Foram assassinados no Tarrafal 32 antifascistas
Alfredo Caldeira morreu há 70 anos, no Tarrafal
Um mártir da luta antifascista
Alfredo Caldeira foi um dos 32 antifascistas assassinados no Campo de Concentração do Tarrafal. Tinha 30 anos e era membro do Comité Central do PCP.
Que em Portugal existiu uma ditadura fascista é um facto que muitos «historiadores» tentam, hoje, negar. Nas estantes das livrarias, abundam biografias do ditador Salazar e de inspectores da PIDE – sempre «neutras» e observando, sempre, o lado «humano» dos biografados.
Mas há outras biografias, outras histórias, outras vidas e outras mortes, que não deixam grande margem para dúvidas quanto ao carácter do regime e dos seus métodos. A história de Alfredo Caldeira, nascido há 100 anos e assassinado há 70, é uma delas.
Alfredo Caldeira nasceu a 11 de Julho de 1908, em Lisboa, e começou a trabalhar cedo, como pintor decorador. Em 1931, com 23 anos, aderiu ao PCP, que dava os primeiros passos na luta clandestina após a reorganização iniciada dois anos antes, sob a direcção de Bento Gonçalves. É neste período que os comunistas começam a penetrar nos sindicatos e a criar organizações em importantes empresas e sectores. O Avante! vê a luz do dia pela primeira vez em 15 de Fevereiro de 1931 e a influência da juventude comunista começa também a fazer-se sentir nos meios operários e estudantis.
Em 1932, Caldeira é já membro da direcção do Comité Regional de Lisboa. No mesmo ano, ascende ao Comité Central. A responsabilidade que assumia pela ORA – Organização Revolucionária da Armada, que seria uma das maiores e mais poderosas organizações do PCP, leva-o a participar no Secretariado.
Em Outubro de 1933, desloca-se ao sul do País para estabelecer contactos com a organização do Partido no Algarve. No dia 27, cai nas garras da polícia, de onde não sairia com vida.
Preso na Penitenciária de Lisboa, é transferido para o Forte de Peniche a 20 de Novembro desse mesmo ano de 1933. Dois dias depois, é deportado para a Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, nos Açores.
É nesse local que é julgado por um Tribunal Militar Especial e condenado a 690 dias de «prisão correccional que, descontados 295 dias, fica reduzido a 395 dias de prisão correccional e perda de direitos políticos por 5 anos», lê-se na sua ficha prisional.

O desterro e a morte

Mas a prisão não lhe retira o fervor revolucionário. Em Dezembro de 1934, tem participação activa na luta dos presos contra as péssimas condições prisionais da Fortaleza. No dia 8 desse mês, é transferido para uma esquadra da PSP para ser libertado. O que, efectivamente, acontece no dia 10. Mas a decisão seria anulada no próprio dia, e Alfredo Caldeira é novamente preso e enviado para Peniche. Era assim a legalidade fascista.
Em Outubro de 1936, integra o grupo de 152 presos que seguem a bordo do paquete Luanda rumo ao Campo de Concentração do Tarrafal, criado em Abril desse ano para «recolher os presos condenados a pena de desterro, pela prática de crimes políticos». À chegada, no dia 29, o director do Campo, Manuel dos Reis, recebe os prisioneiros: «Quem vem para o Tarrafal, vem para morrer.»
Construído à imagem dos campos de concentração nazis que, na época, se espalhavam por toda a Europa, no Campo do Tarrafal (que ganhou o cognome de «Campo da Morte Lenta») a violência sobre os presos era arbitrária e quotidiana. Castigos físicos, trabalhos forçados e isolamento na «frigideira» eram penas frequentes.
Mas o fascismo tinha outros métodos para assassinar os melhores filhos do povo português. O Campo fora construído numa zona insalubre e de péssimas condições atmosféricas. A água inquinada, as doenças e a falta de assistência médica e medicamentosa faziam o resto. Numa afirmação de cruel sinceridade, o médico do Campo, Esmeraldo Pais Prata, afirmava: «Não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito.»
Mas nem as piores condições e as violências conseguiam impedir os comunistas de se organizar. Entre 1937 e 1938, Alfredo Caldeira integra o Secretariado da Organização Comunista Prisional do Tarrafal.
Como muitos outros camaradas, contrai a biliosa, que já matara vários presos – e que vitimaria, em 1942, Bento Gonçalves, secretário-geral do Partido.
Num diário escrito por um preso (publicado em Dossier Tarrafal, das Edições Avante!), é possível acompanhar a sua doença. A 18 de Novembro, lê-se, «caiu pela segunda vez com uma biliosa o camarada Alfredo Caldeira». A 23, observa-se que «tem piorado dia a dia» e no dia seguinte «está à morte». No dia 1, o diário relata: «Morreu Alfredo Caldeira. Após longos dias de sofrimento finou-se hoje, mantendo até bem pouco antes da sua morte uma extraordinária lucidez de espírito e uma coragem moral invulgar. Mais uma vítima deste regime desumano de prisão. É a décima morte.»
A pena a que tinha sido condenado terminara há muito…

«Verá que sei morrer
como um revolucionário»


«João da Silva (segundo director do Campo) não compreendia homens como Alfredo Caldeira. Este camarada, que deixou uma grande vaga no Comité Central do Partido Comunista Português, morreu a 1 de Dezembro de 1938, depois de 11 dias de agonia em que sempre conservou a sua lucidez e a absoluta certeza de que ia morrer.
Adoecera com uma segunda biliosa e deixou de urinar. Era a morte para o grande revolucionário que dedicara toda a sua vida para que os portugueses vivessem numa sociedade justa e livre.
João da Silva vinha vê-lo.
─ Você está em perigo de vida.
─ Se vem para me desanimar é melhor não vir.
E na verdade João da Silva queria ver se a morte não faria fraquejar no último momento um homem cuja vida fora exemplo de dignidade, de coragem, de inteligência, de dedicação a uma causa.
Alfredo Caldeira adivinhava-o e respondia:
─ Verá que sei morrer como um revolucionário.
E morreu realmente com a coragem e a confiança no futuro de que sempre em vida dera provas.»


Tarrafal – Testemunhos (Editorial Caminho)


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