• Miguel Urbano Rodrigues

Volodia, gigante da literatura<br>e revolucionário exemplar
Em dezenas de países, jornais, televisões e rádios dedicaram atenção especial à morte de Volodia Teitelboim, tal como revistas web na Internet. Tinha 91 anos o grande chileno desaparecido, mas durante quase toda a sua larga existência foi ignorado pelos média que saúdam agora nele um gigante da literatura contemporânea. As homenagens chegaram atrasadas.
No seu próprio país Volodia foi, até final da ditadura, quase ignorado como escritor pela grande imprensa. Tinha mais de 80 anos quando lhe atribuíram o Prémio Nacional de Literatura. O motivo do silêncio da burguesia sobre a sua obra é conhecido: o autor de Hijo del Salitre dizia haver tido ao longo da vida dois amores pouco compatíveis: uma mulher legítima, a Política, e uma amante, a Literatura. Nunca rompeu com a segunda não obstante ter sido secretário-geral e, depois, presidente do Partido Comunista do Chile. Uma estranha bigamia, quase sem precedentes na História.
O prolongado silêncio sobre a sua obra não pode apagar a evidência. Volodia Teitelboim foi um dos mais importantes escritores latino-americanos do Século XX. Nenhum outro exerceu sobre mim, como profissional do ofício de escrever, influência comparável.
Conheci-o no Porto, há mais de um quarto de século, durante um Congresso do Partido Comunista Português. O seu discurso produziu-me algo parecido com um deslumbramento. Foi o único delegado que falou ali na sua própria língua, sem tradução. Grande orador, fundiu na sua intervenção, de grande beleza formal, a ideia de Revolução, a profundidade da História, e a Cultura. Foi, recordo, aclamado de pé pelo plenário de delegados ao Congresso.

Nasce uma amizade

Antes do seu regresso a Moscovo, onde então vivia exilado, jantámos em Lisboa. Nesse encontro brotaram as raízes de uma amizade que se fortaleceu com o rodar dos anos e iria adquirir para mim um significado enorme.
À medida que a nossa amizade se aprofundava apercebi-me de que vivia naquele dirigente comunista chileno, poeta e romancista, um Erasmo moderno. Tinha o dom raríssimo de transformar rapidamente o conhecimento adquirido em cultura.
Nesses anos eu visitava com muita frequência a União Soviética. E quando chegava a Moscovo entrava logo em contacto com ele. O impulso vinha do afecto e da admiração, mas havia nele também um pouco de egoísmo. Reencontrar Volodia era um privilégio. Ele transmitia aquele tipo de saber e de experiência que, eu sabia, nos abre estradas no pensamento, rasga horizontes.
Quase sempre vinha ao meu hotel, mas para sair logo e, dando voltas ao quarteirão, passar a vida e o mundo em revista. Ele gostava muito de falar caminhando, com vagares. Mesmo no Inverno, sob um frio intenso, usava o seu boné, recusando as chapkas soviéticas.
Não tive melhor mestre sobre a União Soviética do que ele. Quando chegou a perestroika e milhões de comunistas, pelo mundo afora, identificaram nela um conteúdo revolucionário, Volodia não escondeu o cepticismo com que encarava as promessas gorbatchovianas de regresso às origens do leninismo. Não esqueço uma conversa que mantivemos quando regressei de uma viagem ao Afeganistão devastado pela guerra civil. Dançava-se no salão do hotel e nesse dia ele falou-me sobretudo da mulher russa, da sua força de carácter, naquilo que a diferenciava e lhe aparecia como garantia de que para além de grandes tempestades que se anunciavam num horizonte sombrio, o povo de Puchkin e Lenine retomaria na História o seu papel insubstituível.
Ele escrevia então com frequência para o jornal o diário. Era um colaborador atípico. Escolhia os temas, com prioridade para a luta do povo chileno. Abordava os grandes problemas internacionais quase sempre numa perspectiva original. Se o assunto era um livro, uma personalidade, uma efeméride, o estilo marcava também o autor.
Quando o reencontrava e ele tinha disponibilidade de tempo escutava-o durante horas, fascinado. Nada me encantava mais do que ouvi-lo evocar episódios da sua vida. Nessas conversas moscovitas caíram barreiras e pouco a pouco pude entrar pelo seu passado. Volodia tinha uma memória prodigiosa. Foi através desses bate papos – gracejava com os meus brasileirismos – que conheci as origens e as aventuras dos seus antepassados muito antes de ele as relatar no primeiro tomo de Antes Que Llegue El Olvido, a monumental Tetralogia que começou a escrever após o regresso ao Chile, já perto dos 80 anos.
Dolorosamente chileno pelo sentir e pela cultura, este homem, nascido em 1916 na nevoenta e gelada Chillán, descendia de judeus vindos do antigo Império Russo no final do século XIX. Um avô veio parar ao Chile, por engano, em busca do Paraíso. A família soube que algures, em remota região austral da América, num país quase desconhecido, existia uma cidade chamada Puerto Éden. O representante do clã cruzou meio mundo para, afinal, descobrir que o Éden imaginado não passava de uma aldeia misérrima. Mas, tenaz, ficou para semear os Teitelboim latino-americanos. A religião de Moisés essa não resistiu à mudança de Continente. Volodia, antes de se tornar comunista, já era ateu, um judeu não judeu como os pioneiros da Revolução de Outubro.

