Editorial

«Eram os produtores da riqueza a exigir aquilo a que têm direito: a repartição justa dessa riqueza»

MANIFESTAÇÃO HISTÓRICA

Foram muitos, muitos mil, os que, vindos de todo o País, desfilaram do Terreiro do Paço/Rossio até São Bento, defendendo, na rua e em luta, os seus direitos de trabalhadores, de mulheres, de jovens, de reformados – os direitos que a política do Governo de Sócrates lhes nega; os direitos que a política do Governo do PS lhes rouba – direitos humanos fundamentais que a política de direita, aplicada pelo Governo Sócrates/PS (com o apoio de toda a direita e em flagrante violação da Constituição da República Portuguesa) afronta todos os dias: o direito ao emprego, a salários justos, a condições de trabalho humanas, à liberdade de organização e acção sindical, a reformas e pensões dignas; o direito à saúde, à educação, à habitação; o direito ao presente, o direito ao futuro; o direito a um país livre, democrático, soberano e independente.
Eram os produtores da riqueza do País a exigir aquilo a que têm direito: a repartição justa dessa riqueza. Eram milhares e milhares de trabalhadores de todas as áreas de actividade do sector privado e da administração pública, numa convergência assumida que engrossou e deu mais força à luta - numa convergência nova, e saudada com alegria, que abre novas perspectivas para o prosseguimento, intensificação, fortalecimento e ampliação das batalhas que se seguem.

Eram comissões de utentes das mais diversas proveniências - homens, mulheres e jovens, exigindo bem alto o respeito pelos seus interesses e direitos de cidadãos.
Eram velhos resistentes antifascistas e velhos e novos defensores da paz que exigiam ao Governo o respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos e o fim da colaboração com o imperialismo em guerras criminosas.
Eram muitos homens e muitas mulheres que nas últimas eleições legislativas votaram no PS e agora vieram à rua exigir que esse voto, traído pelo Governo PS/Sócrates, lhes fosse devolvido.
E entre os que desfilavam, eram muitos os que pela primeira vez nas suas vidas participaram numa manifestação; que pela primeira vez tomaram consciência da necessidade e da importância de lutar; que constataram que tinham opinião e que essa opinião, quando há democracia, tem que ser ouvida – e que, por tudo isso, gostaram de participar e, na próxima, voltarão.
Nas suas posturas, nas inscrições escritas nos panos e cartazes que empunhavam, nas palavras de ordem que gritavam – muitas delas improvisadas ali, no meio da rua que, naquele dia, era o centro da luta – os manifestantes ergueram um gigantesco «Protesto Geral» e deram expressão concreta ao apelo da CGTP – Intersindical Nacional, a grande central sindical dos trabalhadores portugueses.

Há muito, muito tempo que não se via, no nosso País, uma manifestação como a que, no passado dia 12, se realizou em Lisboa: pela quantidade de pessoas que nela participou – e que, a dada altura, formava uma fila ininterrupta entre o Terreiro do Paço e São Bento – mas também, e talvez essencialmente, pela combatividade, pela confiança, pela determinação, pela força que essas pessoas ostentavam. A dizerem a quem queriam que as ouvisse que a luta vai continuar, cada vez mais forte.
O Comité Central do PCP, na sua reunião da passada segunda-feira, classificou-a como uma poderosa demonstração de indignação e protesto contra a ofensiva do Governo e do grande capital; como uma indesmentível afirmação de exigência de mudança de política; como um impressionante testemunho da força dos trabalhadores e do povo. E, sublinhando que tudo isso evidencia as enormes potencialidades existentes e uma enorme capacidade de resistir e de abrir caminho a um Portugal com futuro, o CC apelou ao prosseguimento e à intensificação da luta, destacando a importância da greve dos trabalhadores da Administração Pública marcada pela Frente Comum dos Sindicatos para os dias 9 e 10 de Novembro, bem como outras acções de diversos sectores, empresas e camadas sociais.

O primeiro-ministro reagiu como era de esperar: incomodado com uma manifestação de trabalhadores que, pela dimensão e força que mostrou, trouxe à luz do dia a falsidade das «sondagens» fabricadas por uma poderosa campanha de propaganda, afirmou, arrogante e ameaçador, que não lhe falta «coragem» para fazer «o que é necessário fazer.»
Mas sabemos nós, e sabe o primeiro-ministro, que a «coragem» de que ele fala outra coisa não é se não o cumprimento servil dos ditames do grande capital. Coragem - verdadeira e democrática coragem - seria, isso sim, inverter o rumo da política do Governo e, no respeito pela Lei Fundamental do País, iniciar uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País. Foi essa coragem que os trabalhadores lhe vieram exigir na histórica manifestação do dia 12.
Também a turba canora dos propagandistas da política de direita - os chamados «comentadores políticos» - acorreu de imediato a cumprir o seu papel, menorizando a manifestação - não na sua grandeza, porque isso seria contraproducente para os seus objectivos manipuladores e mistificadores, mas proclamando a ineficácia da luta. Com isso pretendem, obviamente, desmobilizar os trabalhadores, empurrá-los para a aceitação passiva das inevitabilidades que aumentam os lucros dos grandes grupos económicos e financeiros (e os rendimentos desse propagandistas) e esvaziam os bolsos de quem trabalha e vive do seu trabalho.
Mas, da mesma forma que estilhaçaram as «sondagens» do primeiro-ministro, os trabalhadores remeterão as teses dos «comentadores» para o seu destino histórico: o caixote do lixo.


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