Editorial

«Pires Jorge e Francisco Miguel lutaram até ao último dia das suas vidas»

UMA OPÇÃO DE VIDA

Neste final de 2007 – ano de muitas, grandes e fortes lutas, para o êxito das quais o PCP deu um contributo singular – assinalamos o centésimo aniversário do nascimento de dois camaradas cujo exemplo de comunistas ficará para sempre na nossa memória: Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel Duarte.
Das vidas destes dois militantes e dirigentes comunistas pode dizer-se que foram dedicadas ao Partido e à luta, em todos os momentos e situações. No tempo do fascismo, conscientes dos perigos que a sua opção comportava, eles ocuparam as fileiras da luta com uma exemplar coragem comunista. No período posterior ao 25 de Abril, eles cumpriram o seu papel na luta pela construção e consolidação da democracia, na luta pelas profundas transformações democráticas operadas na sociedade portuguesa e, posteriormente, na luta pela defesa dessas conquistas face à ofensiva contra-revolucionária – e sempre, num tempo como no outro, tendo como preocupação permanente o reforço do Partido.
Ambos foram alvo das implacáveis perseguições fascistas: Pires Jorge passou 16 anos nas prisões fascistas, Francisco Miguel, 21. Ambos foram, múltiplas vezes, submetidos às mais cruéis torturas – e ambos se recusaram, sempre, a prestar quaisquer declarações à polícia fascista. Ambos, ao saírem da prisão – fosse porque expiravam (às vezes, largamente) as penas a que haviam sido condenados, fosse porque haviam logrado fugir – mergulhavam na clandestinidade e retomavam o seu lugar nas tarefas e nos locais que o seu Partido determinava. E tudo isto, sempre, feito com a simplicidade das coisas simples e com a serenidade de quem sabe que tem uma missão a cumprir e, naturalmente, a cumpre.
Na verdade, ambos fizeram da militância revolucionária, da entrega total ao Partido e à luta, uma opção de vida.

Pires Jorge e Francisco Miguel integravam o Comité Central do Partido quando do 25 de Abril – e nele se mantiveram até ao fim das suas vidas. Para trás ficava uma actividade iniciada nos anos trinta – uma actividade exaltante, sempre intensa, dedicada, corajosa, convicta que, conjuntamente com semelhante acção de muitos outros camaradas, levaria à construção deste Partido que é o nosso, Comunista e Português, com a sua identidade específica e com as características essenciais que haveria de manter até aos dias de hoje – e cuja continuação as novas gerações de comunistas assegurarão no futuro.
Ambos participaram no criativo processo de adaptação do partido clandestino, que era o PCP, no partido de massas que viria a tornar-se após a conquista da liberdade e em que se impunham medidas adequadas às exigências que a nova situação comportava, de forma a continuar a cumprir o seu papel na sociedade portuguesa – um processo revelador da grande maturidade política e partidária forjada nos longos anos de resistência à ditadura fascista e que passou, nomeadamente: pela adopção de processos e métodos de trabalho ajustados à nova realidade; pelo incentivo á criatividade e ao dinamismo dos militantes; pelo estímulo à capacidade de iniciativa das organizações partidárias; pela aplicação das normas de funcionamento democrático interno que a existência clandestina não permitia adoptar plenamente; pela audaciosa promoção de quadros e de novos quadros – que, em numerosos casos iniciavam assim, no fogo da luta, na caminhada exaltante das grandes conquistas da Revolução, a sua formação revolucionária; pela decisão, tão característica da sensibilidade política e humana do colectivo partidário, de não admitir diferenças entre militantes de antes e depois do 25 de Abril, de estabelecer igualdade de direitos e deveres entre os militantes que vinham da clandestinidade imposta pelo fascismo e os que acabavam de chegar à militância e à luta – medida que viria a ter reflexos marcantes no reforço do colectivo partidário enquanto tal, na unidade e coesão do Partido e no surgimento de novos quadros, num processo contínuo de rejuvenescimento que se manteve até à actualidade e assumiu dimensão e importância relevantes no XVII Congresso – é digno de registo o facto de parte significativa dos actuais dirigentes do Partido (desde os membros do Comité Central aos das organizações regionais e locais, passando pelos organismos executivos do CC) não serem ainda nascidos ou serem crianças, quando do 25 de Abril.

Pires Jorge e Francisco Miguel, lutaram até ao último dia das suas vidas – e sempre com a mesma convicção, a mesma coragem, a mesma entrega total que caracterizou a sua prática revolucionária.
Assim, lembrá-los neste centésimo aniversário do seu nascimento, é não apenas um acto da mais elementar justiça, mas uma exigência imperativa do nosso grande colectivo partidário. Porque, lembrando as suas vidas e os seus exemplos, lembramos parte significativa da história heróica do PCP, destes oitenta e seis anos de vida e de luta, sempre com a classe operária, sempre com a democracia e a liberdade, sempre com os trabalhadores, o povo e o País, sempre tendo o socialismo no horizonte.
Prestemos, pois, aos camaradas Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel Duarte a homenagem devida. E façamo-lo da única forma que eles entenderiam e aceitariam: com a garantia, assumida pelo colectivo partidário, de que o Partido de cuja construção eles foram exemplares artífices, continuará no rumo traçado e, guiado pelos objectivos que foram sua fonte de força ao longo de mais de oito décadas - e sejam quais forem as situações que se lhe deparem - prosseguirá a luta com a mesma determinação, a mesma convicção, os mesmos objectivos.


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