Em todos os poemas de Ary se detecta a marca do revolucionário
Homenagem no Coliseu
Ary, sempre!
O Coliseu encheu para assistir ao espectáculo promovido pelo PCP de homenagem a Ary dos Santos, Poeta da Revolução, no ano em que passam 25 anos sobre a sua morte e se comemora o 35.º aniversário do 25 de Abril.
Uma verdadeira moldura humana envolvia o ecrã que projectava imagens de Ary a dizer o poema «As portas que Abril abriu» como só ele o poderia fazer. Nas suas palavras, proferidas com uma força e convicção inigualáveis, os presentes reviviam os primeiros tempos da Revolução dos Cravos. O silêncio era total.
Terminada a projecção do vídeo, com visível tristeza de muitos, facilmente se concluía que um poeta como Ary não morre. Aliás, assim o dizia os rostos da assistência, para quem ele permanece vivo, como vivo permanece para quantos o conheceram ou, não o tendo conhecido, estão de corpo e alma com a Revolução, que ele «cantou e contou como ninguém», como diria a seguir José Casanova, dirigente do PCP e amigo pessoal do «Zé Carlos», nas suas «breves mas necessárias» palavras.
Depois de José Casanova, foi a vez de «dar voz» a Carlos do Carmo, artista para quem Ary mais escreveu e como tal considerado ainda por José Casanova como «presença indispensável».
Começou então o espectáculo, com a assistência a deixar-se embalar pela voz do cantor e as belíssimas palavras do poeta.
Não foram canções revolucionárias as que se ouviu mas em todas elas se detecta a marca do revolucionário que foi Ary. Elas falam das dores e tristezas do povo, do trabalho e do pão que almeja, mas também da sua ternura e alegria, da sua força, da sua capacidade de luta, da esperança que o alimenta, da ânsia de liberdade. Belíssimas, sem dúvida, as imagens de Ary para exprimir todos esses sentimentos.
Um público que se via saudoso mas não saudosista ouviu atentamente cerca de 20 canções entoadas pela voz do grande artista e referência do fado que é Carlos do Carmo, que não resistiu também a dizer algumas palavras. E disse da importância que para ele teve Ary dos Santos, da sua generosidade, de como tendo tão bem entendido a sua inquietação relativamente ao fado – que não queria derrotista – tantos poemas escreveu para si. Poemas que falam de amor e mágoa mas, sobretudo, da Lisboa que tanto amou, do Tejo que a banha, das suas figuras típicas e dos seus símbolos emblemáticos. A varina, o cauteleiro ou o homem das castanhas, o cacilheiro e o «amarelo da Carris» saíram assim da voz de Carlos do Carmo, para quem cantar Ary «não é cantar o passado, não é evocar, é sempre um clarão que fica aberto para o futuro».
De entre o público, e no meio do silêncio, ouvia-se de quando em quando gritar baixinho «Ary, sempre!». Público que também ele não resistiu a acompanhar o cantor em «O homem das castanhas» e Os putos».
«Ary, sempre!», é certo. Ele permanece vivo como vivas permanecem as palavras do poeta que tomou partido, do militante comunista que sempre quis o melhor para o seu povo e para isso viveu.

