Editorial

Com uma política assim, é muito difícil fazer uma oposição à «direita»

Diferenças

A chamada rentrée, tão badalada na comunicação social reinante, que tenta valorizar as humildes iniciativas dos partidos que, à direita do PCP, inventaram «universidades» aldeãs ou sardinhadas com mais sardinha que gente, e desvalorizar a grandiosa Festa do Avante! onde acorrem, em festa e em luta, milhares e milhares de pessoas vindas a expensas suas de todos os cantos do País e da emigração, num evento de três dias em que o somatório de horas de trabalho voluntário chegaria para mostrar ao mais céptico o empenho dos comunistas e dos seus amigos, essa «rentrée» já está dando os seus frutos.
É claro que, à direita do PCP, trata-se apenas, com mais ou menos diferenças críticas, de prosseguir na política de direita. Nada de novo saiu das iniciativas propagandísticas destes partidos. Mas a retoma da mesma política e da mesma postura prossegue. Sem novidade, dir-se-ia. Mas há, de facto, algumas novidades que será necessário assinalar, embora com o inevitável sabor a velho.

Não nos vamos deter sobre o vago folclore do BE, em dificuldades para relançar actividade que não seja, nos momentos certos, mostrar-se «oposição» ao PS e, nos momentos de aflição, lhe coadjuvar a política. O mais relevante da política de direita foi o acordo, amparado e benzido por Belém, entre os dois partidos que se têm revezado no poder e que, como numa corrida de estafetas, passam o testemunho um ao outro para aprofundar os males do País. PS no Governo e PSD na «oposição», à revelia de todos, acordaram um pacto de regime, que serve desta feita para formatar a Justiça e conformá-la aos moldes de dominação de classe.
Outras novidades da política de direita? Quase não seria necessário enumerá-las, tão conhecidas são da maioria dos portugueses. Mas porque a memória costuma ser curta e a propaganda muita, aqui escrevemos o óbvio: em lugar dos milhares de postos de trabalho criados, o desemprego cresce, com mais de meio milhão de desempregados devidamente contabilizados e mais de 750 mil trabalhadores – estes indevidamente contabilizados no quadro do emprego – cujo vínculo laboral é precário. O encerramento de empresas – nomeadamente daquelas que foram subsidiadas pelo Estado e que abandonam o terreno para se «deslocalizarem» para novas e mais promissoras paragens – prossegue, acrescentando mais desemprego e menos desenvolvimento.

Mas as novidades da rentrée não se ficam por aqui. Com vista a «modernizar» e a combater a «interioridade», o Governo passa das promessas aos factos e manda encerrar centenas de escolas. As maternidades prosseguem na senda do encerramento. E se falarmos dos salários? E se falarmos dos serviços públicos que desaparecem na voraz «modernização» de Sócrates e companhia?
É claro que, com uma política assim, já o dissemos, é muito difícil fazer uma oposição à «direita». Por isso terá Marques Mendes optado por um acordo que dará aos seus barões a ilusão de que participa efectivamente no poder... Ao mesmo tempo que evita as dificuldades sociais que teria para consumar, no Governo, um programa assim!
As directivas de Bruxelas e os mandos do capital, se não fazem baixar o défice que tem servido de pretexto ao apertar do cinto e a todas as malfeitorias, dão chorudos lucros àqueles para quem esta política é imaginada e levada à prática.
O certo é que as dificuldades já começaram também para Sócrates – saídas da luta e do empenhamento de cada vez mais numerosos trabalhadores atingidos pela política de direita e pela opção neoliberal que o PS tão bem conduz contra o País e contra a maioria da população portuguesa.

A verdadeira diferença da rentrée está, pois, nos comunistas e no PCP. A algazarra imperialista a que quase todos os outros partidos e seus analistas encartados se dedicaram – mais uma vez cumprindo o mando de Bush – e que assim procurou atacar a maior manifestação cultural e política de Portugal, a Festa do Avante!, não conseguiu destruir-lhe o fulgor. Acusando o PCP de albergar terroristas e procurando esquecer a Constituição que estipula o «direito à insurreição contra todas as formas de opressão», como é o caso da opressão que reina na Colômbia e contra a qual lutam há 40 anos as FARC, comentadores e analistas procuraram desviar as atenções do que na realidade aconteceu na Atalaia. E que foi o verdadeiro programa de acção que Jerónimo de Sousa anunciou no seu discurso de encerramento.
Exigindo uma «inversão na política externa portuguesa», que «termine com a vergonhosa subserviência aos ditames das grandes potências», declarando a oposição do PCP à participação de Portugal numa força multinacional no Líbano, o secretário-geral do Partido avançou com uma série de iniciativas em que nos empenhamos de imediato. A reapresentação do projecto de lei sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez na AR; a insistência na proposta de gratuitidade dos manuais escolares para o ensino público obrigatório; uma campanha nacional pelo direito à reforma e por pensões dignas e na defesa de uma segurança social pública, universal e solidária; a proposta de um programa nacional de combate à precariedade e ao trabalho não declarado e ilegal; a exigência de uma política de trabalho com direitos, do reforço dos meios e da eficácia da IGT, da alteração das custas judiciais e da criação do Instituto do Acesso ao Direito; o anúncio da iniciativa de apresentar um projecto de lei de valorização do Salário Mínimo Nacional.
Entre muitas outras iniciativas, estas foram particularmente aclamadas no gigantesco comício – fora de moda? – da Festa do Avante!
Os comunistas são gente séria e cada vez mais gente acaba por descobri-lo. Mal a Festa encerrava as suas portas, a iniciativa estava já nas ruas e nas empresas e estará brevemente nas instituições.


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