• Gustavo Carneiro

Sob a calma da serra há todo um mundo subterrâneo, a pulsar de vida
Minas da Panasqueira
Riqueza nas entranhas da terra
Vale a pena apostar na produção nacional. Esta foi uma das conclusões tiradas por Jerónimo de Sousa após a visita que realizou anteontem, terça-feira, às minas da Panasqueira. Depois de descer à mina, o secretário-geral do PCP, acompanhado por dirigentes locais do Partido, reuniu com a Comissão de Trabalhadores e com a administração.
«Product of Portugal» (produto de Portugal), lê-se nos grandes sacos brancos que se amontoam num armazém situado no complexo fabril das minas da Panasqueira. Dentro de cada saco estão mil quilos de volfrâmio, que rumarão aos Estados Unidos, mais precisamente à unidade fabril da alemã Osram, maior fabricante mundial de lâmpadas. E é para lá que seguem as 130 toneladas deste minério produzidas mensalmente nas minas da Panasqueira.
O contrato de fornecimento exclusivo com a empresa alemã termina em 2010, conta o director-geral Fernando Vitorino. Mas o responsável confia que este será prolongado: «Não vão desperdiçar quem lhes garante 130 toneladas por mês, ainda por cima de minério de boa qualidade.». Mas aconteça o que acontecer, acredita que as minas não vão parar. A Europa ou a Ásia – que tem vindo a aumentar a procura deste material – são outros potenciais clientes.
A nível mundial, Portugal representa 3 por cento da produção deste minério – contra os 86 por cento produzidos pela China. Mas o volfrâmio da Panasqueira é, pela sua densidade, «o melhor do mundo», afirma-se. Por isso terá sempre procura, confia o director-geral.
Para além dos filamentos das lâmpadas de iluminação, o volfrâmio é utilizado também no fabrico de resistências eléctricas, ligas de aço e ferramentas. A seguir ao diamante, conta outro responsável da mina, é o mineral mais resistente que se conhece. Prosseguindo, estima que sem o volfrâmio seria necessário, na produção de ligas metálicas, quatro vezes mais metal – como o ferro ou o níquel – para garantir a mesma consistência.
Dos milhares de quilómetros de túneis que se escondem sob o chão da Serra do Açor também se extrai estanho e cobre. Mas é o volfrâmio – também conhecido como tungsténio – a principal riqueza do subsolo naquela região. Está também a ser estudada a possibilidade de iniciar a exploração de ouro, um pouco mais a norte, mas o volfrâmio existente permite garantir a exploração durante várias gerações. As prospecções prosseguem e surgem novos filões.

Produção nacional
Uma aposta que vale a pena


As minas da Panasqueira são, para Jerónimo de Sousa, um exemplo de que «vale a pena apostar na produção nacional». O secretário-geral do PCP lembrou que estas minas estiveram «praticamente condenadas e hoje estão a trabalhar em pleno, com um minério de qualidade superior totalmente para exportação». Os mais de trezentos trabalhadores que emprega, realçou, têm grande importância numa região «tão depauperada e tão fustigada pelo desemprego, dada a situação que se vive no sector dos têxteis e dos lanifícios».
Até há pouco mais de dois anos, a mina estava praticamente parada e empregava 200 trabalhadores. Hoje, trabalham mais de 300 e todos os meses se «batem recordes de produção», garante o director-geral Fernando Vitorino. O aumento brusco do preço do volfrâmio e a vontade dos trabalhadores foram, para este responsável, as causas do «renascimento» das minas da Panasqueira.
A extracção de minério chegou a ser suspensa pela administração da multinacional canadiana Beralt, que detém a licença de exploração das minas da Panasqueira. Os salários foram, durante vários meses, pagos pelo Fundo de Garantia Salarial da Segurança Social.
Com o aumento do preço do volfrâmio no mercado internacional, a administração faz novos investimentos e prepara a retoma da laboração. Novos trabalhadores são contratados. Os mineiros exigem ser recompensados pelos anos difíceis e pelos aumentos da produção e dos lucros. Já este ano, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira, da CGTP-IN, vence o braço de ferro que mantinha com a administração: são alcançados aumentos salariais de 5,73 por cento (mais de 35 euros, em média) e um prémio de produção de 5 euros por cada tonelada produzida acima das 120 toneladas mensais.
A Jerónimo de Sousa não passaram despercebidas as alterações verificadas nas condições de trabalho dos mineiros nos últimos anos. Do ponto de vista da tecnologia, destacou, «há aqui grandes avanços desde a última vez que cá vim», há cerca de 20 anos em actividade sindical da federação dos metalúrgicos e mineiros. «Hoje um mineiro tem melhores condições de trabalho», afirmou.
Mas não se esqueceu de referir algumas preocupações com os salários e com a higiene, segurança e saúde no trabalho. Nomeadamente com a silicose, doença respiratória que afecta os trabalhadores deste sector.
A visita, sustentou o dirigente comunista, teve fundamentalmente um carácter «positivo», de «valorizar o que há para ser valorizado». Para Jerónimo de Sousa, o «nosso aparelho produtivo é, em si mesmo, produtor de emprego». E acrescentou mesmo que «sem a defesa e modernização do aparelho produtivo e da produção nacional não há soluções económicas que se mantenham de uma forma solidificada».

