Editorial

«Como a história mostra, o anticomunismo é sempre antidemocrático»

RECORRÊNCIAS PERIGOSAS

A semana que passou foi, no plano mediático, marcada pela recorrente exibição de anticomunismo primário de Alberto João Jardim.
Múltiplos grandes títulos, complementados com as inevitáveis análises produzidas pelos inevitáveis analistas de serviço, catapultaram o vómito para o lugar de notícia do dia durante vários dias.
E nada disto espanta: nem a reincidência do líder do PSD/Madeira que, saudoso do passado fascista, veio retomar uma «proposta» que já havia feito em 2003 nem o espalhafato dos média dominantes, fingindo que estavam a noticiar uma novidade, mas, de facto, associando-se e dando nova dimensão à provocação anticomunista de Jardim; nem o silêncio de Manuela Ferreira Leite e da direcção do PSD, remetendo a sua opinião para a futura revisão da Constituição – talvez alimentando o sonho de, para tal revisão, interromperem a democracia por seis meses (ou mesmo mais…) de modo a poderem sacar do texto constitucional o que, nele, de Abril resiste, designadamente o seu conteúdo antifascista.
Registe-se, entretanto, que tudo isto não pode ser visto desligado da campanha anticomunista em curso e do conjunto de intenções expressas e de decisões tomadas nos últimos tempos, em vários países – sempre a partir da perversa equiparação de comunismo com fascismo como caminho para criminalizar o primeiro e branquear o segundo; sempre na calha da poderosa ofensiva da ideologia dominante que tem como linha essencial a sacralização do capitalismo e a diabolização do comunismo - e sobretudo sempre procurando esconder e escamotear essas verdades incontornáveis que nos mostram que o fascismo é, sempre, uma expressão do capitalismo e que o anticomunismo é, sempre, antidemocrático.

No caso concreto de Portugal, quem viveu no tempo do fascismo – ou quem sobre esse tempo colheu informação verdadeira (naturalmente, fora do universo dos média dominantes…) – sabe que equiparar fascismo e comunismo significa equiparar os opressores e os que resistiram à opressão; os que brutalmente liquidaram a liberdade e os que por ela lutaram correndo todos os riscos; os inimigos intransigentes da democracia e os que a defenderam intransigentemente; os repressores e os reprimidos; os carrascos e as vítimas; os torturadores e os torturados, enfim, os fascistas e os democratas.
E a verdade é que o ódio ao PCP por parte destes democratas de ocasião decorre do facto de essa resistência heróica dos comunistas continuar a irritá-los, sabendo como sabem – mas não querem que se saiba – que, quando lutar pela democracia e pela liberdade tinha como consequência inevitável a prisão, a tortura, muitas vezes a morte, os comunistas ocuparam sempre a primeira fila dessa luta – da mesma forma que, derrubado o fascismo, estiveram na vanguarda da construção da democracia de Abril e, posteriormente, na defesa dessa democracia encabeçando a luta contra a política de direita, a política da contra-revolução de Abril.
E é esta postura do PCP, sempre do lado da democracia, da liberdade e dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País que eles não toleram.

Com tudo isto, o PCP foi provavelmente, o partido mais falado, nos últimos dias, nos média dominantes, facto que eles registarão, para efeito estatístico em matéria de pluralismo...
E com tudo isto, todos esses média persistiram no alheamento (ou pior do que isso) em relação à intensa intervenção dos comunistas: para eles, as centenas de iniciativas levadas a cabo em todo o País, com a participação de milhares de homens, mulheres e jovens, não são notícia; nem os vários debates com vista à construção do Programa Eleitoral do PCP para as legislativas; nem nada que tenha a ver com o esforço de análise da realidade nacional, de procura de soluções e de propostas para livrar o País da grave situação criada por três décadas de política de direita.
E quando, para os tais efeitos estatísticos, cobrem uma iniciativa do PCP, é regra geral para a menorizar ou para deturpar o seu conteúdo.
Entretanto, as consequências da política de direita continuam a fazer-se sentir, cada dia de forma mais gravosa, na vida da imensa maioria dos portugueses.
Como há dias referiu o secretário-geral do PCP, Portugal está no topo dos países da União Europeia com mais profundas desigualdades sociais. A pobreza, em muitos casos extrema, atinge mais de dois milhões de portugueses. E não vale inventar explicações para fugir à verdade, como faz todos os dias o primeiro-ministro. As causas desta sombria realidade estão na política de direita, na sua natureza anti-social, na sua cada vez mais desigual e injusta repartição da riqueza - nesta política geradora do desemprego – que atinge mais de 600 mil trabalhadores, metade dos quais sem receber qualquer subsídio; do emprego precário – fonte de insegurança e fonte de desvalorização dos salários; dos baixos salários e dos salários em atraso; das reformas de miséria…
Enquanto do outro lado desta trágica realidade, numa ofensa aos dramas vividos por milhões de pessoas, a imensa minoria composta pelos grandes grupos económicos e financeiros, continua a acumular riqueza mesmo em «tempo de crise», como o confirmam os mais de 500 milhões de euros de lucro dos cinco maiores bancos nos primeiros três meses deste ano – ou os 550 milhões de euros de lucro arrecadados, no mesmo período, pelos cindo maiores grupos económicos do sector da energia e comunicações.
E é por uma alternativa a esta política que se bate o PCP: combatendo-a, contrapondo-lhe a política necessária e lutando pela sua concretização.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: