Editorial

«As respostas são por demais evidentes para quem olhe para a situação nacional»

À CUSTA DE QUÊ E DE QUEM?

Comentando o foguetório lançado por José Sócrates e pelos analistas ao serviço da política de direita a pretexto de o défice das contas públicas ter ficado abaixo do que estava previsto – o que os conduziu à conclusão (a que todos eles já haviam chegado há dois anos…) de que «o País está no bom caminho» - o secretário-geral do PCP, na intervenção produzida por ocasião da VII Assembleia da Organização de Leiria do PCP, sublinhou o facto de tamanho alarido se reportar a «uma baixa de sete décimas, obtida ao fim de dois anos de aplicação de uma política económica e orçamental de cega obsessão pelo défice orçamental». E, aludindo à crucial questão de saber como é que o País pode ir no bom caminho quando o povo vai mal, Jerónimo de Sousa colocou outras perguntas necessárias: se é justificável e aceitável «um país com tantas dificuldades para relançar a sua economia, com tão elevadas taxas de desemprego e com tantas carências por superar no plano das respostas sociais, seguir o caminho de fazer descer o défice a ferro e fogo, como o Governo está a fazer»; e, outra pergunta: «à custa de quê e de quem se obteve tal resultado?.»
As respostas são por demais evidentes para quem olhe para a situação nacional: nenhum país «vai no bom caminho» se, como acontece em Portugal, o crescimento económico está praticamente estagnado; se as condições de vida dos trabalhadores e do povo se agravam e degradam todos os dias; se crescem as desigualdades e injustiças sociais; se a repartição da riqueza é cada vez mais em favor do grande capital e em desfavor do trabalho; se o desemprego aumenta; se a precariedade no emprego cresce, tende a generalizar-se e constitui, já hoje, uma das mais elevadas taxas de precariedade da União Europeia; se a repressão exercida sobre os trabalhadores e as suas estruturas representativas constitui um brutal atentado às liberdades, direitos e garantias.

Com efeito, e como acentuou Jerónimo de Sousa, as sete décimas de baixa foram obtidas essencialmente à custa do agravamento e da degradação das condições de vida da imensa maioria dos portugueses. E esse agravamento e essa degradação resultam, nomeadamente, da drástica redução do investimento público que atira o País para ínfimos níveis de crescimento económico - ao contrário do que aconteceria se o governo tivesse como preocupação maior servir o País e o povo e desse prioridade ao crescimento e ao emprego em vez de a ter dado ao défice. Não é fruto do acaso que a única promessa cumprida pelo Governo de José Sócrates seja a do combate ao défice – enquanto as promessas que deram votos continuam na gaveta, fechadas a sete chaves. Estão na lembrança de todos, os 150 mil novos postos de trabalho prometidos pelo PS no decorrer da campanha eleitoral - e está à vista de todos o resultado concreto dessa promessa: «uma taxa de desemprego (em sentido restrito) que atingiu no final de Dezembro um outro triste recorde de 8,2%, a mais alta taxa dos últimos vinte anos.»
E é igualmente visível à vista desarmada que, do outro lado da acentuação das dificuldades sentidas pelos trabalhadores e pelo povo, está a acentuação das facilidades concedidas aos grandes grupos económicos e financeiros (que fazem o que muito bem querem e lhes apetece, elevando a opressão e a exploração dos trabalhadores a níveis que remontam ao regime fascista); está o aumento sistemático dos lucros desses grupos (aumentos que se verificam sempre, seja qual for o estado da economia nacional).
Fica, assim, claro, à custa de quê e de quem (e também em louvor de quê e de quem) o Governo PS/José Sócrates faz a festa, deita os foguetes e apanha as canas dos ditos.

Contra esta situação e procurando dar concretização a uma ruptura democrática que - visando a substituição desta política de direita ao serviço do grande capital por uma política de esquerda ao serviço dos trabalhadores – dê início à resolução dos grandes e graves problemas que atingem os trabalhadores, o povo e o País, têm vindo a manifestar-se os trabalhadores, no sector público como no privado - levando a cabo, de norte a sul do País, uma multiplicidade de lutas envolvendo praticamente todos os sectores de actividade. Trata-se de lutas que se sucedem em crescendo, que evidenciam de forma clara a capacidade de mobilização, a força e o prestígio do movimento sindical unitário, da CGTP-IN, e que, no passado dia 2 de Março, convergindo para Lisboa, assumiram uma poderosa expressão e evidenciaram uma consciente e sentida disponibilidade de luta dos trabalhadores - uma disponibilidade ontem mesmo amplamente confirmada pela manifestação dos jovens contra a precariedade e pelo trabalho com direitos.
É óbvio que o Governo e aqueles que a sua política serve temem essa disponibilidade de luta dos trabalhadores. Daí as «tentativas de intrigalhada e de inventonas vindas a público em relação ao PCP e à CGTP, num filme que já vimos», como sublinhou o camarada Jerónimo de Sousa, em Leiria – um filme que, desta vez como das vezes anteriores, não terá o final que os seus produtores desejam. Porque os trabalhadores e as suas estruturas representativas saberão cortar-lhes as voltas. Porque quem participou na jornada de luta de 2 de Março «percebeu que quem ali estava, não estava para ficar por ali.» - porque quem estava ali, afinal, eram aqueles à custa de quem o Governo de Sócrates aumenta os lucros dos grandes grupos económicos e financeiros.


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