«Sou amigo de um homem que é um profissional de raríssima qualidade»
O homem mais brilhante que passou pela RTP
Homenagem a Artur Ramos
Textos de Correia da Fonseca e Artur Portela

Artur Ramos, falecido na passada semana, foi homenageado em Julho, no âmbito do Festival de Teatro de Almada. O texto seguinte foi lido então, por Correia da Fonseca, numa noite em que a grandeza de Artur Ramos como homem de cultura e como cidadão foi sublinhada.
Na noite de 30 de Novembro de 97, a RTP transmitiu «A rapariga de Varsóvia», teleteatro encenado e realizado por Artur Ramos sobre o texto de Mário de Carvalho. Foi, como aliás não surpreendeu, um trabalho de grande qualidade, e decerto a RTP o terá reconhecido, o que não era difícil, pois voltou a transmitir a peça apenas três anos mais tarde. Contudo dez dias antes, a empresa pública de televisão dera ao seu mais antigo realizador efectivo um singular presente de aniversário: obrigara-o a pedir a reforma, a pretexto de que atingira uma idade supostamente avançada. Contudo, era óbvio que Artur Ramos estava profissional e intelectualmente pujante, como aliás foi provado com trabalhos posteriores de diversa ordem, designadamente duas encenações nos palcos do Teatro Nacional D. Maria II e do Centro Cultural de Belém em 1999 e 2002. De facto, o que a RTP então cometeu foi, mesmo para lá da abjecção no plano ético, um acto gravemente esclarecedor quanto ao seu próprio rumo, o da liquidação da TV pública como factor de estímulo e promoção cultural e quanto à sua aversão militante e entranhada a tudo quanto de perto ou de longe tenha a ver com cultura. Nesse quadro, a expulsão de Artur Ramos foi na verdade certeira: ele havia sido desde sempre o homem que na RTP mais obstinada e corajosamente se batera para que a empresa assumisse a tarefa que fundamentalmente lhe cabe: cumprir um Serviço Público de televisão, isto é, ser interveniente activa no combate ao secular défice português nas áreas da cultura e também, em larga medida, do civismo. Por isso, de resto, era aquela de facto a terceira vez que Artur Ramos era demitido da RTP. A primeira havia sido em 61, a coberto da motivação assumidamente política: já então Artur Ramos era militante do PCP na clandestinidade, aliás evidente sinal de coragem. A segunda foi em 76, na sequência da repressão política ocasionada pelo 25 de Novembro. A terceira era aquela, mascarada formalmente de não-renovação de um contrato a prazo. Anuladas as duas primeiras, por iníquas e ilegais, esta seria definitiva.
Por mim, como telespectador desde há muito interessado pela TV e desde há agora mais de trinta e sete anos a passar, melhor ou pior, por crítico de televisão, fiquei profundamente indignado e consternado perante a brutalidade praticada pela RTP. É que tenho como certo que Artur Ramos foi o homem mais brilhante, o profissional mais completo, que passou pela Radiotelevisão Portuguesa ao longo de toda a sua existência. Pela vasta bagagem profissional que no tempo certo colheu no melhor lugar: em Paris, na Radiotelevisão Francesa, nos meados dos anos 50.

