Editorial

«Os ataques à democracia têm no anticomunismo uma vertente indissociável»

DUAS EXIGÊNCIAS FUNDAMENTAIS

O recente congresso do PSD (a par das cerimónias da Igreja Católica em Fátima) preencheu parte grande do espaço e do tempo da generalidade da comunicação social dominante nos últimos dias.
Dir-se-ia que o País estava suspenso das decisões do conclave laranja. Que ali, em Torres Vedras, se esperava a ocorrência de um qualquer milagre - não, naturalmente, no sentido de restituir aos portugueses o que nos últimos 31 anos lhes tem sido roubado por sucessivos governos PS e PSD, mas no sentido de dar à política de direita a força de que necessita para prosseguir, sem obstáculos nem entraves, o seu desígnio anti-popular e anti-patriótico.
É claro que não houve, nem haverá, tal milagre: hoje mesmo, a luta contra essa política assumirá forte expressão de massas na grande manifestação convocada pela CGTP-IN para o Parque das Nações - numa jornada que, vindo na sequência de várias outras igualmente expressivas, é ponto de passagem para as lutas futuras que a situação criada pela política do Governo PS/José Sócrates impõe e exige. Tudo isto a confirmar – e a mostrar aos analistas políticos de serviço, cujos escritos ignoram a existência da palavra trabalhadores – o papel determinante da luta de massas na oposição à política de direita e na construção de uma alternativa de esquerda que tenha em conta os interesses desprezados da imensa maioria dos portugueses.

À falta do tal milagre, a ideia que os média pretenderam fazer passar – útil quer para o PSD quer para o PS – foi a de que, com a eleição do novo líder laranja e com o congresso desse partido, o PSD é, finalmente, «oposição». Percebe-se a necessidade sentida por todos os defensores da política de direita de restituir ao PSD de Luís Filipe Menezes o que, diziam, o PSD de Luís Marques Mendes não lograva alcançar: o cumprimento pleno da ciclópica tarefa de fingir ser oposição a um governo que, em matéria de política de direita, pede meças a qualquer outro nas últimas três décadas.
A dada altura do seu discurso, disse Luís Filipe Meneses, que o PS foi governo durante nove e meio dos últimos 12 anos, e falhou. Trata-se de uma verdade óbvia: tanto quanto o é afirmar que, nos 12 anos que antecederam os referidos pelo novo líder do PSD, o seu partido foi governo precisamente durante nove anos e meio e falhou.
E é necessário sublinhar que a razão destes falhanços dos dois partidos que, não o esqueçamos, ao longo das últimas três décadas, se têm revezado no poder, chama-se política de direita – uma política que falha quer seja o PS quer seja o PSD a executá-la, porque é contrária aos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; que falha porque tem como preocupação dominante a defesa dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros; que falha porque faz do regime democrático de Abril um alvo a abater. E, tão semelhante é a versão do PS à do PSD – e vice-versa – que com razão se diz que nem com uma forte lupa é possível distinguir diferenças essenciais entre uma e outra.
Curiosamente, no congresso do último fim-de-semana, voltaram a ouvir-se vozes avisadas e de mais longo alcance, repetindo a ideia de deixar o PS fazer o que ao PSD interessa que seja feito e que, porque é contrário aos interesses da maioria dos portugueses, traz custos políticos e partidários a quem o faz…

O novo líder do PSD, fez e anunciou uma sensacional descoberta: a de que «há muitos portugueses a precisar de um farol que lhes aponte o caminho».
E, como lhe competia, foi farol: retomando as ideias do conclave do Beato e de outras agremiações da mesma família, anunciou um conjunto de intenções bem reveladoras dos seus objectivos maiores, designadamente, queimar a Constituição da República Portuguesa – que, porque é de Abril, democrática e progressista, é intolerável para a política de direita – e substituí-la por um texto adequado à situação anticonstitucional vigente: um texto constitucional que consagre a supremacia do poder económico sobre o poder político; que anule os direitos dos trabalhadores, enfim, que toque no fundo da ofensiva contra o regime democrático.
E, sempre de farol na mão a apontar caminhos, iluminou, sem grande criatividade, diga-se, a privatização de tudo quanto, na sua opinião, é privatizável - desde a Segurança Social, a Saúde e o Ensino, aos portos, aeroportos e transportes, passando pelo saneamento e a água – ou seja, tudo o que é lucrativo, deixando ao Estado tudo o que não tenha a mais remota hipótese de dar lucro.
Em suma: mais do mesmo, fingindo mudar muito.

A situação que hoje vivemos, os perigos reais e concretos por ela gerados para o povo português, as ameaças de mais e maiores perigos futuros, colocam duas exigências fundamentais: a intensificação e a ampliação da luta de massas e o reforço do PCP. Trata-se de exigências convergentes, conhecidos que são a importância das lutas dos trabalhadores e das populações e o papel desempenhado pelos comunistas na sua organização e na sua dinamização.
Sublinhe-se que o crescendo da ofensiva anticomunista em curso e a acentuação da arrogância persecutória face às lutas dos trabalhadores, traduzem a consciência plena dos governantes de que estão a fazer uma política contrária aos interesses da maioria dos portugueses.
E vale a pena lembrar que os ataques à democracia têm no anticomunismo uma vertente indissociável – da mesma forma que o anticomunismo se desenvolve sempre por caminhos, mais ou menos escusos, de ataque à democracia e às liberdades.


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