Na Faculdade de Letras de Lisboa
Coragem e determinação contra práticas fascistas
Um grupo de estudantes antifascistas juntou-se para pintar um mural na Faculdade de Letras de Lisboa, na quinta-feira, em reacção à destruição de um mural da JCP com inscrições de carácter fascista. Na ocasião, dezenas de neo-nazis procuraram intimidar os antifascistas, que recusaram abandonar o seu projecto.
Na escadaria da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa juntam-se alguns jovens com latas de tinta e pincéis dentro de sacos. São quase quatro da tarde, a hora marcada por um grupo de jovens antifascistas para fazer um novo mural na parede de um dos edifícios da instituição, apoiados pela União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP).
No local, há cerca de cinco meses, o colectivo da JCP pintou um mural com um excerto de um poema de Bertold Brecht: «Do rio que tudo arrasta todos dizem violento / mas não das margens que o oprimem.» Há duas semanas, o mural foi riscado e surgiram alusões fascistas, que se repetem em vários pontos da faculdade. Em reacção, os jovens propuseram-se pintar no mesmo local um novo mural com a frase «25 de Abril sempre» e desenhos com cravos.
No panfleto distribuído na faculdade durante a semana, os jovens antifascistas apelavam aos estudantes para participar na acção, insistindo que «afirmar os ideais antifascistas hoje é garantir a liberdade de amanhã». «É preciso que em cada dia sejamos capazes de defender a liberdade, a democracia, a fraternidade e a necessidade de continuar a sonhar com um mundo melhor. O fascismo não passará», lia-se no documento.
No dia marcado, aos poucos vão surgindo mais jovens na escadaria de entrada. Do outro lado da rua está estacionada uma carrinha dsa Equipas de Intervenção Rápida da 3.ª Divisão da PSP. De repente surge um grupo de cerca de 40 skinheads, rapazes e raparigas. De braços musculados e mangas arregaçadas, vestindo predominantemente de preto e branco, olham ostensivamente para a escadaria. Os fotógrafos presentes são rodeados. «O que é que estás a fotografar? A nós não nos tiras fotos», ameaçam.

O mural

Os jovens antifascistas decidem que está na altura de iniciar o novo mural e deslocam-se para o local. Em breve são seguidos pelos skinheads e por alguns membros da PSP. Ricardo não frequenta a instituição, mas fez questão em participar na iniciativa. «Estou aqui, acima de tudo, como antifascista», declara. «Cheguei um bocadinho mais cedo, estive no bar e ouvi estudantes a comentar, revoltados, contra a existência de neo-nazis», refere. «Não temos de encolher os braços, temos de fazer frente senão ainda é pior. Unimo-nos aqui para pintar um mural contra o fascismo e pela liberdade. Vamos lá ver como é que isto corre», comenta.
Perto está Catarina, militante da JCP e estudante da Faculdade de Letras. Ela é frequentemente ameaçada nos corredores da instituição por skinheads inscritos na escola. Aproximam-se dela e dizem frases como «Puta comunista! Para a próxima não é com a mão, é com uma faca!»
Catarina refere que «os estudantes da faculdade sentem necessidades de manter as liberdades democráticas. Por isso constituímos um movimento de estudantes antifascistas, que querem manter as liberdades democráticas do 25 de Abril.»
A tensão vai aumentando. O grupo dos neo-nazis vai-se aproximando, ficando quase ombro com ombro com os antifascistas, numa atitude de intimidação e ameaça. Vão atirando comentários provocatórios: «Estão a pintar por cima? Mas estava tão bonito! Vejam lá se se sujam!» Outro grupo opta por frases mais violentas: «É já uma facada na gaja!»
Os jovens antifascistas prosseguem com a pintura, ignorando as provocações e as ameaças. Às cavalitas de um companheiro, uma rapariga pinta as zonas mais altas, com determinação. Ao mesmo tempo, vários outros jovens preenchem a área restante. À volta, estudantes observam a cena.
Quando o mural apresenta quase exclusivamente um fundo branco e preto, a PSP interrompe a pintura. «Têm de parar. Não pintam nem uns nem outros», afirma um agente, argumentando com a existência de ordens superiores. «Grande barraca, chumbaram. Vão lá para as aulinhas», dizem os cabeças rapadas. Vários jovens antifascistas entram em diálogo com o agente, insistindo no seu projecto e mostrando a Lei Sobre Afixação e Inscrição de Mensagens de Propaganda e o parecer do Tribunal Constitucional sobre a Lei da Propaganda. Indicam-lhes o agente hierarquicamente superior e a conversa prossegue a poucos metros do mural.
Entretanto, um skinhead tira fotografias aos presentes, em alguns casos a meio metro dos visiados. Um rapaz põe a mão à frente, em sinal de protesto. Ouvem-se novos comentários dos cabeças rapadas: «Está a esticar o braço, também parece nazi. Não o prendem?» Finalmente, um agente da PSP aproxima-se e pede ao skinhead da máquina fotográfica para se identificar.

