserviência do Governo PSD/CDS ao imperialismo norte-americano, apelava à continuação da luta contra a ocupação do Iraque. É claro que esta conferência de imprensa foi condenada, pela generalidade dos média (aí incluído o acima referido matutino lisboeta), a um profundo e (quase) total silenciamento – ou seja, o silenciamento necessário para se poder escrever, aparentando verdade, que o PCP está reduzido ao silêncio... E, no entanto, tratava-se de um tema relevante e a que a recente resolução do Congresso dos EUA conferia gritante actualidade e pertinência. (o Congresso agradeceu «o apoio de Portugal» à invasão e ocupação do Iraque e ao assassinato de dezenas de milhares de seres humanos e fez questão de realçar que Portugal tem sido «um aliado constante, dedicado e firme dos EUA», devendo-se tal aliança a uma «amizade sólida baseada nos princípios e ideais democráticos» - que são, como é sabido, os ideais que estiveram na origem dos apoios dos EUA: ao regime fascista português até ao seu último dia de vida; à contra-revolução de Abril desde antes do seu primeiro dia de vida...).
Acresce que uma semana antes dessa redução do PCP ao silêncio, uma outra conferência de imprensa do Partido (desta vez abordando a questão dos incêndios que continuam a devastar a floresta nacional) foi, também ela, (quase) totalmente ignorada e votada ao silêncio pela generalidade dos órgãos de informação, aí incluído o referido matutino lisboeta.
Estes dois exemplos servem, tão somente, para salientar o óbvio: não estando os ditos média presentes nas conferências de imprensa (e deitando para o cesto dos papéis a informação da Lusa), só lhes resta chegarem, todos, à almejada conclusão de que o PCP está reduzido ao silêncio...

Aliás, e como se vê, este silêncio é tanto mais ensurdecedor quanto mais silenciada é (este ano e todos os anos) a actividade levada à prática pelos militantes comunistas nestes meses de Julho e Agosto. Sabe quem quer saber – e só os que não querem que se saiba, fingem não saber – que, por todo o País, dezenas de organizações do PCP levam por diante iniciativas políticas diversas, envolvendo milhares de militantes e simpatizantes do Partido; que os comunistas das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira preparam as eleições que se aproximam; que a JCP tem vindo a organizar os seus múltiplos acampamentos de Verão – e que em todas estas iniciativas, para além do convívio, há o debate, a troca de opiniões, a discussão sobre o que se passa no País e no mundo. E sabe igualmente quem quer saber que prossegue a luta contra a política de direita; que, com as armas que têm nas mãos, prosseguem as suas lutas pelos seus direitos e interesses, entre muitos outros, os trabalhadores da Merloni/Ariston, da Rodoviária de Lisboa, da Hotelaria e Turismo, do STAL, da TAP, os vitivinicultores do Douro, etc, etc, etc – e que, naturalmente, em todas estas lutas, na luta de massas – que constitui a essência da oposição ao governo e à política de direita – os comunistas ocupam o lugar que lhes compete enquanto militantes do partido da classe operária e de todos os trabalhadores. E que em Setembro... sempre com o PCP na linha da frente, o silêncio – ou seja, a luta – continua.


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