Editorial

«Um passo pequenino, mas que, apesar disso, fez saltar raivas e ódios de classe»

UM PEQUENO PASSO EM FRENTE

Se dúvidas houvesse sobre a importância e o significado do Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários, recentemente realizado em Lisboa, elas seriam liminarmente desfeitas com as reacções que o referido Encontro desencadeou.
Lendo e ouvindo os comentários dos habituais propagandistas de serviço, é fácil apercebermo-nos da raiva que exala das prosas por eles vertidas. É fácil apercebermo-nos de quanto a realização do Encontro os irritou. E é fácil perceber as razões de tamanha irritação.
Na verdade, este Encontro sai dos esquemas mentais em que estão encerrados os minúsculos cérebros dos referidos propagandistas. O que eles sabem e têm por tarefa repetir (tarefa que se presume ser paga e bem paga) é o que lhes disseram para dizer: que «o comunismo morreu», que os partidos comunistas «deixaram de existir», que «o capitalismo é o fim da história». E daqui não saem. Nem podem sair, sob pena de serem despedidos, com justa causa, por falta injustificada e por incapacidade profissional.
E é este peso de responsabilidade que, quando a realidade lhes fura o esquema – neste caso uma realidade traduzida na reunião de 63 partidos que, a crer no que eles dizem, não existem... - os faz perder a cabeça e lhes provoca ataques de raiva como aqueles a que acabámos de assistir. Raivas que, como lemos e ouvimos, não trazem novidades: os propagandistas repetiram tudo o que vêm dizendo desde que são propagandistas. Para além disso, e por dever solidário, citaram-se uns aos outros, elogiaram-se uns aos outros, e ficaram satisfeitíssimos com as citações e com os elogios.

O Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários – e a participação nele de representantes de 63 partidos - constituiu um acontecimento relevante, especialmente se se tiver em conta a situação vivida no mundo e no movimento comunista nos últimos anos.
O desaparecimento da União Soviética que, há quinze anos atrás, culminou a derrota da primeira grande tentativa na história da humanidade de construção de uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração, constituiu uma tragédia civilizacional com profundas e trágicas repercussões - repercussões na situação dos trabalhadores e dos povos à escala planetária, na paz mundial, no movimento comunista internacional.
As causas dessa derrota, não obstante estar por fazer a análise aprofundada que a sua gravidade impõe, podem reduzir-se a dois grandes conjuntos de factores essenciais: no plano externo, a permanente e violenta ofensiva do capitalismo internacional num vale-tudo que durou setenta anos; e, no plano interno, a adopção de práticas de frontal afastamento e afrontamento do ideal comunista.
Já as consequências da derrota, essas são visíveis a olho nu – pelo menos para quem não seja (ou não seja pago para ser) cego: em comparação com o tempo em que existia a URSS e a comunidade socialista do Leste da Europa, o mundo é, hoje, menos livre, menos democrático, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico. O objectivo imperialista de domínio do mundo expressa-se, por um lado, na acentuação da exploração dos trabalhadores (com o recurso a formas em muitos casos herdadas do esclavagismo) e, por outro lado, por uma prática de esmagamento brutal de todos os países e povos que se recusem a acatar os ditames do imperialismo – com bombardeamentos que vitimam centenas e centenas de milhares de inocentes, quando isso é necessário.
Assim, a realidade mostra todos os dias que o capitalismo, ao contrário do que propalam os seus propagandistas, não só é incapaz de resolver os problemas da humanidade, como os agrava com a sua política de opressão e de exploração – e que a história do capitalismo é uma longa história de injustiças, de barbaridades, de crimes. As dezenas de milhares de pessoas que todos os dias morrem à fome e por falta de cuidados médicos, são vítimas do capitalismo, como o são os milhões assassinados pela força bruta imperialista ao longo da história, quer instalando e apoiando brutais ditaduras fascistas responsáveis pelos mais violentos atentados às liberdade e à democracia, quer destruindo países e esmagando povos.
Contra esta sociedade velha e por uma sociedade nova – isto é, livre, justa, pacífica, solidária - lutam, na primeira linha, os comunistas de todos os países. Que são milhões. E que são hoje muitos mais do que eram há poucos anos atrás.

Outra das consequências da derrota do sistema socialista como sistema mundial, foi o enfraquecimento e a fragilização do movimento comunista. Os partidos comunistas, todos, perderam força, influência, capacidade de intervenção. Alguns abandonaram a sua identidade comunista. Outros transformaram-se em partidos social-democratas. Outros, ainda, deixaram de existir. Os que resistiram e se mantiveram fieis aos seus ideais e ao seu projecto de sociedade, têm vindo a viver momentos particularmente difíceis.
Entretanto, o tempo passou e a evolução da situação em cada país e no mundo – com o capitalismo à rédea solta exibindo a sua essência opressora, exploradora e criminosa - veio confirmar a necessidade da existência de partidos comunistas e da unidade entre eles.
E é à luz desta realidade que deve ser visto este Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Um passo em frente – um passo pequenino, sem dúvida, e muito aquém do que a gravidade da situação exige, mas que, apesar disso, fez saltar raivas e ódios de classe.
Por isso, um passo a que há que dar continuidade.


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