Editorial

«A candidatura de Cavaco Silva é a candidatura do grande capital»

ISTO ANDA TUDO LIGADO

A operação de propaganda levada a cabo pela comunicação social dominante em favor da candidatura de Cavaco Silva, ultrapassa tudo o que até agora havia sido feito nesta matéria. Jamais qualquer candidato dispôs do tempo, do espaço e dos apoios mediáticos de que dispõe o ex-primeiro-ministo, ex-líder do PSD e, agora, candidato à Presidência da República.
Contam-se pelos dedos de uma só mão – e sobram dedos – os comentadores, politólogos e analistas que, nos jornais, rádios e têvês, não alinham na promoção da candidatura de Cavaco Silva - na promoção directa ou indirecta, já que, alguns há que, fingindo não apoiar Cavaco, outra coisa não fazem se não isso. Os raros sobreviventes, os que destoam na louvação a Cavaco, servem apenas para manter a aparência plural com que os média dominantes continuam a mascarar-se.
Os favores a Cavaco Silva revestem-se, ainda, de uma outra faceta não menos relevante que consiste no apoio, por parte dos mesmos média, a candidaturas cuja ascensão seria favorável aos desígnios do candidato de Boliqueime e no ataque a candidaturas cujo enfraquecimento muito favoreceria esses desígnios. Basta pegar num qualquer jornal, ao acaso, ligar um qualquer canal de televisão ou de rádio, este ou aquele tanto faz, para comprovar o que acima é dito. Na realidade, é à luz da promoção desenfreada da candidatura de Cavaco Silva que esses média e os seus comentadores de serviço avaliam as restantes candidaturas. E é fácil de ver, para quem não queira ser cego, por que é que cada uma das restantes quatro candidaturas é tratada como é.

As razões deste incomensurável apoio mediático a Cavaco Silva decorrem do facto de ele ser o candidato que melhores condições tem para bem servir os interesses do grande capital, por sinal proprietário da generalidade dos órgãos de comunicação social – assim se confirmando o que há muito se sabe: que isto anda tudo ligado. De facto, a candidatura de Cavaco Silva é a candidatura do grande capital, que lhe conhece os méritos e as prendas - especialmente as prendas, já que o reinado de Cavaco foi pródigo na reconstituição das grandes fortunas - que lhe conhece a eficácia enquanto executante da política de recuperação capitalista que afundou o País; que lhe conhece a total disponibilidade para aceitar a submissão do poder político ao poder económico; que o sabe fidelíssimo defensor dos seus interesses sejam quais forem as consequências dessa fidelidade.
A década de Cavaco Silva como primeiro-ministro ficará como um tempo de ataque brutal a tudo o que de mais avançado e progressista os trabalhadores, o povo e o País haviam conquistado na sequência da revolução de Abril.
Revisão anti-constitucional da Constituição (como sempre com o apoio do PS, recorde-se) depois de a ter violado com um conjunto de leis aprovadas no abuso da maioria absoluta de que dispunha; ataques violentos ao conteúdo democrático do regime; cruzada contra os direitos dos trabalhadores; agravamento das desigualdades sociais; proliferação do trabalho infantil; aumento dos salários em atraso; o SIS, qual polícia política privada do Governo, a vigiar e perseguir dirigentes políticos, sindicais e associativos; milhões e milhões de contos dos milhões e milhões vindos da Europa desaparecidos misteriosamente; autoritarismo arrogante e selvagem, com cargas policiais sobre trabalhadores que lutavam pelos seus postos de trabalho – tudo isto e muito mais (dando de barato a incultura sem margens do responsável por todas estas malfeitorias) é resultado de dez anos de governação de Cavaco Silva.

Recorde-se, ainda, que, após esses dez anos de Governo, trágicos para Portugal e para os portugueses, e quando a única perspectiva que se lhe apresentava era a inexorável derrota eleitoral, Cavaco Silva forçou a sua substituição na liderança do PSD (no decorrer da campanha eleitoral, tirou o tapete debaixo dos pés do seu substituto) e fugiu. Heroicamente. Desse tempo, resta ainda, na memória de quem a tem, o País mergulhado na mais profunda crise e a figura patética do primeiro-ministro em trânsito a esbracejar as bem-aventuranças da sua governação, a retoma, Portugal à beira dos níveis europeus, o pelotão da frente e outras necedades – e quando quis a desforra, candidatando-se às presidenciais, foi derrotado pelo voto popular.
É este o candidato cujo passado como governante os analistas, comentadores e politólogos de serviço têm a tarefa de branquear – e branqueiam - e cujo presente como candidato têm a obrigação de louvar – e louvam, apresentando-o como uma sumidade nas artes da governação e um salvador da pátria (e até acham graça ou silenciam as gaffes do louvado, como aquela de em vez de dizer Assembleia da República, ter dito, porque lhe fugiu a boca para a verdade dos seus desejos, Assembleia Nacional).
É este o candidato que outros candidatos olham como igual e, eles lá sabem porquê, metem nas respectivas gavetas o seu passado de governante - mais do que isso, até: Cavaco «é uma pessoa séria, uma pessoa íntegra», afirmou, anteontem, Manuel Alegre, ao mesmo tempo que confirmava ser homem de sono fácil, tanto que, ele o disse, «não vou deixar de dormir descansado se Cavaco Silva ganhar as eleições»
Outra é a posição de Jerónimo de Sousa, secretário geral do PCP e candidato à Presidência da República: «É este o candidato da instabilidade democrática com o qual a direita acalenta a esperança de subversão do sistema de poder constitucionalmente consagrado e de um presidencialismo autocrático. Este é o candidato que se impõe derrotar no próximo mês de Janeiro». Assim se marca a diferença.


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