«”O problema aqui é a luta de classes”, diz a resistência hondurenha»
Disputa de terras nas Honduras
Agrário manda matar camponeses

Cinco camponeses sem-terra foram assassinados por um grupo de mercenários ao serviço de um agro-industrial hondurenho durante uma acção de recuperação de terras na região do Vale de Aguán.

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O incidente ocorreu na manhã de segunda-feira, 15, quando os membros do Movimento Camponês de Aguán (MCA) tentavam recuperar os terrenos afectos à reforma agrária. Ignacio Reyes, 50 anos, Teodoro Acosta, 40, Siriaco Muños, 56, Raúl Castillo, 45, e José Luis Sauceda, 32, acabaram por ser assassinados durante a acção, aos quais se juntam outros quatro feridos. Dois activistas encontram-se ainda desaparecidos.

Em nota à comunicação social, o MCA acusa Miguel Facussé de ser o mandante do crime, já que o agro-industrial se apoderou ilegalmente das terras resgatadas pelo Instituto Nacional Agrário.

«Condenamos o ataque brutal perpetrado por sicários ao serviço de Miguel Facussé com o apoio da polícia e dos militares» que não só «os treinaram e protegem» como lhes forneceram «veículos, fardas e armas de elevado calibre», o que «confirma que o exército do país não defende os interesses do povo mas os dos grupos que tomaram o poder» nas Honduras, diz o comunicado do Movimento.

Para o MCA, é igualmente condenável «a atitude dos ministros da Administração Interna e da Defesa», os quais, perante o massacre, acusaram os camponeses de provocar a violência invadindo propriedade privada.

No mesmo sentido pronunciaram-se a Coordenadora de Organizações Populares de Aguan (Copa) e a Rede de Acção e Informação «Alimentação Primeiro» (FIAN-Honduras), para quem «fica novamente claro que as instituições do Estado estão a serviço dos proprietários de terras da região».

 

Luta de classes

 

Já a Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP), através do seu coordenador geral, Manuel Zelaya, enviou uma carta ao povo hondurenho considerando que a raiz do problema reside no sistema baseado no lucro e sustentado pelas classes dominantes.

«Os EUA emitiram um comunicado saudando a presença militar na região [do Vale de Aguán] e insinuando, inclusivamente, que os mortos não eram camponeses. Estou seguro de que o povo norte-americano não apoia esta política pública de violação flagrante aos Direitos Humanos, pois nunca foi tão evidente a estratégia de repressão e extermínio político em curso nas Honduras contra os cidadãos que defendem o direito inalienável de participar como lhes corresponde na vida nacional», começou por sublinhar Zelaya na missiva.

Para Zelaya, «é imperativo que nos manifestemos com força, e por todos os meios, fazendo notar o nosso repúdio perante o martírio do nosso povo; isto só é possível com a acção militante, determinada e valente de todos os membros das organizações sociais e políticas que integram a FNRP», considerou.

Já para o Comité de Familiares de Detidos Desaparecidos das Honduras (Cofadeh), membro da Resistência, «o problema aqui é a luta de classes. Se não se entende assim, não se pode compreender, nem vibrar, nem sentir a necessidade de mudanças emergente nas Honduras».

 

Luta histórica

 

Os conflitos entre camponeses sem-terra de Aguán e agrários vem de longa data. Em 1977, o porto-riquenho Temístocles Ramírez comprou milhares de hectares de terra, mas como a Constituição proibia a posse por parte de estrangeiros de terras costeiras ou em zonas de fronteira, o latifundiário foi expropriado e indeminizado. Acto contínuo, em 1983, os norte-americanos instaram o então governo das Honduras a instalar nos terrenos um complexo de treino militar.

Oito anos depois, e mais uma vez ao arrepio da legislação, as terras foram vendidas a empresários locais, mas em 1993 a Procuradoria-Geral da República anulou o negócio passando as terras para o Instituto Nacional Agrário (INA), cabendo a este distribuí-las pelos camponeses sem-terra.

A democratização do acesso à terra nunca foi efectivada pelas autoridades. Os movimentos de camponeses têm, no entanto, feito valer os seus direitos através das ocupações, mas agrários como Miguel Facussé insistem que os campos lhes pertencem.



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