Editorial

«Deixa-nos o exemplo de quem lutou o tempo todo que tinha para lutar»

ANTÓNIO DIAS LOURENÇO

António Dias Lourenço é um daqueles militantes comunistas cuja vida é parte grande da história do Partido Comunista Português e que, por isso, ficará como exemplo para as gerações comunistas do presente e do futuro – uma vida e um exemplo que, pelo seu conteúdo revolucionário, constituem hoje e constituirão sempre uma verdadeira fonte de força do Partido.

Trata-se de uma vida toda ela dedicada ao Partido, à luta por ele conduzida e aos seus objectivos, numa entrega total, independentemente das condições existentes em cada momento e das consequências individuais dessa opção em cada momento.

Trata-se de 78 anos de militância revolucionária, 42 deles vividos em pleno regime fascista e, destes, 17 passados nas masmorras da PIDE – lutando, lutando sempre: enfrentando os brutais interrogatórios e as cruéis torturas dos torcionários pidescos e vencendo-os com a sua têmpera de revolucionário; vencendo-os outra vez ao evadir-se da Fortaleza de Peniche, naquela que foi uma das mais audaciosas e espectaculares fugas individuais dos cárceres fascistas, só possível graças a uma coragem singular, a uma forte determinação e engenho, a uma vontade imparável de voltar a integrar a organização clandestina do Partido e a dar o seu contributo na luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo, pelo comunismo.

Trata-se de uma vida e de um exemplo sazonados ao longo de décadas pelos valores e princípios do ideal comunista de justiça social, de liberdade, de paz, de solidariedade, de fraternidade.

 

António Dias Lourenço faz parte de uma geração que desempenhou um papel decisivo na construção do Partido com as características que tem hoje: a geração que na década de 40, erguendo este «Partido leninista definido com a experiência própria», o transformou na vanguarda efectiva da classe operária e das massas trabalhadoras; num grande partido nacional; no decisivo organizador da luta popular e impulsionador da unidade e da resistência antifascistas; num partido que, voltando a integrar o movimento comunista internacional, aí ocupou o seu lugar rodeado de justificado prestígio.

Ficaram célebres, no início dos anos 40 os «Passeios do Tejo», que tiveram em António Dias Lourenço um dos principais organizadores, e nos quais participaram Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes e outras destacadas figuras da cultura portuguesa, como Alves Redol, Fernando Lopes-Graça, Alexandre Cabral, Sidónio Muralha, entre outros - «passeios» que, iludindo a vigilância fascista, permitiram estreitar laços entre intelectuais e operários, dar mais força ao Partido e à luta antifascista, impulsionar o movimento neo-realista.

António Dias Lourenço foi um interveniente activo na reorganização de 40/41, que viria a ser o primeiro grande passo na resposta aos graves problemas e dificuldades então vividos pelo Partido e que o tinham levado a uma considerável fragilização. Primeiro grande passo, também, do processo de preparação desses momentos marcantes da história do PCP que foram o III e o IV Congressos, realizados respectivamente em 1943 e 1946 – no primeiro dos quais António Dias Lourenço foi eleito, pela primeira vez, para o Comité Central, organismo de que viria a fazer parte até 1996. Primeiro grande passo, ainda, para a afirmação da identidade do Partido e do consequente e impetuoso desenvolvimento da luta de massas, de que são exemplo, designadamente, as grandes greves de Julho/Agosto de 1943 e de Maio de 1944, organizadas e dirigidas pelo partido da classe operária e de todos os trabalhadores.

E assim foi a actividade militante de António Dias Lourenço – o camarada «João» - nos anos seguintes e até ao derrubamento do fascismo, no glorioso 25 de Abril.

E assim foi nos meses e nos anos que se sucederam ao Dia da Liberdade, nos meses e nos anos dos avanços revolucionários, nos meses e nos anos da ofensiva contra-revolucionária.

 

Para além disso, e de muito mais, António Dias Lourenço foi responsável pelo Avante! em dois períodos da vida do nosso jornal: o primeiro, de 1956 a 1962; o segundo, enquanto director do órgão central do PCP, de 1974 a 1991 – sendo o camarada que durante mais tempo exerceu estas funções.

Razões acrescidas, estas, para o muito especial imenso adeus deixado pelo actual colectivo do Avante! ao camarada António Dias Lourenço, com profunda emoção, com o carinho, a ternura e a admiração de quem assume o compromisso de prosseguir a sua luta, a nossa luta.

Porque, como afirmou o secretário-geral do PCP, camarada Jerónimo de Sousa, na intervenção proferida no domingo, no cemitério do Alto de São João, «mais do que uma despedida o que hoje aqui nos traz é um dizer "Presente!" a quem deixa gravado no percurso da luta dos trabalhadores e do povo português um sulco imperecível de dedicada e corajosa intervenção e luta pela liberdade, a democracia e o socialismo»; a quem, «porque lutou o tempo todo que tinha para lutar» nos anima com o seu exemplo – e nos ensina e confirma que «vale a pena lutar sempre, sempre, enquanto cá estivermos, com aquela inabalável convicção do ideal comunista, que nós, que outros, hão-de prosseguir».

E foi esse, afinal, o sentido e o significado do grito de «PCP! PCP!» vibrado em uníssono pela multidão que acompanhou o grande revolucionário à sua última morada e, assim, manifestou o mais elevado e sentido reconhecimento pela vida e pelo exemplo que o camarada António Dias Lourenço ofereceu ao seu Partido.


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