Clandestino no Chile

No exílio desenvolveu no combate ao fascismo pinochetiano uma actividade prodigiosa, num vaivém permanente que, a partir de Moscovo, o fez correr pelo mundo do Vietname às capitais europeias, da África à Índia. Escreveu centenas de artigos em jornais de dezenas de países. Em Madrid fundou e dirigiu (de longe) a Auracaria, uma revista de cultura mobilizada para o debate de ideias, aberta a intelectuais revolucionários de muitas nacionalidades, sobretudo latino-americanos.
E ainda encontrou tempo e energia para durante quinze anos, de 1973 a 1988, se dirigir ao seu povo, primeiro diariamente, depois duas vezes por semana, através da Rádio Moscovo. Essas crónicas, transmitidas no Programa Volodia ComentaEscucha Chile, desesperavam Pinochet pela repercussão que alcançaram entre a população. O ditador todo poderoso não podia impedir que a voz do ex-senador comunista levasse a esperança a milhares de casas chilenas. Foram mais tarde publicadas em vários tomos pela editora Lom, de Santiago.
Uma delas, Las Mil horas de Miguel, teve por tema os mais de 180 processos instaurados a o diário por defender os trabalhadores portugueses. Volodia cultivou quase todos os géneros literários, da poesia ao ensaio. Escreveu dois romances – El Hijo del Salitre e Semilla en la Arena – que a crítica reconhece hoje serem obras-primas da literatura latino americana. Ambos foram na época ignoradas pela grande imprensa: a personagem do primeiro inspirava-se em Emílio Recabarren, o hoje quase mítico herói do Partido Comunista do Chile; o segundo tem por cenário o campo de concentração de Pisagua, no Norte do Chile, um lugar de horrores por onde, aliás, Volodia passou como prisioneiro da ditadura de Gonzalez Videla. No Inverno austral de 1988, quando a ditadura principiava a afundar-se, estive em Santiago participando num acontecimento cultural que Pinochet, para evitar um escândalo internacional, não proibira: Chile Crea. O objectivo consistia em demonstrar que a ditadura não conseguira impedir que os escritores e artistas chilenos, desafiando uma repressão brutal, tivessem ao longo dos últimos 15 anos continuado a cumprir a sua função social.
Eu fui um dos intelectuais europeus convidados. Perdera o contacto há muitos meses com Volodia. As minhas cartas não obtinham resposta. Em Santiago compreendi o motivo do seu estranho silêncio. De mão em mão, nas iniciativas de Chile Crea circulava a edição clandestina de um livro de Volodia: En el país prohibido.
O escritor revolucionário, dirigente comunista com a cabeça a prémio, tinha entrado no país para o sentir e tentar compreender num reencontro em que arriscara a vida. Correu pelo Chile acompanhado de camaradas. Falou com mineiros, operários, marinheiros, reviu pessoas queridas. O disfarce foi tão perfeito que os esbirros da policia política não suspeitaram sequer da sua presença.
Depois escreveu En El País Prohibido. Com simplicidade, no seu estilo, contou a aventura desafiadora e maravilhosa como coisa natural. Antes de aparecer no estrangeiro, o livro foi editado clandestinamente no Chile.
Transcorrido pouco mais de um ano voltei a Santiago para acompanhar as eleições presidenciais. O candidato de Pinochet enfrentava nelas, seguro da vitória, Patrício Aylwin, um dirigente da Democracia Cristã que inicialmente tinha apoiado o golpe de 11 de Setembro de 73.
O Chile fora invadido por observadores internacionais e jornalistas. Pinochet, que havia proclamado o carácter democrático das eleições, tinha permitido o regresso dos exilados.
Logo no primeiro dia encontrei Volodia numa conferência de imprensa. Dias depois estava a seu lado quando os primeiros resultados trouxeram a certeza da derrota da ditadura. Festejamos juntos o acontecimento e ele encontrou tempo para dirigir uma saudação aos comunistas portugueses e ao diário, «o meu jornal na Europa».

