Os indígenas rejeitam a exploração dos recursos naturais pelas multinacionais
Peru
Governo massacra indígenas
Mais de 40 indígenas foram massacrados pelo exército peruano depois do presidente, Alan Garcia, ter ordenado a repressão dos protestos contra os decretos que privatizam a exploração das riquezas naturais amazónicas.
Durante dois dias, a repressão policial contra a comunidade originária de Bagua Grande não cessou, respondendo com extrema violência aos protestos pacíficos que se mantinham há mais de 45 dias.
Helicópteros do exército peruano dispararam sobre os manifestantes, sexta-feira, 5, quando os indígenas bloqueavam uma estrada próxima daquela localidade. Em resposta, estes terão supostamente sequestrado 38 polícias do contingente de choque. Fontes oficiais alegam que foi esta acção que motivou nova vaga repressiva impiedosa, operação de resgate furiosa e sangrenta que não poupou a vida sequer a membros das autoridades.
Nas últimas declarações antes de ser dado como desaparecido, Alberto Pizango, líder do movimento indígena e dirigente da Associação Inter-Étnica da Selva Peruana (AIESP), garantiu que até à intervenção das aeronaves os protestos pautavam-se pela calma e a serenidade, e que foram os disparos de gás lacrimogéneo e o uso de fogo real que fez degenarar o conflito.
Sobre o paradeiro de Pizango não existem dados concretos, apenas suposições. A polícia peruana adianta que o dirigente indígena terá fugido para a vizinha Bolívia, mas as autoridades de La Paz não confirmam o exílio de Pizango em território boliviano.

Condenação unânime

Reagindo ao massacre em Bagua Grande, os partidos comunista Peruano e do Peru – Pátria Roja, e o Partido Nacionalista Peruano responsabilizaram o executivo liderado por Alan Garcia pelo massacre e exigiram o fim da repressão contra as comunidades amazónicas, as quais, destacam, mais não fazem do que defender os respectivos direitos rejeitando entregar à ganância das multinacionais os recursos naturais.
Os partidos da oposição lembram ainda que este é mais um episódio da sanha antidemocrática do governo do Partido Aprista Peruano, apostado em confrontar as lutas populares, e sublinham que o único caminho a seguir é o da revogação imediata dos polémicos decretos.
No mesmo sentido pronunciou-se a Coordenadora Política e Social (CSP), que alerta para as represálias, a perseguição e a possível detenção de dirigentes nativos que o governo prepara. Em nota citada pelo vermelho.org.br, a CSP apela ainda para que Alan Garcia e os seus pares interrompam a «campanha mediática mentirosa cujo intuito é conformar a opinião pública e justificar a repressão e o autoritarismo».
A estrutura unitária exige igualmente que o governo retire as forças repressivas de Bagua Grande, levante o estado de emergência que suspende os direitos constitucionais, e permita a entrada da Cruz Vermelha e de funcionários do Ministério Público para que estes possam investigar os factos ocorridos na região.
Para ontem, as estruturas políticas e sociais peruanas marcaram uma marcha reivindicativa até ao palácio do governo. O objectivo é amplificar o protesto contra o decreto 1090 e as orientações neoliberais de Alan Garcia.

Ao serviço do capital

Em causa no diferendo que opõe o governo Aprista e as comunidades indígenas da Amazónia peruana está a promulgação de duas leis e sete decretos legislativos que abrem caminho à exploração dos recursos locais por parte das multinacionais, sobretudo as norte-americanas, na medida em que as normas foram aprovadas no âmbito do cumprimento do Tratado de Livre Comércio entre o Peru e os EUA. As populações acusam o presidente Alan Garcia de violar a Constituição da República com a promulgação das referidas normas,e a meio do passado mês de Maio, declararam publicamente que não lhes reconhecem autoridade.
Para os indígenas, qualquer tipo de concessão a privados que venha a ser feita é ilegal, uma vez que espezinha o estipulado na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Peru em 1993. Nele estabelece-se que o Estado tem que consultar as comunidades nativas antes de celebrar com empresas privadas contratos relativos aos seus territórios.
A parcela amazónica peruana – a maior fora da soberania brasileira – é rica em água, hidrocarbonetos e madeira. A biodiversidade, o património natural e os conhecimentos ancestrais são apetecíveis, entre outras, para a indústria farmacêutica. Alan Garcia já demonstrou que não olha a meios para servir o capital.


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