Editorial

«Um desafio à lucidez, à inteligência, à sensibilidade política dos portugueses e portuguesas»

ALTERNÂNCIA E ALTERNATIVA

A anunciada dissolução da Assembleia da República e a consequente antecipação das eleições legislativas, constitui um acontecimento de profundo significado e de relevante importância política. Trata-se de uma medida que corresponde, inegavelmente, a anseios e aspirações da imensa maioria dos portugueses e portuguesas, vítimas de uma política contrária aos seus interesses e direitos. Uma política praticada por um governo cujo descrédito começou antes mesmo do dia em que tomou posse na sequência de um processo no qual, à participação e intervenção do povo, se preferiu o recurso a uma solução política desde logo condenada ao fracasso e ao insucesso. E que, de facto, viria a traduzir-se no total isolamento político e social do Governo Santana Lopes/Paulo Portas. Nesse sentido, as medidas agora anunciadas constituem uma importante vitória para todos aqueles que, desde o início, exigiram eleições, condenaram a formação desse governo e se empenharam na luta contra a política por ele levada à prática: os jovens estudantes e trabalhadores, os reformados e pensionistas, as mulheres, os utentes organizados nas suas diversas associações e, em especial, as centenas de milhares de trabalhadores de praticamente todos os sectores de actividade pública e privada que, em múltiplas acções – greves, paralisações, manifestações - deram o devido combate à política de direita e às suas nefastas consequências.
Também os militantes comunistas e o seu Partido, têm abundantes razões para se sentirem satisfeitos com as medidas anunciadas, pelas quais o PCP lutou como nenhuma outra força política o fez – em todos os momentos e em todas as frentes de luta e rejeitando fontalmente as teses da «inevitabilidade», defendidas pelos que, ao fim e ao cabo, outra coisa não desejavam se não que o Governo Santana Lopes/Paulo Portas prosseguisse, até 2006, a sua obra de devastação nacional.

De tudo isto ressalta, inequivocamente, não apenas a incapacidade da política de direita para dar resposta aos interesses e aspirações dos trabalhadores e ao desenvolvimento económico e social do País, mas, mais e pior do que isso, o papel da política de direita enquanto factor de agravamento da situação dos trabalhadores, do povo e do País.
E uma das grandes questões que vão estar em jogo nas próximas eleições, é precisamente a de saber se a política de direita vai ou não ser, agora, condenada, através do voto, como o foi, antes, através da luta de massas – sendo óbvia a importância de o eleitorado expressar, de forma inequívoca, essa condenação.
Tal condenação passa por opções de voto que tenham em vista a justa penalização de todas as forças políticas que, de forma mais ou menos extremista, se têm assumido como protagonistas e praticantes da política de direita; passa por opções de voto que castiguem todos os devedores de promessas, ou seja: todas aquelas forças políticas que, durante as campanhas eleitorais, se desdobram em promessas – promessas que, mal se apanham no governo, esquecem de imediato, muitas vezes fazendo precisamente o oposto do que haviam prometido; passa por opções de voto que, justamente, premeiem quem, em todos os momentos e situações, fala verdade; quem, permanentemente, está na primeira fila da luta pela defesa dos interesses da maioria dos portugueses; quem, todos os dias, procura unir esforços e vontades com vista a derrotar a política de direita e a substituí-la por uma política de esquerda.

Em matéria de resultados eleitorais, três questões ressaltam, com grande nitidez de toda esta situação: a primeira é a de que, à derrota política do Governo PSD/CDS-PP, se sucederá, nas urnas, a derrota eleitoral desses dois partidos, quer concorram separados, quer o façam em coligação – derrota mais do que justa, aliás, tendo em conta tudo o que de negativo têm feito; a segunda, é que, nas próximas eleições, o PS vai ser, certamente, o partido mais votado, não por merecimento próprio, nem por ter ocupado o lugar que devia na luta contra o Governo e a sua política – razões que, acrescentadas ao que tem sido a prática dos vários governos PS, são mais do que suficientes para que o eleitorado não lhe dê a maioria absoluta que os seus dirigentes perseguem de forma obsessiva, sabendo que um tal resultado seria mais do que meio caminho andado para prosseguirem em tons rosa a mesma política que, no essencial, os outros têm vindo a praticar, em tons laranja; a terceira questão que emerge desta situação diz respeito à importância decisiva do reforço da expressão eleitoral do PCP – da CDU – reforço não apenas necessário para dar mais força à luta contra a política de direita, mas igualmente decisivo para iniciar o virar de página indispensável à construção de uma alternativa política, com uma política alternativa que dê resposta aos problemas que afligem a imensa maioria dos portugueses.
As próximas eleições constituem um desafio à lucidez, à inteligência, à sensibilidade política dos portugueses e portuguesas. Da superação com êxito desse desafio, depende a possibilidade que se lhes abre de votarem, de facto, nos seus interesses e direitos; de anularem o risco de os resultados eleitorais se traduzirem no habitual mais do mesmo disfarçado de diferente, isto é, em mais uma etapa da sucessão de alternâncias que, disfarçadas de alternativas, têm vindo a iludir muitos e muitos milhares de eleitores, ao longo de 28 anos – alternâncias que mais não são do que seguros de vida da política de direita e que urge substituir por uma verdadeira alternativa de esquerda.


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