Editorial

«Foi precisamente a lutar contra o horror que p PCP construiu parte da sua história»

COISAS DO ANTICOMUNISMO DE SEMPRE

O destempero anticomunista e anti-PCP vertido por Francisco Louçã na entrevista que concedeu ao Diário de Notícias não é motivo de surpresa. Pelo contrário: vem na linha de uma postura política que faz do anticomunismo o pão dela de cada dia - e com isto se está a reconhecer à referida postura o direito de se exibir como e quando muito bem entender e os seus interesses o exijam.
O gritado destempero também não acrescenta nada, rigorosamente nada, de novo, à essência do argumentário que há mais de um século tem vindo a ser utilizado pelos anticomunistas de todos os matizes em todo o mundo. Pelo que, estamos perante uma eloquente exibição do bê-á-bá do anticomunismo de todas as idades, épocas e espaços.
Diz o entrevistado que «o Partido Comunista não tem ideologia», isto é, tem, mas «não pode ser dita», porque é «a ideologia de um partido que defendeu o Estado repressivo», já que «o PCP tem 85 anos de história quase todos vividos na base da defesa da União Soviética», «modelo de sociedade (…) grotesco, pavoroso, de destruição da liberdade do povo e da própria ideia do socialismo» - «e é este modelo de sociedade (…) que corresponde à história inteira do PCP».
Temos assim que, para o entrevistado, a história da União Soviética é o horror e a história do PCP a do elogio do horror – condenações que sendo proferidas, neste caso, por quem são, poderiam igualmente sê-lo, noutros muitos casos, como a vida nos tem mostrado e continuará a mostrar, por qualquer outro membro da vetusta e diversificada família anticomunista que se espalha por todo o planeta. Salazar, por exemplo e para não irmos mais longe, proferiu durante décadas, sistematicamente, condenações gémeas, na forma e no conteúdo, das acima citadas. Felizmente, hoje os tempos são outros e a impiedosa condenação anticomunista não vem, já – pelo menos até ver – acompanhada pelas torturas, pelos assassinatos, pelos longos encarceramentos nos fortes de Caxias e Peniche, enfim, pelo horror.

Foi precisamente a lutar contra o horror que o PCP construiu parte da sua história. E pode dizer-se, dizendo a verdade, que para pôr termo a esse horror, ninguém deu maior contributo do que os comunistas e o seu partido. Foram quarenta e oito anos de luta – e sempre, sempre ocupando a primeira fila - contra o fascismo, pela liberdade, pela democracia, pela justiça social, pelos direitos e interesses dos trabalhadores, do povo e do País, pela independência e soberania nacionais. Uma luta que, porque tinha esses objectivos, incorporava um outro mais ambicioso: a construção de uma sociedade liberta de todas – sublinhe-se: todas - as formas de opressão e de exploração: a sociedade socialista e comunista.
Se a estes tempos se juntarem as mais de três décadas posteriores ao 25 de Abril – nas quais o PCP teve um papel determinante quer nos avanços revolucionários que culminaram com a aprovação da Constituição de Abril e da democracia avançada por ela consagrada, quer na resistência aos trinta e dois anos de política da contra-revolução de Abril – teremos a síntese da «história inteira do PCP».
História que honra quem a protagonizou e que, obviamente, incomoda, irrita, destempera, quem vê nela um obstáculo a opor-se aos seus sonhos de ave rasteira, de voo baixo, e, ademais, possuída pelo hábito preguiçoso de pôr ovos nos ninhos dos outros com a esperança de os disfarçar aos olhos dos ingénuos.
História que, e particularmente no que se refere à resistência ao horror fascista, não decorreu de qualquer heroísmo predestinado que tornaria tudo facilíssimo, mas é tão-somente a consequência de os seus protagonistas serem portadores de uma ideologia – isto é, de um conjunto de ideias (políticas, económicas, sociais, jurídicas, éticas) que, constituindo um todo harmonioso e coerente, definiam um projecto de sociedade – e de essa ideologia corresponder (como todas as ideologias correspondem, sabe quem quer) aos interesses de uma determinada classe. Neste caso o proletariado – e aí é que bate o ponto. E percebe-se que o entrevistado destempere.

Não cabe, num texto desta dimensão, uma abordagem circunstanciada às questões levantadas pelo entrevistado sobre a União Soviética – de que ele fala como Bush fala do eixo do mal. Fiquemo-nos, por isso, por algumas breves referências, tão-somente para relembrar: que a revolução de Outubro constituiu o acontecimento de maior relevância, significado e modernidade do século passado; que os avanços políticos, económicos, sociais, culturais, civilizacionais, por ela proporcionados marcam impressivamente toda a história da humanidade; que a União Soviética foi o mais sólido apoio à luta dos povos contra o colonialismo e contra os regimes fascistas – e que o povo soviético e o seu Exército Vermelho foram os protagonistas principais da derrota do projecto nazi de domínio do mundo.
A experiência soviética fracassou. Por razões várias, que vão desde a ofensiva persistente do capitalismo internacional (desencadeada mal a revolução acabara de triunfar), até um conjunto de causas internas ligadas a graves erros cometidos, a práticas de perversão da democracia socialista, a práticas de afastamento e afrontamento dos ideais comunistas. Ficou a experiência. A dizer-nos que na revolução de Outubro se situam as raízes da sociedade do futuro: a sociedade sem exploradores nem explorados, livre, justa, solidária, fraterna, pacífica, nova – e que o que é essencialmente negativo no balanço a fazer a essa experiência é, precisamente, o facto de ela ter fracassado.


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