O biógrafo

Volodia cultivou, como informei antes, quase todos os géneros literários. Perguntei-lhe um dia qual preferia e evitou responder, para lembrar que, tendo começado como poeta, abandonou cedo a poesia.
Tarde, já nos anos do exílio, sentiu a tentação de escrever sobre os grandes poetas do Chile. Deixou-nos três livros sobre Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Vicente Huidobro. E um quarto sobre o argentino Jorge Luís Borges.
Somente recordo um escritor, o russo Evgueni Tarlé, aliás um historiador, que tenha conseguido como Volodia ir na compreensão dos biografados tão longe que o leitor imagina ficar a conhecê-los melhor do que eles se conheciam.
Isso acontece com a Mistral, a chilena que escreveu sobre o amor como nenhuma mulher do seu tempo, mas não obstante morreu virgem, apesar dessa atormentada perseguição àquilo que a obcecou e lhe conferiu sentido à vida.
Do seu livro sobre Huidobro, o poeta da marcha infinita, que a mãe julgava vocacionado para ser rei do Chile, posso dizer que, depois de o ler, senti pela personagem um fascínio tanto mais surpreendente quanto não apreciava o poeta.
Em Neruda identifico uma catedral da literatura. O autor de Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada escreveu muito sobre si próprio. Uma autobiografia em que evoca a sua vida foi best seller mundial. Mas creio firmemente que Volodia ilumina melhor o homem Neruda. Foram camaradas em muitas lutas no Partido Comunista, ambos senadores, amigos íntimos. Na obra do biógrafo há páginas sobre momentos e opções de Neruda que são preciosas para o entendimento do o poeta, do cidadão, do revolucionário, da sua atitude perante as mulheres que amou de maneiras muito diferentes. E Volodia dedica–lhes uma atenção especial.

O memorialista

Ao regressar a Santiago, Volodia não abandonou a vida política. Foi secretario-geral do Partido Comunista do Chile e posteriormente presidente. Mas, recuperada a sua biblioteca e definitivamente instalado na capital, dedicou-se com paixão à Literatura. Nos últimos vinte anos publicou mais livros do que no meio século anterior.
O biógrafo passou o testemunho ao memorialista.
Decidiu que tinha chegado a altura de escrever uma obra diferente de tudo o que fizera até então. Iria escrever sobre o seu tempo, contemplado pelos homens que sucessivamente tinham vivido nele, Volodia. Sabia que o tempo de vida útil não seria longo.
De início era nevoento o projecto. Faltava enquadrá-lo e dar-lhe uma dimensão.
Foi tomando forma à medida que escrevia, recordando. Admitiu primeiro que seriam dois tomos. Depois alargou a estrutura para nela caberem três. Finalmente saiu uma Tetralogia: Antes que llegue el olvido.
Não exagero qualificando essa obra – interrompida por outras – de monumento literário. Mas a expressão não pode transmitir ao leitor aquilo que ele vai sentir, nem lhe ilumina os caminhos para onde o escritor o empurra.
Porquê?
Porque os actos e o viver do jovem Volodia, do combatente na idade madura, do intelectual revolucionário já carregado de anos surgem no livro permanentemente fundidos com a reflexão sobre acontecimentos e pessoas que o vão moldando e transformam o planeta Terra. O mesmo Volodia aparece-nos em viagem através de muitos Volodias na aventura de uma existência humana.
Daí a complementaridade não antagónica entre o subjectivo e a historia exterior que envolve o narrador e o acompanha da adolescência à velhice.
Volodia foi, para mim, o escritor latino-americano que escreveu os perfis de mulheres que mais me tocaram.
Retratou como mais ninguém as mulheres que passaram pela vida de Neruda. Mas sobre mulheres que ele Volodia amou escreveu também páginas que, na tentativa de o acompanhar, nos projectam numa atmosfera mágica. Como o capítulo do primeiro tomo da sua Tetralogia, quando descreve a caminhada, na última noite do ano, pelas ruas desertas de Santiago na busca impaciente de uma pensão onde o aceitem com uma jovem que será a sua primeira companheira. A evocação dessas horas é um maravilhoso poema em prosa ao amor.

Fome serena de totalidade

A vida proporcionou-me a felicidade de rever Volodia algumas vezes após o seu regresso ao Chile. Mas nem sempre ali, porque ele foi, mesmo quando já tinha enorme dificuldade em caminhar, um viajante com ânsia de fazer caminho ao andar, como dizia António Machado. Não parava de correr pelo mundo.
Encontrámo-nos em Havana em 1999. Eu tinha então escolhido Cuba para escrever, suficientemente longe da pequena política portuguesa para que os seus ecos não perturbassem a minha tranquilidade. Ele apareceu inesperadamente, como hospede de honra, para apresentar um dos seus livros. Fidel, que o admirava muito, chamava-o sempre nessas visitas, para conversas que entravam pela madrugada.
Eu iniciava então a escrita de um livro O Tempo e o Espaço em que Vivi e o reencontro permitiu-me abordar temas de Antes que llegue el olvido. Volodia sabia que tinha sido a leitura do tomo I que me havia levado à decisão de subir pela memória no tempo, para escrever.
Sempre que recebia um livro seu dedicava-lhe uma crónica, quase sempre no Avante!
Em Portugal revi-o em 2001. Eu estava de passagem, ele vinha lançar a edição portuguesa de Los Dos Borges. Amava tanto a nossa língua que para expressar o seu apreço pela tradução de Serafim Ferreira não hesitou em afirmar que havia gostado mais de se ler em português do que no seu original em castelhano. Nessa breve visita, Volodia pronunciou uma conferência na Casa de Fernando Pessoa. Horas antes, os Estados Unidos haviam iniciado a agressão ao povo do Afeganistão, bombardeando com selvageria Cabul. Não recordo qual o tema da sua palestra, mas guardo lembrança das suas palavras de abertura. Dirigindo-se a escritores de múltiplos azimutes ideológicos, declarou que seria impensável falar ali de literatura sem previamente denunciar o acto de barbárie do imperialismo norte-americano que atingia naquele dia um povo da Ásia Central.
Dois anos transcorridos visitei Volodia em sua casa quando participei em Santiago no seminário Allende Vive 20 Años Despues. Saía cada vez menos e dedicava à escrita cada vez mais tempo.
Falámos sobretudo, por iniciativa minha, da sua obra. Ele estava terminando Un Soñador del Siglo XXI, último tomo da Tetralogia.
Na conversa, prolongada, abordei pela primeira vez um tema delicado. Eu via nele há muito o último dos grandes escritores humanistas do século que findara. Ao envelhecer, o seu estilo transformara-se, acompanhando o acumular dos anos, e a mudança aparecia com clareza na Tetralogia.
Volodia cultivava a ironia de uma maneira muito sua. Raramente o vi sorrir, mas sabia fazer sorrir os seus interlocutores a propósito de tudo e nada.
Dessa vez foi directo ao assunto. Lembrou que assim como o discurso político pronunciado de improviso aos 30 anos não é pelo conteúdo, forma e som, o dos 70, o mesmo ocorre com a escrita.
«A memória – comentou – não responde na velhice como na juventude. O escritor não pode desconhecer a lei da vida»…
O que se manteve nele inalterável foi aquela fome de totalidade que ia ganhando espaço na sua obra para culminar na Tetralogia. Volodia não ignorava que o conhecimento universal está vedado à condição humana. Mas como escritor utilizou a experiência da sua vida de revolucionário e a enorme soma de conhecimento acumulado para, fundidas, construir uma obra que é um monumento ímpar como expressão de cultura humanista.
Nas suas transposições de tempo e espaço, no reviver de grandes momentos da sua tempestuosa vida, na interacção constante entre o individual e o colectivo, a circunstância e a história profunda, a capitulação dos homens e as grandes epopeias, o escritor não persegue o absoluto, mas, ao manter a esperança mesmo em períodos de desespero, emerge sempre como um sereno e eterno amante da utopia.
Amava Joyce como amava Esquilo e Cervantes. Mas não obstante tudo o que o separa como escritor do genial irlandês, há na obra de Volodia a mesma ânsia insaciável de meter tudo num livro que encontramos em Ulisses.
Dei-lhe o último abraço em Novembro de 2004, em Caracas, onde compareceu para participar no I Encontro de Intelectuais em Defesa da Humanidade. Volodia quis, com a sua presença, expressar uma solidariedade sem restrições com a Revolução Bolivariana.
Dele recebi recentemente via Internet uma carta muito generosa de comentário a um livro meu que lhe enviara, Conseguiu, mais uma vez, comover-me.
O seu funeral foi comovedor, segundo a própria imprensa de direita chilena. Na morte, até os adversários políticos lhe reconheceram a grandeza que lhe ignoraram enquanto viveu. Quando a urna de Volodia desceu à terra, até a presidente social-democrata, Michele Bachelet, cantou a Internacional, chorando.
Ao terminar esta evocação do revolucionário, do escritor, do amigo, abro o tomo IV da Tetralogia. E encontro, na última página as palavras que transcrevo:

No controlo el reloj de las despedidas. Falta no sé cuanto para la media noche. Aunque sea cada vez más tarde, trataré de seguir despierto. En la vigilia quede claro que no se trata de un asunto exclusivamente personal. Como se sabe desde la antigüedad, el “antes del olvido” nos concierne a todos. Deja por escrito lo que aun guarda la memoria. Será así más difícil borrarla del todo. Te pido algo personal: sé fiel al sueño de los sueños.


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