Serenos

Quase 20 minutos depois, a conversa dos jovens antifascistas com a polícia acaba. Não terminam o mural, mas pintam um cravo vermelho. As provocações verbais prosseguem.
Os antifascistas preparam-se, então, para abandonar o local, todos juntos, acompanhados pela polícia. Caminham devagar alameda a cima, direitos ao cruzamento da Avenida das Forças Armadas. A revolta é visível.
«Viemos todos juntos, eles ficaram lá. Agora não sei se a polícia vai deixá-los pintar por cima. Eles estavam lá com tintas», salienta Ricardo. «Começaram a provocar-nos... Não foi fácil, não foi fácil», insiste, sem esmorecer.
«O nosso lado é que tem razão e, apesar da pressão e da provocação, sinto-me mais forte. Nesta alturas temos de estar serenos e não responder a provocações. Não descemos ao nível deles. Além disso, no campo das provocações e da violência, eles ganham-nos por experiência. Acho que nos portámos muito bem. Tivemos o comportamento que devíamos ter, pintar o mural e não ceder às provocações», considera Ricardo. Atrás, dois jovens cantam em coro a «Bandiera Rossa», canção da resistência italiana antifascista na II Guerra Mundial. Ninguém duvida de que a escolha foi a propósito.
No dia seguinte, a dúvida de Ricardo é esclarecida: o cravo vermelho foi apagado e o mural foi pintado com uma frase neo-nazi e com o símbolo comum ao Partido Nacional Renovador e à Frente Nacional, organização ilegal pelo seu carácter fascista e racista.
Os jovens antifascistas não cederam à intimidação e às ameaças, nem à própria PSP, e insistiram em pintar o mural e afirmar os ideais da liberdade e da democracia. Os seus valores estão na base da sua confiança, determinados a combater o fascismo em todas as suas expressões.

Paulo Marques, dirigente da JCP e da URAP
Em defesa das conquistas democráticas


Paulo Marques, dirigente da JCP e da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), participou na pintura do mural e conversou com os agentes da PSP. Em entrevista, comenta os acontecimentos.


- Como foi o diálogo com a PSP?
- Primeiro é preciso dizer que os agentes da PSP que ali estão recebem ordens. Quando explicámos o que estávamos ali a fazer, por um lado, ficaram sensibilizados, mas, ao mesmo tempo, disseram que tinham ordens superiores para impedir imediatamente o mural.

- O que é disseste ao responsável da PSP?
- Disse que durante mais de uma semana esteve uma suástica pintada naquela parede. Falei-lhe da Constituição da República, dos direitos democráticos, do 25 de Abril e lembrei que os símbolos nazis são proibidos pela Constituição. A direcção da escola só hoje é que decidiu tapar a suástica, porque sabia que íamos lá fazer o novo mural. Eu expliquei que o mural que íamos pintar representava um cravo a nascer e uma família com um cravo na mão. Ele ficou um bocado embaraçado, porque sabia que nós tínhamos razão, só que não queria de forma nenhuma deixar-nos pintar porque tinha a tal ordem superior.

- Como é que comentas este episódio?
- Isto faz lembrar o poema do Brecht: «Primeiro levaram os comunistas / Mas não me importei com isso / Eu não era comunista / Em seguida levaram alguns operários / Mas não me importei com isso / Eu também não era operário / Depois prenderam os sindicalistas / Mas não me importei com isso / Porque eu não sou sindicalista / Depois agarraram uns sacerdotes / Mas como não sou religioso / Também não me importei / Agora estão me a levar a mim / Mas já é tarde.»
Para que não seja tarde, fomos à Faculdade de Letras repor a verdade histórica e mostrar que em Portugal houve 25 de Abril, em Portugal houve revolução, em Portugal não há fascismo. O fascismo morreu no dia 24 de Abril de 1974. Onde haja um símbolo ou uma prática de cariz fascista, está a URAP. O mural foi pintado em nome de todos os estudantes. Onde houver fascismo estamos lá para o limpar.

- E a presença daquele grupo de extrema-direita?
- Isto mostrou que o Estado português tem de perceber que há grupos nazi-fascistas a crescer e que tem de lhes dar combate. Nós estávamos ali numa jornada de coragem, de confiança e de alegria. Não nos amedrontamos com este tipo de forças. O que ali fizemos foi uma prova viva que o 25 de Abril está vivo no seio da juventude.

- Perante a pressão do grupo de extrema-direita sobre os jovens anti-fascistas, como comentas o seu comportamento?
- Ao desprezar o facto de ali estarem, a nossa atitude só demonstra que não lhes demos a importância que eles não têm. Mostrámos que a força dos nossos ideais, dos nossos princípios e dos nossos valores é mais forte do que qualquer provocação. Não lhes damos sequer essa importância e a melhor prova de que os iremos continuar a combater é no dia-a-dia, na resistência, na jornada dos jovens trabalhadores no dia 28 de Março... Os símbolos fascistas não podiam ficar dentro de uma faculdade. Os jovens receberam como herança as conquistas democráticas e cabe-nos a responsabilidade de as defender. A democracia faz-se exercendo-se. Defendemos com orgulho a nossa herança histórica.

- Porque existem grupos neo-nazis em Portugal?
- Estes grupos existem porque o Estado não os ilegaliza, apesar de a sua existência não ser permitida à luz da Constituição. Eles concorrem a eleições, inclusivamente. Estes grupos não devem existir, porque não pode haver democracia sem liberdade. Só há verdadeira democracia quando as diversas forças respeitam a presença das outras forças, quando se exprimem ideias. Estas forças não respeitam nada disso, seja o direito ao voto, o direito à liberdade de expressão ou o papel da mulher... Não respeitando isso, não merecem existir e viver em liberdade. Continuaremos a bater-nos por uma sociedade limpa do fascismo.

- O que leva as pessoas a aderir a grupos destes?
- Felizmente são grupos muito minoritários na sociedade portuguesa. Sabemos historicamente como surgiu o fascismo alemão e italiano. O contexto histórico é semelhante ao de hoje: a sociedade não responde às necessidades das pessoas. Haverá muitos jovens enganados, num contexto de crise. Mas a resposta é outra: é a resposta da paz, da democracia e da liberdade.


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