Os militantes do PCFR vão promover concentrações de protesto
Rússia Unida vence legislativas
Comunistas contestam resultado
O partido do presidente Vladimir Putin venceu as eleições de domingo na Rússia. Os comunistas ficaram em segundo lugar e reclamam fraude mobilizando protestos.
Quando estavam apuradas a quase totalidade das assembleias de voto no maior país do mundo, o partido Rússia Unida recolhia aproximadamente 64 por cento dos boletins depositados nas urnas, número que garante ao presidente Vladimir Putin a maioria na câmara baixa do parlamento russo, a Duma, com cerca de 313 lugares em 450 possíveis.
A esta maioria devem-se juntar os deputados da formação satélite criada pelos partidários de Putin, a Rússia Justa, que alcançou 7,5 por cento e 35 cadeiras no hemiciclo, e os representantes ultra-nacionalistas do Partido Liberal Democrático, que granjeou 9,5 por cento e 47 lugares.
Em segundo lugar no plebiscito ficou o Partido Comunista da Federação Russa com 11,5 por cento e 55 eleitos, mas o presidente do PCFR, Guennadi Ziuganov, já veio contestar publicamente os resultados acusando Putin de fraude e manipulação, processo para o qual, acrescentou, o chefe de Estado contou com a colaboração activa da Comissão Central Eleitoral russa, isto apesar do órgão ter declarado o acto como livre e democrático.
Durante toda a semana, continuou Ziuganov, os militantes do PCFR vão promover concentrações de protesto contra a desfiguração de um sufrágio que se exige transparente e justo.
O líder comunista revelou ter dados que confirmam que em várias regiões as votações foram dirigidas por forma a cumprirem com a meta previamente estabelecida pelo governo, declarações que vão ao encontro de denuncias que apontam múltiplas formas de pressão sobre a população, quer pela coação, quer pelo incentivo material, para que confiasse o seu voto no Rússia Justa.
Antevendo um cenário de fraude, o PCFR colocou em campo 300 mil observadores próprios nas mais de 100 mil assembleias de voto, contingente que acumulou durante todo o dia de domingo um rol de elementos imprescindíveis para fundamentar a queixa junto do Supremo Tribunal.
Na consulta compareceram, segundo números oficiais, 60 por cento dos 108 milhões de russos com direito de eleger.

Especificidades à medida

Num país com um território que se estende da Europa à Ásia e inclui uma dezena de fusos horários, organizar uma consulta popular é uma tarefa de grande fôlego. Apesar da dificuldade imposta pelas contingências geográficas, nas eleições sobressaíram especificidades que parecem talhadas à medida de quem detém o poder e pretende conserva-lo com o mínimo de oposição.
Informações veiculadas por agências internacionais confirmam que à porta das assembleias de voto conviviam bancas com objectos alusivos à quadra natalícia e alimentos quentes. Nos interfaces de transportes públicos e nos hospitais, circulavam urnas móveis, factos aos quais acresce a distribuição de um número de boletins muito superior ao necessário para a consulta.
Para os colégios eleitorais foram destacados nada mais nada menos que 450 mil membros das forças da ordem, 20 mil dos quais estacionados só na região da capital, Moscovo.
Antes do sufrágio, Putin encetou duas alterações às normas eleitorais, a passagem de todos os círculos para o sistema uninominal e a fixação de um limite mínimo de 7 por cento para poder ter assento na Duma.
Reagindo à vitóiria de Putin, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa disse que as eleições russas foram manipuladas, mas o Kremlin desvaloriza as declarações dos observadores internacionais considerando-as uma forma de intrusão nos assuntos de política interna russa.

Campanha dirigida

No decurso da campanha eleitoral, também se avolumaram as queixas dos opositores ao presidente Vladimir Putin e ao seu partido.
O Rússia Justa absteve-se de participar nos três debates promovidos pelas estações de televisão Primeiro Canal, TV-Centro e Rússia, deixando as restantes dez formações políticas argumentarem sozinhas.
Com o presidente Putin a encabeçar a lista eleitoral, o Rússia Justa afirmou preferir outras formas de contacto com os eleitores, mais directas, explicaram. O discurso à nação proferido por Putin antes do dia 2 foi acompanhado em directo por todas as estações de televisão e rádio nacionais.

Corrida às armas

Paralelamente ao processo eleitoral russo, mantém-se a tensão entre a Rússia, os EUA e a UE a respeito do sistema de defesa antimíssil que os norte-americanos insistem em instalar na Polónia e na Republica Checa.
Em declarações aos órgãos de comunicação social durante a última reunião da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que decorreu em Madrid, quarta-feira da semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, acusou a recepção da proposta de Washington sobre esta matéria mas qualificou de insuficiente e desprovida das garantias que Moscovo entende serem necessárias para a segurança do seu território.
Neste contexto, o presidente russo assinou, um dia depois do encontro da OSCE, a suspensão do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa (FACE), subscrito em 1990 em Paris entre a NATO e o então Pacto de Varsóvia, e alterado, nove anos depois, na capital da Turquia.
Putin justificou a moratória sobre o FACE com a escalada agressiva da Aliança Atlântica no Leste da Europa e com o facto de apenas a Rússia, a Bielorrússia, a Ucrânia e o Cazaquistão terem até agora ratificado nos respectivos parlamento o documento acordado em Istambul.
A decisão de suspender o FACE foi aprovada dia 7 de Novembro pela Duma e dia 16 pelo senado russo.


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