«O conflito social na Tunísia estendeu-se à vizinha Argélia»
Povos rebelam-se nas ruas da Tunísia e Argélia
Revolta no Magrebe

Os protestos iniciados a meio de Dezembro na Tunísia continuam e estenderam-se à vizinha Argélia. Milhares de pessoas insurgem-se contra o desemprego, a carestia de vida e a repressão.

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Foto LUSA

A insurreição popular na Tunísia não se detém. As manifestações desencadeadas, há cerca de um mês, na sequência da morte de um jovem habitante da cidade tunisina de Sidi Bouzid, prosseguem a um ritmo imparável, principalmente no Centro e Oeste do país.

O desemprego (que em Sidi Bouzid atinge 25 por cento dos homens licenciados e 44 por cento das mulheres na mesma situação) e os aumentos dos preços são pasto fértil ao incendiar da revolta. À elevada desocupação e à carestia dos bens essenciais acresce a extrema brutalidade com que as autoridades têm respondido às reivindicações populares, somando cólera à legitima indignação para com as precárias condições de vida da maioria do povo.

Os actos desesperados de jovens e menos jovens também têm chocado os tunisinos, instigando à sua mobilização contra o governo. Pelo menos três homens entre os 17 e os 50 anos já se imolaram em protesto, entre os quais um jovem estudante chamado ao gabinete do director escolar para prestar explicações sobre uma acção reivindicativa local.

 

Dias tumultuosos

 

Entre sexta e segunda-feira, as cidades de Kasserine, Thala e Regueb estiveram a ferro e fogo. De acordo com fontes sindicais citadas por agências internacionais, às marchas e concentrações populares respondeu a polícia com violência, desencadeando autênticas batalhas campais nas ruas e procedendo à detenção de dezenas de manifestantes.

Os tiros com fogo real e as granadas de gás lacrimogéneo provocaram vários mortos e feridos, e nem as cerimónias fúnebres das vítimas dos dias precedentes foram respeitadas. Contra as multidões que aproveitavam os funerais para continuar os protestos, responderam as forças uniformizadas com nova vaga repressiva.

De acordo com a União Geral dos Trabalhadores – cuja sede em Kasserine foi o último reduto dos tunisinos durante os confrontos –, pelo menos 35 pessoas já morreram às mãos da polícia e do exército.

Em Sousse, localidade turística, o fim de uma partida de futebol foi o momento escolhido pelo povo para regressar às ruas, numa iniciativa que, unindo rivais clubísticos, acabou em enfrentamentos com a polícia.

Na capital, Tunes, um forte dispositivo antimotim procurou impedir manifestações juvenis contra a fome e o desemprego, mas os estudantes insistiram e marcharam entre o campus universitário e o centro da cidade. A acção acabou com a invariável carga policial e outra onda de prisões.

 

Autismo governamental

 

Reagindo ao alastrar dos tumultos, o governo da Tunísia ordenou, segunda-feira, o encerramento por tempo indeterminado das escolas e universidades, alegando que a medida vai vigorar até que sejam identificados os agitadores que instigam os alunos à revolta.

O executivo liderado por Ben Ali também tentou conter a insurreição prometendo a criação de 300 mil postos de trabalho até 2012, mas, ao mesmo tempo, o presidente deixou cair a face dialogante e de cedência quando rotulou a dinâmica de massas em curso de «actos terroristas imperdoáveis perpetrados por bandidos encapuzados».

 

Basta de injustiças

 

Entretanto, o conflito social na Tunísia estendeu-se à vizinha Argélia. Os motivos são os mesmos: o desemprego crónico, que afecta mais de 25 por cento dos trabalhadores e 20 por cento dos jovens, e o elevado custo dos géneros fundamentais.

Em cinco dias, a revolta à qual respondeu o governo com força bruta, deixou pelo menos cinco mortos, 800 feridos, mais de mil detidos e inúmeros prejuízos materiais em 18 das 48 províncias do país.

O executivo argelino recuou baixando até 41 por cento o preço de produtos como o azeite, o açúcar e a farinha, bens cujo valor de mercado, em alguns casos, chegou a duplicar no espaço de um mês, gerando as movimentações populares contra a carestia de vida, iniciadas na terça-feira, dia 4.

O governo decidiu ainda suspender as partidas da liga de futebol, procurando evitar, desta forma, largas concentrações de pessoas.

Na semana passada, cidades como Constantine, Jijel, Sétif, Bouira, Ras el Ued ou Tizi Ouzu foram palco de violentos distúrbios e confrontos com a polícia que, apesar das cargas e dos disparos de balas de borracha e de granadas de gás lacrimogéneo, não conseguiu conter as multidões juvenis. A revolta desaguou no saque de edifícios governamentais e sucursais bancárias.

Na capital, Argel, para onde foi destacado um poderoso contingente antimotim, vários bairros próximos do centro, mas também nos subúrbios, conservam sinais evidentes da insurreição dos últimos dias, com veículos e prédios queimados. Na metrópole, jovens montaram barricadas e confrontaram a polícia, que respondeu com canhões de água.

 

Desigualdade gritante

 

Na base da revolta do povo argelino está a política antipopular seguida. O país aumentou a sua exportação de combustíveis fósseis (sobretudo petróleo), mas os lucros da venda dos recursos soberanos não é redistribuída pelo povo, nem sob a forma de melhores remunerações do trabalho, nem pelo aumento da oferta de serviços públicos ou investimento em sectores como a educação e a saúde.

A título de exemplo, num dos protestos ocorridos num subúrbio de Argel, um grupo de adolescentes fez greve às aulas contra as deficientes condições da escola, a qual, denunciaram, fica inundada sempre que chove.

O número de praias privadas para usufruto da burguesia local e estrangeira, e os condomínios de milionários multiplicam-se no país, contrastando com as habitações precárias e insalubres, os baixos salários, a precariedade laboral e a falta de perspectiva de um posto de trabalho digno e com direitos.

Mas mesmo num contexto de insurreição popular, o governo não deixou de fazer acompanhar a baixa dos preços do azeite, do açúcar e da farinha com outras destinadas a manter a taxa de rentabilidade do capital. Decidiu, por exemplo, a suspensão dos direitos aduaneiros e do imposto sobre os lucros das sociedades empresariais dedicadas a actividades produtivas e de distribuição alimentar, demonstrando que segue uma linha semelhante às das grandes potências capitalistas, isto é, não permitir que a crise toque os lucros da burguesia.



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