Editorial

«As manifestações constituíram um importante passo no processo de preparação da Greve Geral»

MAIO DOS TRABALHADORES E DA LUTA

Maio é luta e o seu primeiro dia é referência essencial na luta dos trabalhadores portugueses ao longo da história - desde 1890, ano em que, pela primeira vez, o 1º de Maio foi comemorado em Portugal, até terça-feira passada, com as massivas manifestações de trabalhadores em várias dezenas de localidades do País, nomeadamente em Lisboa e no Porto. Entre uma e outra destas duas datas encontramos alguns dos momentos maiores da luta protagonizada pela classe operária e pelos trabalhadores portugueses.
Desses momentos, vale a pena assinalar aqui o 1º de Maio de 1931, dia em que, pela primeira vez sob o regime fascista, os trabalhadores da região de Lisboa vieram para a rua em força e comemoraram o Dia do Trabalhador. Naturalmente sob forte repressão policial.
É indispensável lembrar, também, o ano de 1962, quando os trabalhadores portugueses, respondendo massivamente ao apelo do seu partido – o Partido Comunista Português –construíram o maior 1º de Maio de toda a história do movimento operário português até à altura. Nesse ano, centenas de milhares de trabalhadores, em muitas dezenas de localidades, por todo o País, afrontaram o salazarismo e fizeram do 1º de Maio uma importante jornada de luta pela defesa dos seus direitos e contra o regime fascista. Na cidade de Lisboa mais de cem mil trabalhadores ocuparam as ruas da Baixa durante largas horas, enfrentando as forças policiais e respondendo às cargas da polícia com as armas possíveis: pedras arrancadas do pavimento, postes de sinalização. Centenas de trabalhadores foram presos ou ficaram feridos e o jovem operário e militante comunista Estêvão Giro foi assassinado. É também em 1962 que, no Alentejo e no Ribatejo, 150 mil operários agrícolas, dando sequência às comemorações do 1º de Maio e culminando uma longa, difícil e corajosa luta, alcançam, ainda nesse mês, uma histórica conquista: as oito horas de trabalho.
«O dia 1 de Maio de 1962 será sempre lembrado como um marco fundamental na história da luta do proletariado português» - escreveu Álvaro Cunhal, sublinhando o facto, por demais relevante e significativo, de, desde então, o Dia do Trabalhador ter passado a ser o dia nacional da resistência antifascista, ocupando, assim, o lugar até aí ocupado pelo 5 de Outubro, dia da revolução republicana burguesa.

O 1º de Maio volta a adquirir um significado muito particular em 1974. Nesse histórico primeiro 1º de Maio em que as gigantescas manifestações então realizadas – afirmando o movimento operário e popular (e, de forma impressiva o Movimento Sindical Unitário) como uma poderosa realidade nacional - consolidaram a conquista das liberdades alcançada uma semana antes e abriram o caminho ao processo revolucionário que viria a conduzir à aprovação da Constituição da República Portuguesa – a Constituição de Abril, que consagrava um regime assente numa democracia política, económica, social e cultural, uma democracia avançada, amplamente participada e na qual a independência e a soberania nacionais constituíam pedras de toque essenciais.
Assinale-se, ainda, como data plena de significado, o 1º de Maio de 1982, quando a contra-revolução, instalada nos sucessivos governos desde 1976, voltara a fazer dos trabalhadores o seu alvo preferencial com aquele ódio de classe que não dá lugar a quaisquer hesitações em matéria de métodos utilizados: na sequência de uma provocação montada pela tríade Governo Balsemão/Freitas do Amaral, amarelos da UGT e Governo Civil do Porto, a Polícia de Choque assassinou, a tiro, no Porto, dois jovens trabalhadores – Mário Gonçalves e Pedro Vieira – e feriu dezenas de outros.

Tudo isto, toda a história do 1º de Maio em Portugal, esteve presente na importante jornada de luta da passada terça feira, nas grandes manifestações ocorridas em dezenas de localidades e em que muitas e muitas dezenas de milhares de trabalhadores, em vários casos sob chuva forte, vieram para as ruas reivindicar os direitos sociais, sindicais, humanos, que lhes são negados pelo Governo PS/José Sócrates; vieram para as ruas gritar a exigência de uma mudança de política, o fim da política de direita e a implementação de uma política de esquerda que inicie a resolução dos muitos e graves problemas que flagelam a imensa maioria dos portugueses.
Presente na multidão que comemorou o último 1º de Maio, esteve ainda, como não podia deixar de ser, a Greve Geral marcada para o próximo dia 30 de Maio: com efeito, as manifestações de anteontem confirmaram a enorme disponibilidade e determinação de luta dos trabalhadores e constituíram, por isso, um importante passo em frente no processo de preparação da Greve Geral - uma greve que a política anti-social e anti-laboral do Governo José Sócrates/PS tornou, mais do que necessária, imperativa. Trata-se, na verdade, de uma greve por direitos sociais e humanos; pelo direito ao trabalho e ao trabalho com direitos; por condições de vida dignas para todos os portugueses; pelo fim dessa chaga social que é a precariedade; contra essa outra brutal violação de direitos que é a chamada «flexigurança»; pelo fim da repressão patronal contra os trabalhadores e as suas estruturas representativas; trata-se, na verdade, de uma greve necessária e indispensável. Porque é uma greve contra a política de direita e por Abril - pelos valores e ideais de Abril que integram todos os direitos humanos fundamentais brutalmente espezinhados pelo actual governo.


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