• John Catalinotto

«A GM tenta aumentar os seus lucros à custa dos trabalhadores»
Sindicato do sector automóvel nos EUA prepara luta
General Motors quer liquidar 25 000 postos de trabalho
11 000 operários no activo e 500 000 reformados da General Motors nos EUA descobriram que a administração da empresa lhes declarou uma guerra de classe.
Num encontro de accionistas realizado a 7 de Junho em Nova Iorque, o presidente da General Motors (GM), Rick Wagoner, anunciou que o colosso do sector automóvel vai eliminar 25 000 postos de trabalho até 2008. Wagoner ameaçou também proceder unilateralmente a cortes nos benefícios com os cuidados de saúde, tanto em relação aos trabalhadores no activo como aos reformados.
O patrão da GM informou os accionistas que as vendas, lucros e provisões da companhia estavam todos em queda. Atribuiu as culpas desta situação ao elevado custo do trabalho e especialmente ao custo dos cuidados de saúde, que segundo afirma ascendem a 1550 dólares por cada trabalhador da produção, dos quais 70 por cento vão para assistência médica aos reformados.
Para perceber esta história, o Avante! falou com Dianne Mathiowetz, trabalhadora da GM há 29 anos, que está na fábrica de Doraville, Geórgia, há 10 anos.
Mathiowetz, que é uma dirigente dos movimentos anti-guerra e direitos cívicos na vizinha Atlanta, instala as janelas das portas das carrinhas de mercadorias produzidas na cadeia de montagem de Doraville. Uma janela em cada 43 segundos. Mathiowetz é igualmente membro da United Auto Workers (UAW), que representa todos os trabalhadores do sector automóvel da GM na América do Norte.
«Wagoner ameaça denunciar parte do contrato», afirma Mathiowetz. A reacção imediata do sindicato foi convocar uma reunião de emergência com os presidentes locais e os responsáveis pelos comités de empresa em Detroit. O presidente da UAW, Ron Gettelfinger, rejeitou qualquer reabertura do contrato visando alterar os benefícios com os cuidados de saúde. Mas disse que o sindicato continuará a negociar com a administração da GM, procurando uma solução equilibrada.
«Quando comecei a trabalhar na GM em 1976, a empresa tinha quase meio milhão de operários na América do Norte. Em meados de 1980, esse número baixou para 225 000 e agora resta cerca de metade disso, sendo que estes trabalhadores produzem quase tantos carros como os que eram produzidos há 20 anos”, refere Mathiowetz.
«A automatização da produção, encerramento de fábricas e outsourcing [recurso a fontes externas] a baixo preço levaram à eliminação de postos de trabalho na GM. Em Doraville nós éramos os mais eficientes produtores de carrinhas ‘para todo o serviço’ da GM. Agora a administração anunciou layoffs aqui até Setembro. Os trabalhadores da fábrica de Doraville com menos de cinco anos de antiguidade receiam perder o emprego. Os trabalhadores com mais experiência receiam não ter a pensão e a assistência médica que ganharam e esperavam receber.»

Dividir para reinar

A administração da GM queixa-se que os fabricantes de automóveis japoneses, como a Toyota e a Nissan, têm vantagens sobre a GM. Dispõem de uma força de trabalho mais jovem nos EUA e têm menos reformados. Pagam salários baixos e oferecem menos benefícios porque as suas fábricas não estão em sindicatos. «Eles instalam fábricas em estados cujas leis são anti-sindicatos», afirma Mathiowetz, sublinhando que nesses estados «o nível geral dos salários é tão baixo que os trabalhadores preferem um emprego numa fábrica de automóveis à margem do sindicato do que trabalhar na McDonalds. Mas faço notar que Wagoner nunca recomendou à UAW que sindicalize a Toyota».
As fábricas da Toyota noutros países beneficiam muitas vezes da segurança social nacional, pelo que isso não faz parte dos custos da empresa. «Se a administração da
GM quer realmente uma solução negociada, acrescenta Mathiowetz, «então Wagoner devia fazer campanha pelo sistema nacional de segurança social nos Estados Unidos. Mas ele nunca falou nisso.
«O nosso sindicato conquistou a protecção parcial contra o encerramento de fábricas. A GM não pode fechar uma fábrica automóvel durante o tempo de vigência do contrato de quatro anos, a menos que coloque essa fábrica na lista para encerramento quando o contrato está a ser negociado. O actual contrato nacional expira no final de 2007.
«A administração continua a tentar tirar vantagem da lista seleccionando uma fábrica da lista e negociando primeiro com o sindicato local para conseguir concessões. Então a administração traz essas concessões para as negociações noutra fábrica. É a táctica de dividir para reinar chamada ‘serrote’. A GM faz o mesmo quando negoceia com o governo local para a redução de taxas, ameaçando fechar a fábrica nessa área. O encerramento de uma fábrica pode liquidar toda a economia local. A GM tenta aumentar os seus lucros à custa dos trabalhadores, reformados e impostos públicos», afirma Mathiowetz.
«Desde a reunião de accionistas a 7 de Junho, a GM anunciou uma nova promoção de vendas, anunciando que todos serão tratados como funcionários da GM. Com os trabalhadores da GM confrontados com a perda de 25 000 postos de trabalho, redução dos benefícios de saúde, perda de pensões e aumento do trabalho, não é possível negociar», conclui Mathiowetz.

Uma história de luta

O United Auto Workers (UAW) foi o primeiro sindicato industrial nos EUA, nascido da luta na Ford em Flint, Michigan, em 1936-37 que ficou conhecida como a greve «sentada». Os trabalhadores paralisaram a fábrica e em vez de fazerem o piquete fora da empresa instalaram-se lá dentro e tomaram conta da empresa. Foi um dos mais fortes sindicatos dos EUA entre 1940 e 1970. Nos anos 50, sob o impacte da Guerra Fria contra a União soviética e da reacção política interna conhecida como McCarthismo, os mais progressistas e activistas sindicalistas, muitos dos quais comunistas, foram afastados do sindicato pela repressão do governo.
Esta «caça às bruxas» afastou os sindicalistas mais politizados, mas muitos benefícios continuaram a ser conquistados através da actividade sindical durante esse período da expansão da economia norte-americana. O UAW conseguiu em particular excelentes benefícios no âmbito dos cuidados de saúde. Todos os custos são virtualmente pagos pelo seguro de saúde da GM. Estes benefícios tornaram-se um modelo de que beneficiavam não apenas os trabalhadores da produção mas também os empregados de serviços não sindicalizados da GM, os funcionários públicos de Detroit e os empregados de muitas indústrias em todos os EUA cujas administrações pretendiam desencorajar a formação de sindicatos. Noutras indústrias, e em especial em sectores não sindicais, estas regalias têm vindo a ser reduzidas nas últimas três décadas, e agora são as próprias regalias da UAW que estão a ser atacadas. Os membros da UAW, que já foram 1.5 milhões em 1979 - sobretudo trabalhadores da indústria automóvel e aéro-espacial -, são agora 710 000 trabalhadores no activo, na sua maioria fora da indústria automóvel. Há ainda 500 000 reformados que continuam membros do sindicato e que podem ser mobilizados para a luta.


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