Um mundo debaixo do chão

«Quem nunca ali desceu não faz ideia do mundo que está ali debaixo», afirmou, ao terminar a explicação inicial, o velho mineiro que guiou a visita da delegação do PCP ao interior das minas da Panasqueira. Vestidos os fatos cor-de-laranja, calçadas as botas de borracha altas, acomodados os capacetes e testadas as lanternas, delegação e jornalistas iniciaram a descida, até aos 200 metros de profundidade.
Nos escuros e labirínticos túneis, grandes viaturas circulam de um lado para o outro transportando o minério arrancado da terra. Antes de ser levado para a superfície, tinha ainda que ser escolhido e separado. A humidade é grande e a única luz existente está pendente nos capacetes dos mineiros ou nos faróis dos transportes. O frio que se sente na escuridão dos túneis depressa se transforma num calor abrasador na proximidade das máquinas.
O veterano mineiro ia explicando o trabalho e, apontando uma faixa de cerca de trinta centímetros de altura nas paredes escavadas, precisava: «aquilo que ali vêm é que interessa, é o filão de volfrâmio. O resto não presta.» Pegando num pedaço de pedra negra e brilhante, chamou: «venham ver o peso disto… É volfrâmio».
Nos cerca de quatro quilómetros percorridos, foi possível contactar com mineiros que trabalhavam. Muitos eram jovens que encontraram ali o emprego que lhes faltava à superfície. Um deles, natural de Aljustrel, era filho e neto de mineiros. O secretário-geral do PCP questionou: «parece que aquilo agora vai reabrir por lá… Voltas?» O jovem mineiro respondeu negativamente, que ali tinha emprego estável e não tinha por que voltar. Aos jornalistas, o dirigente comunista afirmou que «ao contrário do que se diz por aí, os jovens não querem trabalhos precários».
A visita continuava e foi com visível emoção que o guia parou junto a uma máquina. É uma grande broca utilizada para fazer «chaminés» para a superfície. «Foi a melhor compra que se fez aqui», destacou. Era precisamente neste trabalho – quando era feito à mão – que se dava a maior parte dos acidentes mortais. «Quando isto fechou, nos anos noventa, – prosseguiu o mineiro – esta máquina foi emprestada à Somincor e ainda serviu para nos pagar os ordenados».
De volta à superfície, visitou-se a lavaria, que trabalha 24 horas por dia. Ali é dado o tratamento final ao minério. Entre vários pavilhões, tapetes rolantes transportam o volfrâmio e transformam-no. No fim do processo, sai num grão fino e negro, pronto para ser embalado. Ao fundo, num armazém, acumulam-se os sacos de uma tonelada, à espera de viajarem para a América. «Product of Portugal», lê-se em todos eles.


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