Bush é responsável pela morte de milhares de iraquianos
Revolta contra a ocupação
Bush contestado no Iraque
Na última visita ao Iraque antes de abandonar a Casa Branca, o presidente dos EUA foi insultado por um jornalista durante uma conferência de imprensa na capital iraquiana, reflexo do repúdio popular contra a ocupação.
Quando Bush e o primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki se preparavam para prestar declarações aos órgãos de comunicação social, em Bagdad, Muntazer al-Zeidi, ao serviço do canal televisivo iraquiano al-Bagdadia, atirou dois sapatos contra o presidente norte-americano gritando que este gesto era «o beijo de despedida» e apelidando Bush de «espécie de cão».
Bush conseguiu escapar aos arremessos e Muntazer foi imediatamente dominado pela segurança, mas mesmo rodeado de agentes que o arrastavam para fora da sala o jornalista acusou o presidente dos EUA de ser «responsável pela morte de milhares de iraquianos».
Gracejando com a situação, Bush disse que não calçava o número 10, mas a piada não esconde o embaraço de, na última visita ao país enquanto chefe de Estado, ser acolhido com o pior insulto que se pode fazer a uma pessoa no mundo árabe.
Vale a pena recordar que, em 2003, as imagens de um punhado de iraquianos a baterem com chinelos na estátua derrubada de Saddam Hussein correu mundo como prova da revolta do povo contra o regime e o seu líder. Agora, os que as reproduziram triunfantes nas televisões não podem esconder o mais recente episódio do repúdio contra Bush e a ocupação do Iraque.
Na sequência da destemida acção, Muntazer al-Zeidi foi preso para interrogatório. As autoridades iraquianas dizem que pretendem saber se Muntazer foi pago para agredir Bush e se o jornalista estava sob o efeito de drogas ou álcool.
Reagindo à detenção, a al-Bagdadia apelou à imediata libertação de Muntazer «de acordo com a democracia e a liberdade de expressão que o novo regime e as autoridades norte-americanas prometeram ao povo iraquiano», afirma o comunicado da estação de televisão, citado pela Lusa.
Para a al-Bagdadia, «todas as medidas tomadas contra Muntazer serão consideradas actos de um regime ditatorial», lê-se no documento, que termina com um apelo «às associações de jornalistas iraquianos e árabes para que apoiem a exigência da sua libertação».

Desastre humanitário

A visita surpresa de George W. Bush ao Iraque foi uma operação mediática que correu mal à administração norte-americana, apesar das tentativas em contrário por parte dos altos responsáveis de Washington e Bagdad.
Fazendo um balanço dos quase seis anos de guerra e ocupação do território, Bush sublinhou que «a tarefa não foi fácil, mas era necessária para a segurança americana, a esperança dos iraquianos e a paz no mundo». Bush chegou mesmo a afirmar que a vitória está próxima.
Às palavras absurdas e mentirosas do presidente dos EUA – é hoje claro que o mundo não é nem mais pacífico nem mais seguro e que o povo iraquiano é vítima na sua própria pátria de crimes contra a humanidade, da imposição de um poder que promoveu a miséria entre as massas e a decorracada dos sistemas de ensino, saúde, saneamento básico, e outras estruturas do Estado iraquiano –, juntaram-se as do presidente do Iraque, Jalal Talabani, para quem Bush fica como «um grande amigo do povo iraquiano que nos ajudou a libertar o país».
Estas declarações são desmentidas pelos milhões de deslocados e refugiados iraquianos, pelas centenas de milhares de vítimas civis e pela violência entre grupos que disputam o poder local e central, pelas mais de quatro mil famílias norte-americanas enlutadas e pelas dezenas de milhares de estropiados e doentes de guerra, presos para toda a vida a horrores impossíveis de esquecer.
A este resumo trágico, somam-se os 576 biliões de dólares esgotados numa guerra criminosa e, segundo o The New York Times, outros 117 biliões gastos numa reconstrução fracassada. A este respeito, no dia em que Bush e os títeres iraquianos elogiavam a campanha iniciada em 2003, o diário norte-americano publicava informações contidas num relatório de acesso restrito onde se confirma que os fundos da reconstrução foram repartidos por um séquito de corruptos e caciques locais, facto que acresce a informações oficiais anteriores sobre a existência de fraudes gigantescas e poderosos grupos de pressão que repartiram desde o fornecimento de material para o exército yankee, até aos contratos de exploração petrolífera.

