«Desde 2007 mais de 7,8 milhões de jovens engrossaram o exército de reserva»
OIT fala em «geração perdida»
Crise eleva desemprego jovem a recorde

Cerca de 81 milhões de trabalhadores entre os 15 e os 24 anos encontravam-se desempregados em 2009. A cifra é a mais elevada de sempre e deverá continuar a aumentar em 2010, diz a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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Segundo um relatório apresentado no final da semana passada, em Genebra, na Suíça, no ano transato a percentagem de jovens sem posto de trabalho cresceu de 11,9 para 13 por cento. Só desde 2007, quando a crise capitalista entrou numa fase aguda, mais de 7,8 milhões de indivíduos jovens engrossaram as fileiras do exército de reserva.

Os anos de 2008 e 2009 foram os mais negros com o total de novos jovens desempregados a atingir quase 7 milhões. De um ano para o outro, o aumento foi de 9 por cento, menos que a subida do desemprego entre os adultos, é certo, mas com consequências arrasadoras entre os menores de 25 anos.

Na década anterior, de 1997 a 2007, o número médio de novos jovens desempregados não atingia os 200 mil por ano. Num total de 620 milhões de indivíduos activos, a juventude responde por 22 por cento do aumento do desemprego e por 44 por cento do total de desempregados ao nível mundial.


Flagelo global


O problema é particularmente grave nos chamados países emergentes, dado que estes apresentam uma estrutura etária muito jovem. Não obstante, o flagelo do desemprego jovem também se faz sentir com contundência em alguns países industrializados, especialmente no Centro, Leste e Sul da Europa com uma taxa de 19,9 por cento.

Já nos EUA, a situação consubstancia contornos de calamidade, uma vez que se observou um crescimento de oito pontos percentuais (de 10 para 18 por cento) na taxa de desemprego entre os trabalhadores dos 15 aos 24 anos.

O Médio Oriente e o Norte de África apresentam a taxa de desemprego juvenil mais elevada, 25,7 por cento, ao passo que na África Subsaariana o índice é de 18,1 por cento, e na América Latina e Caribe, Sudeste Asiático e Pacífico, Ásia Meridional, e Leste da Ásia as taxas são de 16,6, 15,8, 10 e 7,8 por cento, respectivamente.

Na UE, o desemprego juvenil caiu na última década, mas a OIT sublinha que tal se prende mais com «a falta de interesse dos jovens em entrarem no mundo do trabalho antes dos 25 anos que à aplicação de estratégias para reduzir o desemprego juvenil».


Geração perdida


Em 2010, a tendência registada nos últimos dois anos deverá agravar-se, informou igualmente a OIT, que estima em 13,1 por cento o índice de desemprego para o ano corrente. Neste contexto, a Organização não poupou nas palavras e alertou para a emergência de uma «geração perdida».

Os jovens trabalhadores «fazem tudo o que podem, mas as portas continuam fechadas», considerou a economista Sarah Elder. «Os jovens já não sabem onde ou como procurar emprego», acrescentou, por seu lado, Steven Kapsos, também ele economista da OIT.

Talvez por isto, o número de jovens que não estuda nem trabalha seja crescente: 34 por cento na Europa Central e Leste, 27 por cento na África Subsaariana, 21 por cento na América Latina e 13 por cento nas nações dominantes no modo de produção capitalista.


Capital aproveita


Mas o estudo da Unidade de Tendências de Emprego da Organização Internacional do Trabalho destaca outros factores importantes no que à ocupação profissional dos menores de 25 anos diz respeito.

Em 2008, aproximadamente 152 milhões de jovens, 28 por cento da população activa da faixa etária referida, não lograram sair da pobreza, isto apesar de venderem a sua força de trabalho. A razão são os baixos salários impostos pelo capital, que para estes não chegam a dois dólares diários.

Neste contexto, não é de estranhar que mais de 1 em cada 3 jovens empregados no mundo se mantenha abaixo do limiar da pobreza, procure emprego sem sucesso, ou, por este mesmo motivo, tenha pura e simplesmente desistido de encontrar um trabalho.

Os jovens empurrados para a miséria enfrentam ainda outros problemas, tais como «longas jornadas, contratos temporários ou informais, poucos ou nenhuns benefícios sociais, capacitação mínima e falta de voz no local de trabalho», pode ler-se no texto da OIT.

 

Proletária do proletário

 

As mulheres jovens são, neste quadro, as que encontram maiores dificuldades na hora de encontrar um emprego. No ano passado, a taxa de desemprego entre estas foi três décimas superior à registada entre os homens, 13,2 contra 12,9 por cento.

Outra estatística interessante divulgada pela OIT é a que afirma que nos países em vias de desenvolvimento a discriminação das mulheres é maior, já que nestes as mulheres têm menos oportunidades de emprego, conciliam com maior dificuldade o trabalho com as tarefas domésticas e são as primeiras a ser despedidas pelo patronato.

 

Portugal no topo da vergonha

 

O supracitado documento da OIT analisa os dados referente ao nosso país e nota que a crise capitalista fez disparar o desemprego entre os jovens portugueses para números próximos do dobro da taxa global para aquela categoria.

Em Portugal, 22,7 por cento dos activos menores de 25 anos encontram-se sem posto de trabalho, quando anteriormente a taxa era de 16,7 por cento. Para isto contribuiu o ingresso de 26 mil novos jovens no total de desempregados durante o ano de 2008.

Para os que ainda têm emprego, a OIT traça um panorama cruel, na medida em que afirma que não só estão sujeitos a piores condições laborais como correm o risco de caír na pobreza devido à degradação dos rendimentos.

 

Baralhar e dar de novo

 

Na fase actual da crise capitalista mundial, muito se tem falado dos prémios obscenos recebidos pelos gestores de topo e pelos proprietários das grandes instituições financeiras, detentoras, por via de laços diversificados, do fundamental dos meios de produção, e, assim, apontadas como responsáveis pela actual depressão económica do sistema.

Na verdade, o ruído de fundo sobre esta questão terá tido efeito na redução do total dos prémios anuais e prebendas pagas pelo capital financeiro, mas, de acordo com a consultora Mercer, o valor dos salários base dos administradores de topo e congéneres aumentaram, em média, 70 por cento.

Quase todas os 39 instituições inquiridas pela Mercer – a maioria bancos com sede na Europa - tomaram tal medida, nomeadamente através da alteração das comissões de remuneração (em 66 por cento em média) do salário base (em 70 por cento), ou pelo reforço dos chamados incentivos a longo prazo, aumentado-os em 56 por cento, em média.

Outro dado curioso do estudo da consultora é o que afirma que 65 por cento das empresas contemplam prémios de desempenho para os seus altos quadros, mas apenas 40 por cento introduziu normas que permitem recuperar tais montantes caso os objectivos contratados não sejam cumpridos pelos beneficiários.

Trata-se, por isso, não de um mecanismo de bonificação do mérito, como tem sido propagandeado em defesa dos prémios e outras remunerações semelhantes, mas de uma forma de arrecadar as mais-valias geradas pelo trabalho, tudo no quadro de um modo de produção em que, como o relatório da Mercer induz, mesmo num contexto de crise, a grande burguesia baralha e dá de novo. Literalmente.



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