Editorial

«Pessoas que não desistiram de lutar e sabem que a luta continua»

RESISTENTES A TEMPO INTEIRO

O apoio à candidatura de Jerónimo de Sousa por parte de mais de mil e trezentas pessoas – homens e mulheres resistentes antifascistas – anunciado no sábado passado, constitui mais um exemplo concreto do que distingue esta de todas as restantes candidaturas presidenciais. Não porque as outras não contem entre os seus apoiantes com pessoas que lutaram contra o fascismo. Seguramente que todos os candidatos hão-de ter apoiantes com essa característica. Se até o candidato Cavaco Silva os tem! Ele, em cujo passado não há o mínimo sinal de antifascismo activo ou passivo (e se sinais há, nessa matéria, apontam para outra direcção) – mas que as televisões e os jornais nos mostraram um dia destes, a receber, à porta da sua candidatura, um desses apoios, o qual, na situação actual, não poderia escolher melhor local para, após a clássica estadia na plataforma anterior da rota dos trânsfugas, completar a sua curva na estrada, ou seja a sua passagem com armas e bagagens para o lado dos que antes combateu.
E não é por acaso que, enquanto a lúgubre cerimónia à porta de Cavaco Silva, teve a projectá-la para todo o País um exército mediático que a vendeu como a grande notícia do dia, a iniciativa de apoio à candidatura de Jerónimo de Sousa – que, repita-se, envolveu mais de mil e trezentos resistentes antifascistas – foi praticamente silenciada pela generalidade da comunicação social dominante.

Diz-me que candidato apoias dir-te-ei quem és: assim podemos dizer referindo-nos aos candidatos presidenciais e aos seus apoiantes. Isto é assim de uma forma geral, mas muito particularmente em relação a apoiantes que trazem consigo a designação de resistentes antifascistas. Quer isto dizer que há resistentes antifascistas de primeira e de segunda? Não: há é resistentes que foram e deixaram de o ser e outros que foram e continuam a sê-lo.
Cavaco Silva, que nunca foi antifascista, tem no seu currículo dez anos de governação ao serviço da política de direita. E reconheça-se-lhe a eficácia de que deu provas: nunca os grandes grupos económicos estiveram melhor representados no governo; nunca o grande capital teve um mais fiel servidor; nunca os direitos e interesses dos trabalhadores foram mais desprezados; nunca a Constituição da República Portuguesa foi mais espezinhada; nunca a democracia de Abril foi alvo de ataques mais violentos; nunca, desde os tempos de Salazar e Caetano, a arrogância, o autoritarismo, a repressão haviam atingido tais níveis – e, sublinhe-se ainda, nunca Portugal tinha tido um chefe de governo mais ignorante e mais inculto. Assim sendo, só resistentes antifascistas fora de prazo e virados das avessas é que podem apoiar o cavacal candidato. E estão bem: uns para o outro e o outro para os uns.

De Mário Soares, que foi resistente antifascista, sabe-se que tem uma história de décadas de prática e defesa de uma política de direita igual, no essencial, à que Cavaco Silva praticou, pelo que, dispondo entre os apoiantes da sua candidatura de um núcleo certamente maior de resistentes antifascistas, sabe que só uns quantos de entre eles, certamente poucos, podem juntar a essa condição resistente a de homens e mulheres que vêem na revolução de Abril e nas suas conquistas, designadamente no conteúdo da Constituição da República Portuguesa aprovada em 2 de Abril de 1976, a continuação coerente da luta travada durante décadas contra o regime fascista.
O mesmo acontece no que respeita aos apoiantes antifascistas da candidatura de Manuel Alegre, ele, também, resistente, ele, também, tendo dedicado os seus últimos trinta anos de actividade política ao apoio e à defesa da mesma política de direita defendida e praticada por Cavaco e Soares – pelo que não hão-de ser muitos, entre os seus apoiantes antifascistas, os que complementam a sua actividade contra a ditadura com uma intervenção coerente na defesa de Abril e das suas conquistas.
Quanto a Francisco Louçã, foi também resistente antifascista (isto, se não acreditarmos na juventude que o líder do BE ostenta...) e tem, também, os seus apoiantes antifascistas. Que hão-de saber que o candidato que apoiam tem desenvolvido uma actividade intensa não tanto, na realidade e bem vistas as coisas, contra a política de direita - à qual, no seu jeito típico, vai lançando umas feéricas e estrelejantes bichas de rabear, semelhantes àquelas com que os garotos, no Carnaval, tentam assustar as pessoas – mas essencialmente numa intervenção que tem como preocupação maior o anticomunismo.

Quanto aos resistentes antifascistas que apoiam a candidatura de Jerónimo de Sousa, o que os distingue da generalidade dos apoiantes dos outros candidatos é, tão-somente, o facto de serem resistentes a tempo inteiro: pessoas que não se cansaram nem desistiram de lutar; que resistiram ao fascismo quando isso foi necessário e prosseguiram a luta nas novas condições geradas pelo derrubamento do fascismo; que integraram a caminhada pela construção de uma democracia avançada, com as suas conquistas sociais, políticas, económicas, culturais, civilizacionais; que, ao longo de trinta anos, têm vindo a participar activamente na resistência à ofensiva da política de direita - que é a política da contra-revolução de Abril - e que, por tudo isso, apoiam a candidatura que simboliza uma luta cujas raízes essenciais se situam na resistência antifascista e que se desenvolveu Abril fora e que continua, com determinação e confiança; e que, por tudo isso, sabem que quanto mais expressiva for a votação em Jerónimo de Sousa, melhores serão as condições para continuar e intensificar as lutas do futuro.


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