Editorial

«o dever referido por Sócrates é, obviamente, o de destruir a democracia de Abril»

NOVAS FRONTEIRAS, CONVERSA VELHA

O Fórum Novas Fronteiras, variante socratista dos por de mais desacreditados Estados Gerais de iniciativa guterrista, cometeu mais uma edição no último fim-de-semana.
Da sua primeira aparição, em 2004, nasceu o Programa Eleitoral do PS, feito de muitas promessas, designadamente, a criação de 150.000 novos postos de trabalho; a garantia de que os impostos não iriam aumentar; o solene compromisso de que, a bem da «legitimação democrática do processo de construção europeia», o PS defendia que «a aprovação e ratificação do Tratado deva ser precedida de referendo popular».
As promessas, como era previsível, cumpriram o seu papel: deram os votos esperados. O Governo formado à custa desses votos, como era previsível, não cumpriu: meteu o Programa na gaveta e começou a fazer a política que sempre pensou fazer e que outra coisa não é do que a política que todos os governos PS e PSD têm vindo a praticar ao longo de mais de três décadas.
Ou seja: Novas Fronteiras, conversa velha.
José Sócrates conseguiu, mesmo, o feito notável e julgado de impossível concretização, de em tudo quanto é negativo, ir mais longe do que qualquer governo anterior. Assim, enquanto os lucros dos grandes grupos económicos e financeiros atingiram os maiores níveis de sempre, a situação da imensa maioria dos portugueses agravou-se: o desemprego aumentou; os impostos, idem; o «Tratado» avançará sem «legitimação democrática»; a precariedade tende a generalizar-se; os aumentos dos bens essenciais sucedem-se a um ritmo tal que os salários reais batem no fundo; as injustiças e desigualdades sociais sobem em flecha; a pobreza aumenta; a Saúde e o Ensino atingem graus extremos de degradação; a independência e a soberania nacional é tratada como qualquer vulgar mercadoria; o conteúdo democrático do regime vai sendo destruído com leis iníquas, complementadas com uma sanha persecutória que atinge todos os que contestam a política do Governo e, em especial, os trabalhadores e os representantes das suas estruturas sindicais, alvos das mais destemperadas ameaças, chantagens e represálias. Em resumo: a Constituição da República é todos os dias desprezada, violada, espezinhada por um Governo que, por isso mesmo, se posiciona cada vez mais fora da Lei Fundamental do País.

Enquanto tudo isto acontece - e do outro lado desta realidade brutal – as Novas Fronteiras prosseguem na mesma linha propagandística e demagógica da sua primeira representação em 2004: na reunião de Setembro passado, o primeiro-ministro, em empolgado e panglóssico discurso, apresentou um extenso rol de avanços obtidos nos primeiros «dois anos e meio de Governo», em matéria de «mais oportunidades para todos»: «mais oportunidades de educação, mais oportunidades de formação, mais oportunidades de integração social», enfim, «mais oportunidades» em tudo e «para todos». E, visivelmente satisfeito consigo próprio, auto-contemplando-se enlevado, adiantava, sem corar, que «é assim que se promove a justiça social, que se combatem as desigualdades, que se reduzem os riscos de pobreza e exclusão». Finalmente, sabe-se lá se convencido do que dizia se a brincar connosco, concluía que, graças à sua governação, «o País está mais moderno, com mais oportunidades para todos».
É claro que José Sócrates falava de um país só dele conhecido, que apenas existe na sua mente, e que é ignorado pelos milhões de portugueses que todos os dias sofrem na pele as consequências da política do Governo. Como se o tempo de duração do seu Governo não tivesse sido gasto, essencialmente, na dupla função de desgraçar o País e de se auto-elogiar pela obra feita.

Agora, as Novas Fronteiras voltaram à carga, segundo se diz para produzir «três mensagens políticas»: «estabilidade, firmeza e rumo certo». Foi, novamente, a auto-satisfação socratista, a presunção de que está a levar por diante uma obra histórica:«Quando se fizer a história desta legislatura, facilmente se perceberá que o PS fez o que era o seu dever». O dever referido por Sócrates é, obviamente, o de destruir a democracia de Abril.
O discurso de encerramento das Novas Fronteiras coube a António Vitorino, o qual, debruçando-se sobre a magna questão da «credibilidade das lideranças», elogiou a liderança actual à qual atribuiu uma virtude rara em Portugal, onde «o hábito adquirido é o de recuar à primeira nuvem no horizonte». Ora, grita Vitorino de punho…aberto, não há nuvens que façam recuar o Governo Sócrates/PS: porque estão no «rumo certo», garante o ex-ministro, «os socialistas não mudam de rumo», por muitas e muito carregadas que sejam as nuvens.
Neste caso, não se trata de uma promessa eleitoral: trata-se de uma determinação assumida e para cumprir, mesmo que «aqui ou ali haja um sinal de descontentamento.» E foi, certamente, recordando-se dos mais de 200 mil sinais de descontentamento vindos de todo o País no passado 18 de Outubro que acrescentou: «não somos indiferentes às manifestações, mas o projecto de modernização tem uma liderança firme». Depois, não se sabe se em tom irónico se ameaçador, rematou: «vamos continuar, habituem-se».
O aviso era dispensável: a prática deste Governo ao serviço do grande capital, dando continuidade agravada a práticas semelhantes de outros governos da mesma família, é bem conhecida dos trabalhadores portugueses. Daí a força, a convicção e a firmeza com que os 200 mil asseguraram que a luta continua. Como de facto está a acontecer.


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