Editorial

«Não se tratou apenas de mais uma manifestação, igual a muitas outras realizadas ao longo dos anos»

UMA NOVA FASE DA LUTA

A impressionante manifestação que na sexta-feira passada desfilou pelas ruas de Lisboa, constituiu o mais relevante acontecimento dos últimos tempos. Não apenas por ter sido uma das maiores manifestações - senão a maior – realizada nos últimos trinta e dois anos no nosso País, mas essencialmente pelo significado de que se reveste no actual contexto político-social.
Lendo e ouvindo o que governantes e propagandistas da política de direita têm vindo a debitar nos últimos tempos, uma manifestação como aquela a que assistimos no dia 13 seria coisa impensável. No entanto, o impensável tornou-se realidade bem concreta e bem visível na multidão cheia de força e de determinação que ali esteve a exigir um novo rumo para a política do País, com «mais emprego, salários e direitos».
Com efeito, não se tratou apenas de mais uma manifestação, igual a muitas outras grandiosas manifestações realizadas ao longo dos anos contra a política de direita e em defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País: ela foi uma afirmação específica da força organizada dos trabalhadores num específico quadro político e social; foi uma resposta clara e frontal, um inequívoco «não» à política de direita em geral e à expressão por ela assumida neste tempo de crise global do capitalismo; foi uma resposta clara e frontal à ofensiva ideológica de pregação da aceitação passiva dos decretos da ideologia do grande capital, do conformismo, da resignação, do medo; foi uma afirmação de forte consciência de classe e política e de firme determinação de prosseguir, intensificar e ampliar a luta no futuro – que terá expressão imediata nas acções da juventude estudantil, no dia 24; da juventude trabalhadora, no dia 28; e dos agricultores, no dia 30.
Tudo isto anunciando, de facto, uma nova e significativa fase da luta de massas de tal forma carregada de potencialidades que dela se pode dizer que constitui o traço característico essencial da situação política actual.

Assim sendo, não surpreendem as reacções à manifestação por parte dos mesmos de sempre.
Nos média dominantes – que a silenciaram enquanto puderam e só dela falaram no próprio dia e após a sua realização – os habituais «analistas políticos» apressaram-se a encaixar a manifestação na leitura prévia que dela tinham feito, havendo até quem tenha tido o desplante de escrever que se tratou de uma «acção político-partidária» onde «os problemas concretos dos trabalhadores» estiveram ausentes e foram substituídos por «um conjunto de mensagens políticas»…
Quanto a José Sócrates, repetiu a cassete da «instrumentalização» - «argumento» velho de mais de cinquenta anos, como ele próprio deverá saber…
Não surpreende, igualmente, que o chefe da UGT, João Proença, tenha aproveitado a ocasião para vir louvar o Código do Trabalho, que considera «um instrumento importante para combater a crise» - e do qual diz que, «se tem um mal, foi ter entrado em vigor demasiado tarde».
Tudo dando sentido à intervenção de Sócrates no congresso da «Tendência Socialista da UGT», onde, cheio de brio democrático e sem corar, defendeu o «sindicalismo livre de tutelas partidárias» - como, por exemplo, aquele «sindicalismo» que ali estava reunido em congresso partidário…
Sem surpresas, também, foi a tradicional e oportunista tentativa de aproveitamento da manifestação por parte do Bloco de Esquerda, seguindo uma prática que tem tantos anos de existência quantos anos de vida tem o BE e que se resume, no essencial, ao que desta vez mais uma vez se passou: no período de preparação da manifestação, o BE, de uma forma geral, primou pela ausência; no dia da manifestação, os seus dirigentes apareceram, finalmente, sempre rodeados pela prestimosa comunicação social dominante – que é, como se sabe, propriedade do grande capital; aproveitaram, então, para, enfim, falarem da manifestação – naquela forma em que se especializaram e que deixa sempre no ar a ideia de que se fartaram de trabalhar para o êxito que ali está à vista de toda a gente... Desta vez, Francisco Louçã elevou a fasquia da desfaçatez: ele, que nas suas múltiplas intervenções nos últimos tempos, todas laboriosamente difundidas pelos média dominantes – que são, nunca é demais repetir, propriedade do grande capital - se esqueceu sempre de apelar à mobilização dos trabalhadores para a jornada de dia 13, apareceu agora, fingindo fazer uma gracinha, a dizer que entregou a José Sócrates «os cumprimentos» dos manifestantes…

É sabido que os militantes comunistas deram um contributo decisivo para o êxito da poderosa manifestação do dia 13. Integrados nas estruturas unitárias do movimento sindical, ao lado de trabalhadores de várias opções políticas e partidárias, eles fizeram da preparação desta jornada de luta a sua tarefa prioritária durante as últimas semanas. E agindo assim não fizeram mais do que cumprir o seu dever de militantes do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores.
Ao mesmo tempo, levavam por diante a realização de centenas de iniciativas comemorativas do aniversário do Partido (sempre silenciadas pelos média dominantes); iniciavam o complexo e difícil trabalho de construir as listas da CDU para os vários órgãos autárquicos; davam andamento à programação e às primeiras iniciativas relacionadas com as eleições para o Parlamento Europeu (regra geral silenciadas pelos média); e prosseguiam a tarefa de todos os dias visando o reforço do Partido.
Tarefas que vão prosseguir, agora com a confiança redobrada pelo êxito que foi a grande jornada de luta de dia 13.


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