• Luís Carapinha

Muitas foram as vezes em que agressores e exploradores vestiram a pele de cordeiro
Malabaristas

Nas hostes sionistas mais radicais alguém se lembrou de associar à recente retirada dos colonos de Gaza o Holocausto nazi. Embora condenada à partida, a encenação foi posta em marcha e vale como marca do nosso tempo. Não vemos, por exemplo, o presidente norte-americano impudentemente comparar a resistência iraquiana aos terroristas do ainda por esclarecer 11 de Setembro de 2001?
Ao longo da história, muitas foram as vezes em que agressores e exploradores vestiram a pele de cordeiro. Mas nunca, talvez, como na época actual de ofensiva global imperialista e super-concentração capitalista dos média, a mentira, deturpação e perversão tenham sido uma arma tão rotineiramente usada ao serviço da demagogia e propaganda políticas e tão perigosamente apontada à independência e consciência dos povos. O imperialismo recorre hoje da forma mais escabrosa à mentira para lançar a guerra, como se viu na Jugoslávia e no Iraque.

No ano em que se celebra o 60º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, revestem-se de particular significado as renovadas tentativas de reescrever a história. O imperialismo insiste na omissão e desvirtuamento do papel desempenhado na vitória pela URSS, os comunistas e as resistências populares. E, consequência lógica do desaparecimento da URSS, tenta apagar por completo os contornos da construção mundial herdada dos resultados da segunda guerra mundial. Daí, os ataques concertados dirigidos contra Ialta. Bush deu o mote, durante a visita à Letónia em Maio passado, chegando ao ponto de criticar Roosevelt e Churchill pela «entrega» da Europa de Leste ao «comunismo soviético». Os seus acólitos representantes das «novas democracias» na zona seguiram-lhe as pisadas. Enquanto em Kiev, Iúchenko, decretava a «reconciliação nacional», colocando em pé de igualdade os bandos fascistas colaboracionistas e os combatentes do Exército Vermelho e da resistência, o presidente georgiano propunha refundar Ialta para «esconjurar» os fantasmas do passado, preconizando uma cruzada da «liberdade» na região do Mar Negro e mesmo para lá desta região (ou seja, em direcção ao Cáspio e à Ásia Central) … É nesse sentido que actualmente se ensaia a criação de uma «comunidade democrática» do Báltico à bacia do Cáspio. Como seus promotores aparecem, precisamente, a Ucrânia e Geórgia mais Polónia e Lituânia, países onde a pobreza disseminada e as gritantes desigualdades sociais constituem um traço estruturante da nova realidade, mas que, naturalmente, têm «democracia» para dar e vender. Sob instrumentalização e com financiamento de Washington, estes países aparecem já na linha da frente da desestabilização da Bielorrússia, que o grande capital decretou ser a «última ditadura na Europa».

É pois patente que a presente campanha de revisionismo histórico está centrada, não se limitando a isso, em objectivos bem concretos do imperialismo no espaço pós-soviético. Com a NATO em expansão para Leste, há que inviabilizar uma eventual tentativa de ressuscitar a C.E.I. (o nado-morto que sucedeu ao desmantelamento da URSS) e impedir a consumação da, mais substancial, União Rússia-Bielorrússia, aprofundando o cerco à Rússia. O aumento da pressão e ingerências sobre o maior país do mundo, agravando contradições e incertezas, revela igualmente o ressurgimento de um novo quadro de rivalidades inter-capitalistas.
A patética «nova era da democracia, segurança, estabilidade e paz em toda a Europa, até ao Cáspio» pregada pelos novos vassalos do capital no poder a Leste, esconde na realidade uma séria ameaça à paz. Na senda do «espaço vital» euro-asiático, o imperialismo reedita velhos planos de dominação planetária que a humanidade refutou no passado, pagando um preço muito alto.
Evocar a vitória sobre o nazi-fascismo e salvaguardar a memória e verdade históricas, constituem por isso hoje um contributo actualíssimo à luta pela paz.


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