Editorial

«A ofensiva de branqueamento do fascismo avança todos os dias»

FASCISMO NUNCA MAIS

Como uma maré negra - poluente, lamacenta, repugnante e cheia de perigos - a ofensiva de branqueamento do fascismo avança todos os dias, amiúde dando novos e graves passos em frente. Uma trupe de historiadores encartados, de serviço à revisão da história, procede não apenas à absolvição do fascismo, mas à louvação apologética das suas virtudes. Noutro estilo mas na mesma onda, um bando de politólogos com poleiros cativos em todos os órgãos da comunicação social dominante, ao mesmo tempo que cumpre o seu papel de propagandista da política de direita, desunha-se na tarefa de limpar o fascismo de qualquer sinal de mácula e de o apresentar democrático e moderno.
Naturalmente, esses historiadores e politólogos escrevem o que a classe dominante (sucessora da que, durante meio século, foi o suporte essencial do regime fascista) quer que escrevam. Uns, categóricos e ameaçadores, garantem que, em Portugal, nunca existiu fascismo; outros, admitem a existência de um regime um bocadinho autoritário, é certo, mas nada de grave, muito de acordo com a brandura dos nossos costumes: uns puxões de orelhas, uns açoites, enfim, aquilo que os chefes designavam por uns safanões a tempo.
Estas ideias-base têm, depois, os desenvolvimentos da praxe. Concluir que o fascismo foi uma invenção da propaganda comunista, é uma delas. Aliás, velha, com longas barbas brancas: Salazar e Caetano, os ditadores fascistas, fartaram-se de decretar e mandar publicar que essa coisa da repressão, dos espancamentos, das torturas, dos assassinatos, não passava de invenções dos comunistas com o objectivo de manchar o bom nome da pátria lusitana.
Tudo isto a confirmar o que a História está farta de demonstrar: que o fascismo é, sempre e em primeiro lugar, anticomunista; e que o anticomunismo é, sempre e em primeiro lugar, antidemocrático.

Os propagandistas acima referidos podem assobiar para o ar fingindo não saber estas verdades. Mas sabem que estão a assobiar para o ar. E é isso que os torna particularmente perigosos.
A expressão «regime fascista desapareceu totalmente do discurso escrito ou oral desses historiadores e politólogos. Durante uns tempos, substituíram-na por «antigo regime» ou «Estado Novo» - mas acabaram por optar em definitivo e exclusivo pelo «Estado Novo». Percebe-se: «antigo regime» pode conter, ainda, um vago indício de crítica ao regime fascista, enquanto «Estado Novo», para além de ser a formulação preferida dos ditadores Salazar e Caetano, tem um perfume de modernidade, coisa que não é de somenos importância no tempo que vivemos... Sabem todos, no entanto, que quando estão a escrever «Estado Novo», estão a referir-se a quarenta e oito anos de opressão, de repressão, de ausência total de liberdade, de violência, de brutalidade, de selvajaria; sabem, todos, que estão a referir-se a uma ditadura inspirada nos modelos nazi-fascistas da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, igual, na sua essência, a todas as ditaduras fascistas do mundo.

A operação levada a cabo nos últimos dias pela generalidade da comunicação social dominante, visando transformar Marcelo Caetano num herói nacional, é um desses grandes passos em frente da ofensiva de branqueamento do fascismo. Um passo gigante, aliás. Humanizando o ditador, realçando-lhe as elevadas qualidades pessoais, divulgando dele uma imagem de vítima de inúmeras ingratidões e injustiças, os divulgadores do branqueamento do fascismo confirmaram-se, de facto, como activos propagandistas do fascismo.
Foi anunciado um conjunto de iniciativas comemorativas do centésimo aniversário do ditador, promovidas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. De entre essas iniciativas, avulta a criação de um «museu» a inaugurar e ser aberto ao público ainda este ano.
Importa sublinhar desde já que um museu que ignore aquela que é a mais impressiva marca da vida e da actividade de Marcelo Caetano – o seu papel na teorização, na construção e na existência da sangrenta ditadura fascista que durante quase meio século oprimiu Portugal e o povo português - não seria um museu, mas um acto de provocação à democracia; um museu que ignore a responsabilidade, directa e indirecta, de Marcelo Caetano, na prisão e na tortura de dezenas de milhares de antifascistas, não seria um museu, mas um insulto à memória desses antifascistas que, ao longo de quarenta e oito anos, lutaram contra a ditadura fascista, pela liberdade e pela democracia, e sofreram na pele as consequências da participação nessa luta; um museu que ignore o facto mais relevante da vida de Marcelo Caetano – o de ditador e chefe da ditadura fascista - não seria um museu, mas uma afronta à inteligência e à sensibilidade de todos os democratas portugueses, uma afronta à democracia e à liberdade conquistadas com o 25 de Abril de 1974.
Ora, tudo indica que o anunciado museu não será um museu...
Veja-se este outro ângulo da referida operação: preencher, durante vários dias, parte grande do tempo e do espaço da generalidade da comunicação social, apresentando como herói nacional um ditador fascista, um criminoso, constitui um exemplo concreto do cerco a que trinta anos de política de direita – praticada pelo PS e pelo PSD, com o apoio sempre que necessário do CDS/PP – têm vindo a sujeitar os ideais libertadores e progressistas da democracia de Abril. O que torna cada vez mais premente a luta contra essa política e cada vez mais actual a palavra de ordem conhecida de todos os democratas portugueses. «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais».


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