• Jorge Messias

A encruzilhada dos becos...
Mesmo que nada entendamos de finanças há um aspecto da intervenção milionária de Bush na grande crise capitalista que parece altamente informativo.
A injecção dos 700 mil milhões no mercado financeiro não pretende encontrar, por si só, soluções para o complexo problema mas promove a compra pelo Estado (com o dinheiro dos contribuintes) dos gigantescos passivos dos chefes-de-fila da banca privada. Por essa via não se resolve a crise mas pode permitir-se aos especuladores financeiros a recuperação de instituições falidas. Para estruturar nesse sentido uma política de Estado, o neocapitalismo não hesitou em copiar, macaqueando-os, os princípios e os métodos das economias planificadas que ele sempre grosseiramente condenou: nacionaliza, intervém no mercado e procura regulamentar a economia.
Boa parte dos milhões que Bush promete investir nas falências que se sucedem em cadeia serão destinados a comprar, pelo valor dos défices acumulados, grupos financeiros já sem capacidade de reacção à crise. Depois, irá vendê-los a preços do mercado muito inferiores ao seu valor patrimonial, a outros grupos capazes de criarem novos impérios financeiros transnacionais através de sucessivas fusões. A derrota sofrida numa fase da globalização transformar-se-ia, assim, numa retumbante vitória final. Isto, sem perdas sensíveis para a alta finança. Os custos da crise seriam integralmente pagos pelo povo - em desemprego, custo de vida e agravamento das contribuições. Foi a este panorama que Cavaco Silva se referiu, com um fino sorriso nos lábios, quando disse «todos teremos de pagar a factura»...
No plano de recurso assinado por Bush há muito de patético. O bombeiro sabe que é incapaz de apagar o incêndio mas procura, a todo custo, salvar os seus amigos dos andares de cima. Se o conseguir, tanto se lhe dá a sorte dos que moram mais abaixo. A operação custará 700 mil milhões de dólares, nada mais.
É neste ponto que o dédalo de becos se começa a fazer notar. Cada grupo financeiro tem centenas de empresas subsidiárias. Por detrás de cada senador espreita um lobby. O caminho das mega-fusões será excelente para alguns mas vai esmagar interesses da actual maioria. São becos e becos sem saída. E Bush, o velho cow-boy, não é homem para imaginar fórmulas mágicas que mudem radicalmente a geometria dos interesses. Mas é suficientemente matreiro para comprar ou intimidar os seus adversários. Medindo os riscos, os representantes dos estados federados (republicanos e democratas) adiaram o «visto» ao projecto. O voto não foi político nem ideológico. Foi reacção de mercado. Do tipo «ou comem todos ou não come nenhum». É uma situação que Bush saberá resolver.
Não pode, também, deixar de chamar a atenção a frequência com que nomes de gigantescas formações financeiras do Vaticano são citadas ao longo do percurso desta crise que ninguém sabe como e quando irá terminar. As suas siglas são invocadas em situações diferentes: como empresas que abrem falência e logo são nacionalizadas, como instituições que compram outras instituições falidas ou como promotoras de fusões em fase aberta de crise financeira.
Ao mesmo tempo, o capitalismo olha com esperança para o Oriente. Não só mas também pelo facto de as novas economias emergentes poderem constituir um bóia de salvação para os capitais dos mercados neoliberais. A República da China, com o seu potencial, os seus mercados e o desenvolvimento tecnológico em curso, constitui, nitidamente, a chave dessa esperançosa saída. A este respeito, o governo chinês já definiu posições.
Wen Jiabao, o seu primeiro-ministro, esclareceu que a política chinesa será a de manter a establilidade e ajudar o mundo capitalista a sair da crise. «Todos os países devem reforçar a cooperação entre si. Todos devemos tomar medidas para gerir a crise que deve ser levada a sério.» Palavras que certamente deram a Bush um novo alento.
A questão da eventual deslocalização do capitalismo de Ocidente para Oriente pode ter, no entanto, um grave aspecto negativo para as actuais estruturas do grande capital. Toda a sua arquitectura está em causa e uma reestruturação exigirá medidas drásticas de reconversão. Nesse processo, os actuais gigantes parecerão anões. Só os mais fortes sobreviverão.
Nesta perspectiva, o universo das finanças eclesiásticas valoriza-se, sem qualquer dúvida. A Igreja tem a dimensão financeira necessária para figurar no primeiro plano desta «Nova Cruzada» capitalista. Conhece profundamente o Oriente e é a primeira a estar no terreno com as suas missões, fundações, escolas e hospitais, ONGS de todas as espécies, centros de influência políticos e culturais e uma presença histórica que, em qualquer momento, pode sofrer retoques e ser branqueada.
Compreende-se, pois, que o capitalismo mundial trate o Vaticano com a maior veneração. Ele é seu parceiro preferencial.


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