Editorial

«A luta continua!, gritaram milhares de pessoas na despedida do Prémio Nobel. E assim será»

ATÉ AMANHÃ, CAMARADA

A repercussão, no País e no mundo, da morte de José Saramago é bem a expressão do imenso prestígio e admiração de que gozava o nosso Prémio Nobel da Literatura.

Um prestígio e uma admiração que decorriam, naturalmente, da superior qualidade da sua notável obra literária, internacionalmente reconhecida, mas também da postura de intervenção activa na defesa dos explorados, dos injustiçados, dos humilhados e ofendidos, que caracterizou toda a sua vida.

Com efeito, na sua vida como na sua obra, José Saramago manteve sempre uma estreita ligação aos anseios e às aspirações do povo trabalhador – o povo de onde veio, de onde se ergueu e se fez o Nobel levantado do chão.

Para os comunistas, a morte de José Saramago significa o desaparecimento de um camarada que o era há mais de quarenta anos: desde os tempos da resistência ao fascismo até aos dias de hoje, passando pelo tempo novo da Revolução de Abril. E que, durante essas quatro décadas, enquanto militante comunista, foi protagonista activo das batalhas em cada momento exigidas pela situação, lutando integrado no colectivo partidário ou na sua condição de «comunista e escritor», fazendo da palavra escrita uma arma – arma poderosa que nos deixou, entre outros exemplos grandes, esse hino à luta heróica do povo alentejano pela Reforma Agrária, que é o romance Levantado do Chão.

Como diz a Nota do Secretariado do Comité Central do PCP: «José Saramago era militante do Partido Comunista Português desde 1969 e a sua morte constitui uma perda para todo o colectivo partidário comunista – para o Partido que ele quis que fosse o seu até ao fim da sua vida».

Por isso lá estiveram, deixando o último adeus ao camarada Saramago, milhares de militantes comunistas, operários, intelectuais, artistas, empregados, jovens, mulheres, que dele se despediram com um fraterno Até amanhã, camarada, forma nossa de dizer e garantir que A luta continua.

 

Garantia bem oportuna, essa, sabido que é na continuação, intensificação e alargamento da luta de massas que se encontra o caminho essencial para dar a volta à situação actualmente existente. Uma situação dramática, criada por 34 anos de política de direita, os últimos dos quais de responsabilidade directa deste Governo PS/José Sócrates que, com a sua acção devastadora, levou mais longe do que qualquer outro a destruição da economia nacional, o agravamento das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e do povo, a entrega da independência e da soberania nacional aos interesses do grande capital.

Olhando para a realidade do País e para a política a que o Governo se propõe dar continuidade, as perspectivas são por demais sombrias. Os governantes desdobram-se em afirmações, por um lado optimistas – com o objectivo de justificar a política que levam a cabo; e, por outro lado, pessimistas – neste caso com o objectivo de justificar os sacrifícios que fazem pesar sobre os trabalhadores e o povo.

E o único dado seguro que o Governo pode apresentar aos portugueses é o do agravamento constante da situação social – e a única promessa que está em condições de fazer é a de um ainda maior agravamento no futuro. Isto no que diz respeito aos trabalhadores e ao povo, porque em relação ao grande capital a música é outra. Para esse, a «crise» e o «défice» são pretextos para maiores benesses e favores, para maiores e mais escandalosos lucros.

Com efeito, em tudo o que diz respeito às condições de vida e de trabalho dos trabalhadores e do povo, a situação é cada dia mais grave: desemprego, despedimentos, salários em atraso, aumento dos preços, roubo nos salários, nas pensões e reformas – ao mesmo tempo que são encerrados serviços públicos na saúde e na educação e se prossegue o objectivo de privatizar empresas e sectores públicos como os correios e os transportes.

 

Uma violenta ofensiva está em marcha – quer aprofundando e agravando as actuais leis laborais, quer introduzindo-lhes novas penalizações, como a liberalização dos despedimentos e a generalização da precariedade - numa verdadeira escalada contra direitos laborais e sociais conquistados ao longo de décadas de luta dos trabalhadores e do povo.

Trata-se de uma autêntica cruzada contra os interesses nacionais, sustentada por massiva ofensiva ideológica através da qual os propagandistas da política de direita tentam levar os trabalhadores a aceitar passivamente as teses que melhor servem o capital.

E tudo isto é feito numa articulação cada vez mais perfeita entre o PS e o PSD (e com o CDS/PP a aplaudir à socapa, para melhor fingir que não aplaude). Todos agindo, sempre e só, em função dos interesses do grande capital de que os três partidos da política de direita são os representantes fiéis. Todos agindo e falando no sentido de reforçar a instalação definitiva da ideia da alternância como caminho e solução para os problemas criados precisamente por 34 anos de nefasta alternância.

Pôr termo a esta política de desastre nacional apresenta-se, assim, como um imperativo urgente.

Neste contexto, a intensificação e o alargamento da luta de massas destaca-se como questão crucial.

As acções levadas a cabo nos últimos dias por iniciativa do PCP - designadamente os três fortes desfiles, com milhares de participantes, em Lisboa, Évora e Porto – constituíram um importante contributo para o reforço da luta, e dão indicações positivas para as acções já marcadas, designadamente a jornada de 1 de Julho contra o aumento dos preços e o roubo nos salários.

«Saramago, a luta continua!» - gritaram milhares de pessoas na despedida do Prémio Nobel. E assim será.


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