Editorial

ONDA DE CALOR

Percebemos perfeitamente o silêncio que o Governo guardou durante tanto tempo antes que anunciasse as medidas mais gravosas que se preparava para tomar, enquanto outros arautos iam tentando incutir nos portugueses a ideia da inevitabilidade dos aumentos - dos preços e dos impostos, claro! - por força de circunstâncias «alheias» ao seu «projecto». Já aqui falámos da preciosa «ajuda» que constituíram as declarações de Vítor Constâncio sobre o défice de quase 7 por cento - num ano que é já da responsabilidade do PS, embora o Orçamento tenha sido aprovado pela direita já com os dois pés fora do Governo mas obedecendo gostosamente à exigência do Presidente da República, que não queria deixar o País sem um OE daqueles. Jorge Sampaio, aliás, foi também outra das ajudas com que o executivo de Sócrates contou para aplanar o caminho e extorquir mais sacrifícios aos trabalhadores.
Percebemos perfeitamente a demora. Porque se tratava de tomar medidas impopulares e, mais do que isso, de faltar à palavra dada, isto é, às promessas eleitorais do PS. A demora, entretanto, iria permitir que o anúncio de tais medidas apanhasse os contribuintes - os trabalhadores, os desempregados, os reformados, os jovens, as mulheres - com Junho à porta. Esperava o Governo, certamente, que a onda de calor perturbasse as mentes ao ponto de não reconhecerem os seus interesses e o logro em que muitos caíram ao votar tão abundantemente no Partido Socialista, esperançados na mudança.

A onda de calor, porém, parece ter perturbado mais as hostes socialistas que os portugueses em geral. E escrevemos «parece» porque não é de crer que o Governo e os seus indefectíveis tenham perdido o norte, embora haja alguns sinais de desnorte em declarações avulsas e contraditórias de governantes e afins. Quanto aos portugueses em geral, o calor vem-lhes de dentro, da indignação de muitos, da frustração de alguns, do protesto de quase todos.
As iniciativas que o PCP promoveu nos últimos dias da passada semana, reagindo na hora certa às medidas anunciadas pelo Governo na Assembleia da República e apelando à participação nas manifestações e jornadas de trabalhadores marcadas para os próximos dias 17 e 28, encontraram eco em todo o País e deram conta da indignação que alastra. A campanha nacional de esclarecimento, entretanto, não ficará confinada à data inicialmente prevista e que mobilizou milhares de camaradas. O esclarecimento e a exigência de um rumo diferente para a política nacional deve continuar e estão a ser recebidos nos meios populares com muito interesse e atenção às posições dos comunistas que criticam fortemente os aumentos de impostos indirectos e o ataque violento aos trabalhadores, a começar, nomeadamente, pelos da administração pública.


Outras medidas, desta vez anunciadas a conta-gotas e sem as solenidades próprias da Assembleia da República, vieram juntar-se às primeiras e têm vindo a fazer manchete na comunicação social.
A questão dos preços dos medicamentos foi a primeira bola a sair do saco. Baixam mas aumentam, vá-se lá saber porquê. E alguns deles - poucos - que, por serem absolutamente necessários à sobrevivência de doentes crónicos, têm sido gratuitos, vão agora passar a ser parcialmente pagos, o que atinge gravemente as bolsas de muita gente que se vê de repente com a necessidade de fazer face a despesas incomportáveis.
A última - por enquanto - é a do «aumento» dos funcionários públicos, que vai situar-se nos 2 por cento! Aumento? Como assim, se fica abaixo da inflação, portanto nem sequer chega para manter o poder de compra entretanto perdido?
Com a recusa do PS em aumentar o salário mínimo nacional, conforme tinha proposto o PCP, e com a fixação em 2 por cento nos aumentos dos funcionários públicos, o Governo mostra qual a orientação que se propõe seguir - a de alargar a todos os trabalhadores estas medidas salariais restritivas.
A revelação de que o Governo e a sua maioria não pretende fazer alterações significativas ao «Código Laboral» da direita, mostra ainda de que lado está o PS de Sócrates - do lado do capital. Nenhuma medida é tomada, de resto, no sentido de tributar as mais-valias das sociedades financeiras nem se vê que haja a intenção de cortar nas benesses da banca, nos off-shores, nas operações de venda de títulos. O capital é sagrado... E não deixa de acumular lucros fabulosos.

Perante a indignação geral contra a diferença de critérios, Jorge Coelho, em plena campanha eleitoral para as autárquicas, clama em Évora que a banca e as seguradoras devem também contribuir para os sacrifícios, parecendo exigir do Governo que tome medidas nesse sentido. Sócrates, como se viu, dá-lhe toda a liberdade de exigir o que quiser, já que precisa de reduzir ao máximo o prejuízo eleitoral que se avizinha para o PS. Cravinho vem a seguir, a querer «normalizar o regime fiscal da banca». Generoso, o Diário de Notícias titula: «Governo aperta cerco aos bancos e seguradoras». Quem não acredita nisso é o «patrão da banca», João Salgueiro. Ninguém acredita, aliás.
A perturbação parece ter ganho algumas cabeças encaloradas, principalmente no seguimento dos protestos e das derrotas dos referendos ao tratado constitucional europeu. Ao NÃO da França seguiu-se o da Holanda; a Inglaterra anunciou a suspensão do referendo que pretendia realizar; outros governos admitem já o adiamento. Freitas do Amaral também o admite em entrevista «pessoal», mas vai à estranja afirmar que tudo continua como dantes, como Sócrates manda. E o Presidente da República, diz que lá por Portugal ser pequeno não é razão para abandonar o referendo. A onda de calor parece ter começado a produzir efeitos, sem falar naqueles, também desastrosos, que incendeiam já o País, uma vez mais sem instrumentos adequados para o combate aos fogos.


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