Editorial

«Os trabalhadores tomaram o pulso a si próprios e confirmaram a força de que dispõem»

UMA FORÇA IMBATÌVEL

Os efeitos do poderoso Protesto Geral do passado dia 12 continuam a repercutir-se positivamente no estado de espírito dos trabalhadores, na sua disposição e determinação de luta. No dia 12, os trabalhadores como que tomaram o pulso a si próprios e confirmaram a força de que dispõem – uma força que, se unida, organizada e correctamente direccionada, é imbatível.
Os reflexos da gigantesca movimentação de trabalhadores são visíveis igualmente no que respeita à reposição da verdade em relação à falsa imagem positiva do Governo PS/Sócrates – uma imagem até aí ampliada por sondagens de mais que duvidosa credibilidade e que as massas em movimento estilhaçaram de forma categórica.
O Governo, surpreendido pela dimensão, pela força e pela composição diversificada dos participantes da manifestação, estremeceu: não esperava tanta gente – e isso preocupou-o; não esperava tanta convicção – e isso aumentou-lhe as preocupações; não esperava tanta força - e isso irritou-o; e muito menos esperava que, entre os manifestantes, estivessem tantos eleitores e eleitoras que nas últimas eleições votaram no partido do governo, designadamente membros desse partido – e isso apavorou-o.
Mas a verdade é que as consequências da política praticada pelo Governo são de tal forma gravosas para a situação dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens - e criam tantos problemas e dificuldades e dramas à imensa maioria da população – que levaram a que muitos que haviam confiado sinceramente nas promessas eleitorais do PS se sintam, agora, ludibriados e juntem a sua voz à voz dos que sempre têm combatido a política de direita, com isso dando mais força à luta e abrindo novas e melhores perspectivas.

Esse é um dado tanto mais relevante quanto sabemos que, em matéria de política governamental, se aquilo que já veio é mau, o que aí vem é péssimo.
É fácil de prever, olhando para as grandes linhas do Orçamento do Estado para 2007, que a prossecução da política de cega obediência ao chamado Pacto de Estabilidade conduzirá inevitavelmente ao corte do investimento e da despesa pública, à baixa dos salários reais e das pensões de reforma, à continuada perda de poder de compra, à continuação do aumento do desemprego e da precariedade do emprego, à redução dos rendimentos dos trabalhadores e das famílias, ao progressivo desmantelamento das funções sociais do Estado - enfim, a todo um conjunto de calamidades que recairão sobre todos os trabalhadores, seja qual for a opção política e partidária de cada um, e que, por isso mesmo, impõe a unidade na luta pela defesa dos direitos e interesses de todos.
Como sublinhou o Comité Central do PCP no comunicado aprovado na sua recente reunião, a amplitude, os perigos e as previsíveis consequências da ofensiva do Governo exigem o desenvolvimento, intensificação e alargamento da luta, através não apenas da organização de lutas sectoriais com os seus objectivos e dinâmicas próprias, mas também da concretização de novas acções convergentes que tragam à luta camadas cada vez mais amplas das massas populares e dêem a continuidade necessária ao Protesto Geral do dia 12.
É esse, e essencialmente esse, o caminho para a defesa dos interesses dos trabalhadores e das populações, para derrotar a política de direita, para construir uma alternativa de esquerda que ponha termo aos desmandos da política do grande capital e inicie um novo rumo, tendo como referência fundamental a Constituição da República e os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

O facto de a política de direita fazer dos trabalhadores o alvo prioritário dos seus ataques e ter como beneficiário único o grande capital, confere-lhe um conteúdo antidemocrático e anticonstitucional que comporta perigos grandes para o regime democrático. É sempre assim: quanto maior for a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, mais pobre é a democracia em vigor. Pelo que, os ataques às liberdades democráticas – que o PCP tem insistentemente denunciado – tendem a acentuar-se e a assumir crescente gravidade à medida que o Governo for desenvolvendo a sua política de direita.
Muitas das liberdades conquistadas em Abril foram já sonegadas aos trabalhadores e ao povo, e o ódio do grande capital à Revolução está presente de forma inequívoca na política que há trinta anos tem vindo a ser aplicada pelo PS, o PSD e o CDS.
Expressão bem elucidativa desse ódio de classe é a forma como a comunicação social dominante – propriedade do grande capital – silenciou a impressionante sessão de homenagem ao general Vasco Gonçalves. Um silêncio tremendamente ruidoso, assim como quem, ao grito democrático e livre de «25 de Abril sempre», quis responder com uma qualquer velharia reaccionária, género 25 de Abril nunca. Percebe-se: Vasco Gonçalves foi - entre outras coisas que fizeram dele uma figura maior da nossa história - primeiro-ministro de quatro governos provisórios que tiveram como traço característico essencial o facto de defenderem e praticarem os direitos dos trabalhadores, a independência e a soberania nacionais, a democracia e as liberdades.
Numa altura em que se assinala o 70º aniversário da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal – exemplo do terror fascista que durante quase meio século tiranizou o povo português – os ataques às liberdades democráticas por parte da política de direita trazem para a ordem do dia, como tema de imperiosa reflexão colectiva, a questão da liberdade e da democracia. Procedamos, então, a essa reflexão. Começando por onde devemos começar: Fascismo nunca mais.


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