Retirada «responsável»

Da agenda de Bush no Iraque constou ainda a assinatura formal do «pacto de segurança» entre os dois países, o qual prevê a retirada dos cerca de 150 mil militares norte-americanos até Janeiro de 2012. Mas mesmo este compromisso não está cabalmente garantido.
Muito embora o futuro presidente dos EUA, Barack Obama, tenha feito da retirada do Iraque bandeira eleitoral e, acredita-se, principal trunfo para ascender à Sala Oval, o certo é que manteve na sua equipa, entre outras sinistras figuras, o secretário da Defesa Robert Gates.
Gates passou pelo Médio Oriente um dia antes de Bush e manifestou-se «pouco preocupado» em cumprir o calendário da retirada agora subscrito. O homem forte do Pentágono alertou ainda os «adversários » para que não pensem «testar Obama», até porque os EUA continuam a olhar para a região como uma prioridade estratégica.
Se às declarações de Gates no Bahrein juntarmos as de Obama sobre o Irão, país a quem prometeu «uma série de cenouras e de paus», e sobre o Iraque, que quer abandonar, sim, mas depois da eleição para a presidência acrescentando à palavra «retirada» a palavra «responsável», então é caso para que se avolumem as preocupações quanto à saída dos EUA daquele território.

Para o Afeganistão, e em força

Se no Iraque Bush foi dizer que «a vitória está próxima», no Afeganistão, para onde seguiu segunda-feira, o presidente afirmou que «a luta será longa», mas, reforçou, «esta missão é essencial».
A visita de Bush esta semana, e de Robert Gates, a semana passada, são pronúncios da continuidade por parte da administração Obama da política externa norte-americana na Ásia Central, tendo o futuro presidente já confirmado o envio de mais soldados para o Afeganistão.
O recrudescimento da resistência à ocupação e a capacidade revelada pelos grupos armados talibans para atacarem alvos da ISAF (força constituída por 41 países, 26 membros da NATO e 15 não membros, que em 2008 sofreu quase 300 baixas, isto sem contar os 1300 soldados afegãos abatidos e as mais de duas mil vítimas civis) «justificam» a decisão. Portugal já se disponibilizou para aumentar o seu contingente, correspondendo aos desejos de Obama.
Na prioridade Afeganistão, assume particular importância a NATO. No Fórum de Líderes da Defesa, que decorreu em Lisboa, a semana passada, reunindo 250 «especialistas» e operacionais de 22 países, o ministro Nuno Severiano Teixeira deixou claro que a Aliança Atlântica está a mudar de paradigma, estendendo o anterior modelo de defesa colectiva para o de segurança global.
Este processo de redefinição, disse também o responsável português da Defesa, poderá culminar em Abril do próximo ano no 60.º aniversário do bloco militar, «uma boa oportunidade para reflectir sobre os elementos que a NATO deve enfrentar por forma a permanecer uma estrutura capaz de responder eficazmente a crises e enfrentar novos desafios à segurança», frisou.
A iniciativa conjunta da NATO e do gigante mundial Microsoft realizada na capital portuguesa revelou ainda outro factor central: a centralidade da economia da guerra na acumulação capitalista mundial.
Segundo o responsável da multinacional para a área da Defesa e Segurança, Tim Bloech, «a NATO é um cliente estratégico porque está actualmente em guerra e a conduzir operações importantes».

Obamagate?

Se o staff de Barack Obama pensava seguir até ao dia da nomeação com a campanha de charme e elogio da futura administração – veiculando informações como o fato da futura primeira dama na cerimónia ou a apresentação da equipa do presidente como se de novas personalidades e nova política se tratasse –, o escândalo envolvendo Rod Blagojevich, governador do Estado do Illinois, pelo qual Barack era eleito senador, e Rahm Emanuel, futuro chefe de gabinete de Obama, parece ter estragado os planos.
A história é aparentemente simples, embora, convém dizer, a investigação ainda vá no início. De acordo com a imprensa de Chicago, Emanuel terá entregue a Blagojevich uma lista de nomes para substituir Obama no Senado, tidos como aceitáveis pelo futuro presidente dos EUA para o sucederem no cargo.
A questão é que Blagojevich não estaria disposto a nomear alguém a troca de nada, isto é, pretendia uma compensação e foi por isso mesmo preso pelas autoridades e acusado de corrupção e conspiração. O filho do democrata Jesse Jackson, apoiante de Obama e importante expoente da luta pelos direitos civis nos EUA, seria, para os investigadores, um suposto «comprador» do lugar.
Barack Obama nega estar envolvido no caso e a sua posição é alegadamente sustentada pelo procurador que lidera o apuramento dos factos, Patrick Fitzgerald, o mesmo que garantiu a isenção de Dick Cheney no caso que atingiu um dos seus acessores. Mas o certo é que se adensam as investigações em torno de Obama e da sua equipa. Uma delas pretende apurar a lisura da aquisição da casa do futuro presidente, negócio que terá sido facilitado por Antoin Rezko, personalidade também ligada a Blagojevich.


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