<font color=0094E0>Tribuna do Congresso *</font>
Reformular as alianças sociais básicas da classe operária (I)

1 – A produção agrícola nacional é actualmente, na sua globalidade, maioritariamente capitalista. Deixou de ser assegurada no seu grosso pelos pequenos agricultores familiares e empresários.
Pelos diminutos rendimentos, as fraquíssimas produtividades do trabalho e o tremendo envelhecimento, o campesinato em Portugal continuará, forçosamente, a diminuir muito. Enquanto em 1989 havia 4 vezes mais agricultores, donos das explorações, idosos (≥ 65 anos) que jovens (< 35 anos), em 2007 já eram 25 vezes mais! Mesmo a população agrícola familiar, que inclui os agricultores e os seus agregados domésticos, mas em que pouco mais de 1/10 dos seus membros trabalha a terra a tempo inteiro, é hoje inferior a 7% da população. A percentagem do campesinato situar-se-á algures entre isso e os 2,4% que o último censo lhe reconhecia na população activa.
A aliança operário camponesa foi formulada em circunstâncias históricas em que o campesinato abarcava a esmagadora maioria da população (por exemplo, 80% na Rússia de 1917). Em Portugal, nas vésperas da Revolução de Abril, cerca de 30% da população activa ainda trabalhava na agricultura. Mas hoje o campesinato não é um grande sector da população e sê-lo-á cada vez menos. Mesmo do ponto de vista da soberania alimentar e da independência nacional, o fundamental é, agora e cada vez mais, a unidade dentro da classe operária, a unidade dos operários agrícolas com os restantes operários.
2 – Há que saber distinguir as alianças sociais básicas da classe operária, isto é, as alianças fundamentais, estruturais, de alcance estratégico para um longo período histórico, da classe operária com grandes sectores da sociedade, para assegurar o apoio, ou pelo menos o entendimento, necessário à construção da sociedade socialista (à conquista do poder, ao lançamento das bases da sociedade socialista, ao seu aprofundamento), das alianças sociais que a classe operária estabelece, com maior ou menor estabilidade, com outras forças sociais para objectivos de menor alcance, mais circunstanciados e de duração mais limitada, para prazos históricos mais curtos, para o combate, na situação portuguesa, por uma ruptura com a política de direita, por uma alternativa política de esquerda, por uma democracia que golpeie fortemente (e finalmente elimine) o poder dos monopólios, por uma democracia avançada nas variadas vertentes das relações humanas.
A classe operária, para reunir força social capaz de derrotar a política de direita, estabelece alianças com as componentes de uma vasta frente social de luta, que abrange sectores, camadas, grupos e forças sociais atingidas pela concentração monopolista e a política ao seu serviço: os empregados, os intelectuais e quadros técnicos, os pequenos e médios agricultores, os micro, pequenos e médios empresários, os artesãos e também os jovens, as mulheres, os reformados e pensionistas, as pessoas com deficiência e os imigrantes, enquanto forças sociais que intervêm com aspirações e objectivos específicos.
Mas as alianças sociais básicas da classe operária são alianças com um significado preciso na estrutura de classes da sociedade. Cimentam a frente social, dão maior consequência e acutilância à frente social no combate aos monopólios e na luta pela defesa e aprofundamento da democracia, mas, ao mesmo tempo, transcendem, em muito, esta frente, no sentido em que deverão continuar a ser, para além dela, o eixo estruturador, em torno do qual, nas várias conjunturas histórias do longo processo de derrube da burguesia e da construção do socialismo, a classe operária se propõe animar as sucessivas, e certamente variadas, frentes sociais.

Manuel Brotas (Lisboa)

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