Meia centena de universidades em greve contra a precariedade
Movimento social amplia-se em França
Protesto faz tremer Villepin
A contestação à lei do primeiro emprego alastrou no início da semana à maioria dos pólos universitários de França. Os jovens recusam a precariedade total que o governo de direita pretende impor aos menores de 26 anos.
Após as manifestações da passada semana, seguiu-se a ocupação das universidades, com destaque para a histórica Sorbonne, que foi um dos centros do movimento de Maio de 1968 e que desde então nunca mais fora ocupada. Aqui, a polícia interveio na madrugada de sábado, expulsando os estudantes e encerrando o edifício com o pretexto de avaliar os prejuízos provocados.
Frente às instalações fechadas, protegidas por barreiras metálicas e por dezenas de agentes do corpo de intervenção, centenas de estudantes concentra-se, na segunda-feira, com o objectivo de continuar o protesto. Ali iniciaram um desfile pelo Quartier Latin, cortando o trânsito no bulevar de Saint-Michel, que acabou em confrontos com a polícia junto à entrada do Colégio de França, onde os manifestantes foram impedidos de entrar.
Por todo o país, o protesto intensificou-se com mais universidades e institutos em greve. Contando com a adesão da União Nacional dos Liceus e de outras associações do secundário, as acções de luta realizadas na terça-feira, 14, continuam hoje, quinta-feira, estando marcada para o próximo sábado uma grande manifestação.
De acordo com a União Nacional de Estudantes de França (UNEF), a principal organização estudantil, 52 das 84 universidades do país estavam total ou parcialmente encerradas devido à greve.
O governo francês suaviza estes números, contabilizando 14 universidades em greve (mais seis que na sexta-feira, 10) e 27 «com perturbações». Mesmo assim, impossibilitado de diminuir o impacto nacional do movimento, o primeiro-ministro Dominique Villepin tentou acalmar os ânimos com uma intervenção televisiva, no domingo, em que voltou a defender os seu polémico projecto, comprometendo-se no entanto a acrescentar-lhe «novas garantias» a negociar com os sindicatos e patrões.

Governo isolado

A luta dos estudantes tem encontrado apoios em vários sectores da sociedade, a começar pelos sindicatos e partidos da esquerda parlamentar que desde o início contestam a lei designada como CPE (contrat première embauche).
Este «contrato de primeiro emprego» destina-se aos jovens menores de 26 anos que ficam à mercê do poder discricionário atribuído ao empregador durante um período de dois anos.
Neste período dito experimental, o jovem trabalhador poderá ser despedido em qualquer momento sem justificação, o que constitui um claro atropelo à lei geral do trabalho e um factor acrescido de precariedade que já hoje afecta gravemente os jovens.
Entretanto, vários reitores de universidades franceses tomaram posição pública contra o CPE exigindo a sua retirada. Por seu turno, os sindicatos anunciaram que desfilarão ao lado dos estudantes na manifestação do próximo sábado.
Os grupos socialistas na Assembleia Nacional e no Senado apresentaram, na terça-feira, um recurso no Conselho Constitucional, com o apoio dos comunistas, verdes e radicais de esquerda.
A braços com a escalada da conflituosidade social, Villepin foi obrigado a suspender a sua participação na cimeira franco-alemã em Berlim, mas insiste que o CPE vai entrar em vigor dentro de duas semanas, assegurando que o governo está «unido e determinado» quanto a esse objectivo.
Menos convicto pareceu estar o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, uma das figuras centrais do governo, quando apelou, na segunda-feira, ao presidente da República, Jacques Chirac, para que intervenha sobre a matéria.
Para o antigo ministro socialista, Jack Lang, a contestação ao CPE colocou a equpa de Villepin numa situação de ruptura. Lang, um dos presidenciáveis do PS, considerou, num encontro com Chirac, que o governo «já não tem a confiança do país», pedindo ao presidente que declare a dissolução da Assembleia Nacional.


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