• Leandro Martins

O segredo da eterna juventude
É muito raro que a chuva se intrometa com a Festa. Mas como há memória de chuvada - e isto da memória estende-se no tempo segundo o sujeito que a tem - este ano muita gente viveu a angústia dos boletins meteorológicos e, a cada aguaceiro ou chuvisco a apreensão podia ler-se no olhar de cada visitante. Foi assim que, um par de horas antes da abertura, os construtores e os outros camaradas e amigos que entravam para assegurar serviços andavam de nariz no ar à cata de sinais de esperança e víamos com satisfação as nuvens correrem, escuras, para outras paragens, abrindo no céu um azul brilhante. E os milhares de visitantes? Ter-se-iam deixado acabrunhar pelos maus agouros televisivos?
Não. Pouco antes das 18 horas já a Praça da Paz, onde se ia declarar aberta a 28.ª edição da Festa, se enchia de gente, engrossada logo que as portas se franquearam por mais uns milhares de amigos. O som de tambores de um grupo de percussão da Tunísia, o Ennawrouz, animava a multidão dominada pela presença numerosa de jovens, quando chegaram os membros dos organismos executivos do Comité Central e da Direcção da Festa, acompanhando Carlos Carvalhas para o reduzido estrado onde o secretário-geral do PCP tomaria a palavra para uma saudação de boas-vindas, o primeiro discurso de três dias repletos de palavras com significado. Uma ausência notámos.
E, embora não seja costume falarmos, em festa, de ausências dolorosas, permitam os leitores que recorde a figura de um amigo, entre tantos, que a morte levou prematuramente. No ano passado, naquele mesmo lugar, o camarada Virgílio Azevedo, então responsável no Secretariado do CC pela Direcção da Festa, saudava a abertura com os olhos emocionados de quem quereria guardá-la na memória para sempre.
De novo, porém, a Festa fora erguida e construída a pulso, de novo sentíramos a ansiedade do tempo curto de mais, semeado de tarefas e perspectivas políticas que atrasaram o arranque do trabalho. De novo, também, o generoso entusiasmo da juventude, juntando-se em massa aos mais fieis construtores da grande cidade de três dias que a Atalaia propõe, concluiu dentro dos prazos os variados e sempre novos espaços onde a Festa se desenrolou, oferecendo aos muitos milhares de visitantes a reflexão política e o debate, a solidariedade, os espectáculos, as exposições, a gastronomia, o convívio.
Festa marcada pela comemoração do 30.º aniversário de Abril, a Revolução atravessava-a e deparávamos com a memória a cada passo. Memória de conquistas e de vitórias, mas sobretudo de lutas com futuro. Uma memória que, como se sublinhou em exposições, debates e discursos, atinge profundamente, pelos ideais de que é portadora, mesmo os jovens de hoje, que em 1974 ainda não haviam nascido. Mistério? Nada disso. Forjados nas lutas contra a injustiça de hoje, encontram no exemplo de Abril a inspiração para as suas batalhas. E no Partido Comunista Português o mais consequente defensor dos ideais a que aderem. Por isso não é segredo a eterna juventude que anima o PCP e que a Festa mais uma vez mostrou com fulgor.




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