Intervenção de José Casanova
O Poeta que tomou partido

Nas «breves mas necessárias» palavras que proferiu a propósito desta homenagem «ao Poeta maior da literatura portuguesa» que é José Carlos Ary dos Santos, ao «Poeta da Revolução», José Casanova começou por agradecer a Carlos Carmo a sua indispensável presença como «o mais relevante intérprete de Ary».
Logo a seguir, dirigiu-se aos militantes comunistas que, «juntamente com o Zé Carlos, foram protagonistas das múltiplas batalhas de que é feita, todos os dias, a luta pelos ideais de Abril, que o mesmo é dizer a luta pelos ideais de justiça social, de liberdade, de paz, de fraternidade, de solidariedade». Militantes comunistas para os quais, como nunca é demais repetir, Ary é «o exemplo do intelectual que tomou partido; que fez a sua inequívoca opção política e de classe; que soube encontrar e conquistar o seu posto de militante; que percebeu e assimilou a importância da unidade e da coesão partidárias – sempre, mas de forma particular nos momentos mais difíceis, nos momentos em que cerrar fileiras é condição primeira da condição de comunista; que aprendeu e ensinou que “o Partido que temos é melhor”; que integrou em pleno o grande movimento revolucionário de massas que, em determinado momento, transformou a face do nosso país; que foi artífice maior da colocação da intervenção cultural ao serviço do progresso e dos ideais revolucionários; que participou na luta política através de uma intervenção militante intensa, apaixonada e contínua, utilizando as armas de que dispunha: o seu talento notável; a sua imensa capacidade para, através da poesia e com uma rara sensibilidade política, dizer em cada momento, com rigor cirúrgico, as palavras necessárias; a sua profunda identificação com os anseios e as aspirações dos trabalhadores e do povo.»

Cantou e contou como ninguém

Ao chamar a este espectáculo «Ary sempre!», o PCP, como sublinhou José Casanova, quis «fazer a ligação do Poeta de Abril a Abril; do Poeta da Revolução à Revolução, que ele cantou de forma singular». Até porque, «os poemas do Ary – particularmente os que escreveu entre 1974 e 1984 – são como que o cancioneiro da Revolução de Abril».
Assim, diz o dirigente comunista, ler hoje estes poemas «é recordarmos o dia-a-dia desse que foi o tempo mais belo e mais luminoso da nossa história colectiva».
Aliás, Ary «cantou e contou, como ninguém, o 25 de Abril da liberdade – dizendo-nos, numa síntese de rigor exemplar, que «quem o fez era soldado/homem novo/capitão/ mas também tinha a seu lado/muitos homens na prisão»; cantou e contou, como ninguém, «as prensas, os martelos, as bigornas» e «os altos fornos» e a importância da força organizada da classe operária e dos trabalhadores –, essa força organizada que, agora, um iníquo Código do Trabalho pretende destruir; cantou e contou, como ninguém, a luta dos trabalhadores – lá estava ele, na grandiosa acção das massas trabalhadoras, em Novembro de 75, no Terreiro do Paço, a dizer-nos na sua voz forte, calorosa e cheia de fraternidade, que «agora não passam mais»; cantou e contou, como ninguém, as massas em movimento nas ruas de Lisboa, nesta Lisboa de que ele é, também, o Poeta – e a que, agora, usurparam o nome para o dar a um Tratado espúrio que vem roubar a independência e a soberania que Abril havia restituído a Portugal e aos portugueses; cantou e contou, como ninguém, o futuro de que Abril foi o primeiro passo – e no qual, agora, a política de direita injecta, todos os dias, sombrios pedaços do passado.
O Zé Carlos cantou e contou como ninguém, a luta, a nossa luta – luta difícil, com muitos obstáculos pela frente, às vezes parecendo que não vamos lá, às vezes sendo forçados, pela força das circunstâncias, a dar um passo atrás, mas logo confirmando que «um passo atrás são sempre dois em frente», porque «o que é preciso é termos confiança» e «se fizermos de Maio a nossa lança/isto vai, meus amigos, isto vai» - esta luta que hoje prosseguimos, com determinação e convicção profundas, e com a consciência assumida desta verdade que é nosso lema, nossa bandeira, nosso poema: Quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre; esta luta que hoje prosseguimos procurando impedir que os ventos do passado cerrem as portas que Abril abriu e procurando conquistar Abril de novo.
Esta luta de que os poemas do Zé Carlos, bem como as canções deles nascidas, são instrumentos preciosos. Porque esse poemas e canções são parte integrante do rico património de luta do povo e dos trabalhadores portugueses – e dizê-los e cantá-los hoje significa dar mais força à luta, prosseguir, com mais força, o combate pelos ideais de Abril e pela construção de uma sociedade livre, justa, pacífica, solidária e fraterna.»
Uma emocionante ovação acolheu no fim as «breves mas necessárias» palavras de José Casanova.


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