Editorial

«A alternativa só se consegue com a luta»

ROMPER A «BOLHA»

Dizem alguns que esta é a pior crise financeira desde 1929. E não se trata de uma proposição sensacionalista mas da verificação de sintomas que se acumulam na ordem capitalista. No topo da crise situam-se os Estados Unidos, cujo domínio planetário não se fica pela imposição da força e da criação de guerras. Pode mesmo afirmar-se que estas decorrem da própria natureza do imperialismo na sua estratégia de dominação de povos e de mercados, e mesmo que surgem como panaceia para «reactivar a economia» degradada pelas crises cíclicas que se vão sucedendo.
Um ano após o rebentar da bolha do imobiliário, em Agosto do ano passado, eis que surge nova falência gigantesca. O Lehman Brothers - «apenas» o quarto banco de investimento dos Estados Unidos -, anunciou a falência no princípio da semana. Tal acontecimento teve repercussão imediata nos mercados bolsistas de todo o mundo, com algumas bolsas a perderem mais de cinco por cento do respectivo índice, e, como era previsível, os efeitos «globais» de mais este malogro do capitalismo, atingiram o nosso País.
Por cá, uns poucos banqueiros apressaram-se a afirmar que a crise não vinha aí – com o Governador do Banco de Portugal à frente de todos para descansar os especuladores, fazendo lembrar as declarações de Bush que foram no mesmo sentido, manifestando a sua «confiança» na economia dos EUA, de que toda a gente conhece a fragilidade estrutural, apesar do domínio que exerce no planeta. Outros, como João Salgueiro, antigo vice-presidente do Banco de Portugal antes do 25 de Abril, antigo ministro das Finanças da famigerada AD e hoje administrador da Caixa Geral de Depósitos, garantiu que sim, que a crise atingiria o País e, desde logo avisou que os portugueses – leia-se os trabalhadores – teriam de habituar-se a um novo estilo de vida. Não iam poder comprar casa, nem carro, nem fazer férias fora. E, claro, com salários «contidos»...

O Governo, salvo declarações avulsas e a surpreendente surpresa do ministro das Finanças, manteve o silêncio. Mas o que se conhece de Sócrates e dos seus executantes da política de direita, leva a crer que não deixarão escapar a oportunidade para, em nome da crise que acontece «lá fora» e escamoteando a crise «cá de dentro», a use para tentar agravar ainda mais as condições de vida e de trabalho dos portugueses, de se colar ainda mais aos interesses do grande capital de que é o mandatário político e de empenhar cada vez mais a soberania do País aos ditames dos grandes da União Europeia.
E não vale dizer, como Sócrates não se cansa de repetir, que a oposição faz uma política de bota-abaixo. Como Jerónimo de Sousa respondeu, no passado fim-de-semana, «é profundamente injusto confundir críticas justas, com base na realidade objectiva que vivemos, com “bota-abaixo”». «Aquilo que Sócrates deveria dizer e que corresponde à verdade», adiantou o Secretário-geral do PCP, «é que Portugal é um país mais desigual, com mais desempregados, precariedade e mais endividado e menos independente. O que bota abaixo é a política deste Governo.»

Continuando a ser, como o é desde início, a aposta do grande capital – surgindo o PSD como reserva pouco credível nos próximos tempos, já que lhe é impossível fazer uma oposição consequente a uma política com a qual concorda no fundamental, o PS, amparado também pelo Presidente da República (apesar das aparentes «tensões» para que a comunicação social se entretenha a entreter o público), prosseguirá a política de direita, tentando agravá-la numa fuga para a frente.
É mais do que nunca necessário contrariar esta política, proceder à ruptura desta verdadeira «bolha» que é a política de direita que asfixia os trabalhadores, as populações e o País.
Como Jerónimo de Sousa afirmou no comício da Festa do Avante!, é preciso «responder com urgência a três problemas centrais: «o défice de produção, o desemprego e a injusta distribuição do rendimento nacional». E adiantou várias propostas justas para a alternativa, que passam pela revalorização dos salários e pensões; a orientação para a Caixa Geral de Depósitos no sentido de uma margem máxima de 0,5 por cento no crédito à habitação; o congelamento dos preços da electricidade, da água e do gás.

Estas são apenas medidas urgentes, porque, como disse também o dirigente comunista, «o País precisa de uma política alternativa, de esquerda, que ponha fim a trinta anos do velho e gasto rotativismo de alternância sem alternativa».
E essa alternativa só se consegue com a luta dos trabalhadores e do povo e com o reforço do Partido - «que se assumiu como a grande força de oposição».
É no quadro dessa luta, que tantos e vigorosos exemplos produziu no ano que corre, que foi lançada a campanha contra as alterações ao Código do Trabalho, da precariedade e pelo aumento dos salários e pensões de cujas primeiras iniciativas o nosso jornal assinala o êxito, noticiando também o protesto da CGTP-IN e os três mil pareceres contrários à revisão da legislação laboral encetada pelo PS e que 500 activistas sindicais entregaram na Assembleia da República. É nesse quadro que interpretamos o nosso empenhamento na mobilização para o dia nacional de luta, convocado pela CGTP-IN para 1 de Outubro.
É no quadro da luta que também preparamos o XVIII Congresso do Partido, ligado à realidade do País e do mundo que queremos transformar, iniciando em todas as organizações o debate das Teses que o próximo número do Avante! publicará, após a aprovação das mesmas pela reunião do Comité Central marcada para o próximo fim-de-semana.


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