O salário médio líquido registado em 1992 supera em termos absolutos o valor relativo a 2006
Forte quebra no poder de compra
Salários alemães estagnados há 20 anos
As estatísticas do Ministério do Trabalho da Alemanha confirmam as dificuldades crescentes que os trabalhadores germânicos sentem no seu dia-a-dia. Hoje, o valor nominal do salário médio líquido é praticamente idêntico ao registado em 1986.
Se há 20 anos a remuneração média anual dos alemães atingia os 15 785 euros líquidos (1315,40 euros/mês), em 2006 aquele valor não foi além dos 15 845 euros (1320.42 euros/mês), ou seja, uma diferença de apenas cinco euros a mais por ano.
Segundo o jornal Bild, a clara degradação do poder de compra dos alemães resulta, por um lado, do facto de as actualizações salariais não terem acompanhado a inflação. E por outro do acentuado aumento dos impostos e das quotizações sociais que incidem sobre os salários brutos.
O mesmo jornal, citado pelo diário francês Le Monde (25.09), indica que, em 2006, os descontos nos vencimentos atingiram 9 291 euros, montante que em 1986 foi apenas de 5607 euros, ou seja, um aumento de cerca de dois terços.

Salários reais descem mais de 40%

Aceitando que no período em análise se verificou uma inflação média de apenas dois por cento ao ano, conclui-se que os salários sofreram, só por esta via, uma redução real de 40 por cento nas últimas duas décadas.
A divulgação destes dados, na semana passada, reabriu o debate sobre o agravamento da injustiça na distribuição da riqueza, o aprofundamento das desigualdades sociais e a necessidade cada vez mais evidente de instaurar um salário mínimo nacional.
Para reenquadrar o problema, o Ministério do Trabalho esclareceu que os dados de 1986 não podem ser comparados uma vez que apenas se referem à República Federal Alemã, enquanto a estatística relativa a 2006 inclui já o território da antiga República Democrática Alemã, o que determinou uma baixa dos valores médios.
Contudo, esta intervenção do governo não convenceu os mais atentos. É que, como nota o Bild, jornal nacional de grande tiragem, já depois da unificação, em 1992, o salário médio líquido em toda a Alemanha elevava-se a 17 251 euros/ano, ou seja, estava 1406 euros/ano acima do valor apurado em 2006.
Por outras palavras, constata-se que é precisamente após a «queda do muro» que a ofensiva contra os salários e direitos dos trabalhadores ganhou mais força na Alemanha.

Tensões agudizadas

De resto, o ministro social-democrata do Trabalho e vice-chanceler, Franz Müntefering, não negou que «na realidade, os acordos salariais têm ficado atrás da evolução dos preços». Um «desequilíbrio nítido» reconheceu o governante, defendendo uma evolução salarial positiva capaz de dar «um impulso à economia».
Os reflexos do estrangulamento das camadas trabalhadores são há muito visíveis na retracção do mercado interno. De acordo com dados divulgados no final do mês passado, o comércio a retalho registou uma nova quebra em Agosto de 1,4 por cento. Mas o Gabinete Federal de Estatísticas observa que em relação ao ano anterior a quebra atinge os 2,2 por cento, valor muito acima dos 1,4 por cento previstos pelos analistas.
A diminuição das vendas é observada quer nos produtos alimentares quer nas restantes categorias de produtos, como o vestuário por exemplo, que sofreu uma redução de 2,9 por cento.
Face à notória diminuição da procura interna, as grandes empresas procuraram garantir os seus lucros orientando-se para os mercados internacionais. A Alemanha é há vários anos o primeiro exportador mundial, registando sucessivos recordes em excedentes comerciais.
No entanto, a agudização das tensões na sociedade alemã é hoje uma preocupante evidência até para o conservador presidente da República, Horst Koehler, antigo director do FMI.
No seu discurso anual de Berlim, na segunda-feira, dia 1, Koehler aludiu ao aprofundamento do fosso entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos, advertindo que «o sucesso de uns não deve tornar-se o fracasso de outros».
Na sua opinião, a sociedade alemã só aceitou no passado a crescente discrepância nos salários «porque a curva era ascendente para todos e tem de continuar a ser».
Todavia, neste sentido, o político democrata-cristão apenas se pronunciou a favor de uma maior participação dos trabalhadores no capital das empresas, uma proposta recentemente avançada pelo presidente dos sociais-democratas (SPD), Kurt Beck.


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