Um profissional de qualidade

Pela vasta cultura organizada com enorme lucidez. Pela rigorosa e, não evitemos a palavra certa, admirável coerência entre convicções, sabedorias e prática como profissional e como cidadão. Pela coragem, é claro. Ouvindo tudo isto, poder-se-á suspeitar de que o digo porque sou amigo de Artur Ramos. A verdade é que não comecei por aí, pela amizade. Mas quanto a essa eventual suspeita, bem poderei dizer, plagiando um pouco palavras alheias: é verdade que sou amigo de um homem que é um profissional de raríssima qualidade e um cidadão de verticalidade impecável, pois não poderia ser amigo de um profissional medíocre que acumulasse essa condição com a de ser um cidadão de coluna vertebral flexível. E, quanto a matéria de cidadania, bem posso dizer que Artur Ramos é homem de um só parecer, de um só rosto e de uma só fé, para utilizar aqui as palavras sempre actuais do velho Sá de Miranda. Sublinhando, já agora, que se usa cada vez menos ser assim, como bem sabemos todos.
Por tudo isto, que está longe de ser tudo, é com muita e intensa alegria que estou aqui, a participar neste «obrigado» colectivo que hoje dirigimos a Artur Ramos e cuja amplitude é reforçada pela presença do senhor secretário de Estado da Cultura. Ficam longe de saldadas as contas que temos em aberto com Artur Ramos e nas quais todos ficamos ainda com enorme saldo devedor. Mas talvez fiquemos um pouco com o sentimento de dever cumprido. O que já não é irrelevante neste tempo que tem vindo a ser construído por gente que não se parece com este homem raro com quem temos o privilégio de estar hoje.

«Um militante da cultura»

Largas dezenas de pessoas prestaram, no passado dia 11 de Janeiro, a sua última homenagem a Artur Ramos, militante comunista e destacada figura dos meios culturais. No seu funeral, para além das de Luís Francisco Rebelo, foram proferidas palavras por Artur Portela. O orador informou os presentes que preferia ler "uma mensagem que acabara de receber". Desdobrou umas poucas folhas de papel e começou a ler:
Você fala.
Depois do Rebello.
Dois, três minutos.
Não me ultrapasse os três minutos, homem!
Escusa de levar fato preto.
A Helena estará na primeira fila, entre a Sofia e a Cláudia.
Quero que todos os outros estejam calados.
Flores ao fundo. Não me afoguem tudo com flores!
A Lourdes que não chore.
O Pedro que não resmungue.
O Charters que não diga que o São João é um teatro, mas no Porto.
Todos os sítios são, se quisermos, teatros.
E todos os teatros são espantos.
Eu estarei onde tenho de estar, em cima de uma plataforma.
Não exagere nos elogios.
Diga que fui um militante.
Desde logo, embora não só, um militante da cultura.
Diga que eu fiz televisão: a que havia a fazer e no negativo daquilo para que a queriam.
Diga que eu fiz teatro.
Diga que eu fiz cinema.
Diga que, dantes, os animais censuravam. Hoje, os animais não censuram. Embora continuem a exagerar!
Diga que eu dirigi gente.
Diga que eu fui um arquitecto de gente.
Diga que eu fiz isso por causa da gente.
Para libertar a gente.
É para isso que o teatro serve.
A RTP foi outra história. A RTP FOI OUTRA HISTÓRIA.
P quer dizer Portuguesa!
Ou quererá dizer Portugueses?
Os textos, caramba, os textos! O Miller, o Manel da Fonseca, o Brecht!...O Beckett!
Diga que nada desculpa ninguém e que ninguém desculpa nada.
É também esse o sentido do Pinter.
Mas diga também que o amor é uma grande exigência.
E que a ternura pode ser a mais libertadora das indisciplinas!
Diga que eu brinquei com os meus netos.
Levei-os aos teatros que podem ser todos – diga-o aí ao Charters - e tudo e em todo o lado!
Os leões dos Jardins Zoológicos, quando os ponho a ensaiar para os meus netos - entram da direita para a esquerda.
E os palhaços dos Circos riem quando eu disser.
Os ursos não, os ursos não! Já disse que os ursos não entram agora,, caramba!...
Se vir os meus netos mais pequenos, faça-lhes uma festa por mim na cabeça.
Peça-lhes desculpa pela sua mão não ser a do Avô.
Diga-lhes que a voz que ouvirem dentro deles e que lhes parece a voz do avô são eles que me levam vivo dentro deles.
Eu agora aqui, pelos vistos, vou ter muito trabalho.
Aqui, como eu já sabia, ninguém tem asas nas costas, e ninguém sabe o seu papel!
Aí, uma última coisa, uma última coisa!... VOTEM BEM!...! Eu sei do que falo, eu nasci em 26!

(Artur Portela)



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