Editorial

«É necessário uma ruptura democrática e de esquerda com as políticas de direita»

Esclarecer diferenças

Ao avançar com a candidatura de Jerónimo de Sousa às presidenciais, e ao fazê-lo em primeiro lugar, apresentando em 12 de Setembro as razões que levaram o Comité Central do PCP a tomar tal decisão, o secretário-geral do Partido sublinhou então que tal candidatura «visa marcar a diferença, fazer crescer a compreensão de que é necessário uma ruptura democrática e de esquerda com as políticas de direita que nos trouxeram ao actual estado de coisas e demonstrar que há alternativas».
Anunciou também que a candidatura comunista visa «contribuir para a derrota daquele que venha a ser o candidato apoiado pelos partidos da direita e, simultaneamente, participar num incontornável debate que sendo sobre o órgão de soberania Presidência da República, terá necessária e obrigatoriamente de ser um debate sobre o estado da democracia e o futuro de Portugal».
É o que tem sido feito e que o candidato do PCP continuará a fazer durante os próximos tempos, no que se insere já, entretanto, a sua declaração sobre o combate à pobreza, pelo direito a ter direitos e em iniciativas futuras, numa batalha mobilizadora de esclarecimento em que todo o colectivo partidário se empenha.
Hoje, quando no essencial as candidaturas foram já apresentadas, as diferenças entre a de Jerónimo de Sousa e todas as outras são por si mesmas esclarecedoras.

Em vez de declarações vagas – para que os eleitores se deitem a adivinhar que tipo de intervenção se propõe cada candidato fazer se for eleito – Jerónimo de Sousa vai ao fundo dos problemas, que são graves e muitos, clarificando a posição dos comunistas nas diversas matérias e questões com que o País se confronta.
Ao invés das declarações arredondadas dos outros candidatos, que lançam recados apaziguadores em quase todas as direcções, escondendo ou revelando as suas atitudes quanto a matérias específicas, Jerónimo de Sousa contrapõe uma postura de clareza, identificando as situações e a sua gravidade, desmistificando as «soluções da política de direita que, com as eventuais diferenças de estilo, tão bem caracterizam as «famílias políticas» em concorrência e as identificam a todas no essencial.
Essa identificação tê-los-á levado, a dois desses candidatos, a erigir a chamada por eles «estabilidade política» como cerne das suas propostas. Se Cavaco Silva assegura que é a «estabilidade» que o orienta, logo Mário Soares corre a jurar que também ele considera a «estabilidade» como valor fundamental e copia o seu adversário afirmando que considera igualmente os poderes presidenciais como suficientes.
É claro que existem diferenças, mas diferenças ainda não claramente assumidas nestas declarações quase idênticas. Para Cavaco Silva bastam-lhe hoje os poderes actuais do PR e deixou mesmo entrever o recado dirigido a Sócrates, tranquilizando-o acerca de um eventual conflito entre o PR e o Governo. Desde que o executivo do PS prossiga e endureça a sua política de direita, o professor de economia deixá-lo-á governar. Quanto ao aumento de poderes do PR, que hoje tantos defendem – os mesmos que tudo fizeram para diminui-los porque podiam constituir obstáculo ao aprofundar das medidas lesivas dos trabalhadores e do País – tornou-se um objectivo fundamental da estratégia da direita e, ao silenciá-lo, Cavaco mais não faz do que adiar a sua concretização.

As diferenças entre as outras candidaturas que neste momento já vieram a lume depois do anúncio da de Jerónimo de Sousa, não são, por enquanto, relevantes e pouco se pode ajuizar delas a partir das declarações dos candidatos. Porém, todos eles são conhecidos dos eleitores, todos prestaram provas na política e nada indica que, passados estes anos, se hajam alterado grandemente as suas posições.
Quanto a Louçã, o velho rapaz que veio do trotskismo folclórico para encher um partido de esquerdistas desiludidos e de reformistas fatigados, a sua candidatura, avançada visivelmente a contragosto porque se arrisca a fazer uma nova contagem de votos desfavorável, a sua ambição mais visível é a de tentar prejudicar o candidato comunista. Aliás, o propósito central de toda a política do BE, apadrinhada pelo PS e pela comunicação social, tem sido sempre o de atacar o PCP, atingindo hoje o anticomunismo dos seus dirigentes níveis só alcançados pelos mais reaccionários políticos e formações partidárias desde Abril.
Manuel Alegre, por seu lado, embalado pela sua irritação contra Soares e Sócrates, também não avança se não afirmações redondas onde desponta, hoje, a sua ira antipartidos, já que não é apoiado por nenhum. Com a voz aparentemente colocada à esquerda, não deixa de ser o homem que, durante trinta anos, sempre apoiou, com obediência, convicção e voto, todas as medidas mais gravosas da política do seu partido.
Mário Soares, que nos últimos anos se desdobrou em profissões de fé anti-imperialistas e que se distinguiu pela sua oposição ao cavaquismo, não deixa de ser o amigo de Carlucci e o mentor da contra-revolução que lançou o País na política de direita, de entrega ao capital da riqueza nacional, da submissão aos interesses dos monopolistas europeus.

Cavaco Silva surge, porém, com menos ambiguidade neste panorama, apesar da cosmética tranquilizadora e do silêncio ruidoso de dez anos. Para além de todos os malefícios que causou aos trabalhadores acentuando medidas contra os seus direitos, o finalmente candidato à Presidência da República tenta, numa posição concertada com os seus apoiantes partidários e os apoios dos grandes grupos económicos, aparecer branqueado do seu passado de «governante ao serviço dos grandes interesses e do processo de recuperação capitalista que está na origem dos nossos atrasos estruturais e das actuais dificuldades que o País atravessa», como sublinhou Jerónimo de Sousa no seu discurso da passada sexta-feira, em Lisboa, e que o Avante! reproduz na íntegra.
Esta é a candidatura da direita. Aquela que o PCP se propõe contrariar com mais vigor, procurando contribuir para a sua derrota. Com uma candidatura e um candidato de combate e de projecto para ir tão longe quanto o povo português quiser!


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