Editorial

«Desenvolver a solidariedade activa com o povo líbio é uma forma de combater a política de direita»

HIPOCRISIA CRIMINOSA

Enquanto na Líbia os aviões da NATO prosseguem os criminosos bombardeamentos sobre tudo e todos os que se opõem à ocupação do país; enquanto o povo líbio resiste heroicamente à brutal agressão, o Governo PSD/CDS-PP, assumindo a tradicional postura subserviente dos governos da política de direita, reconheceu o auto-proclamado «Conselho Nacional de Transição» , instrumento local fabricado para servir os desígnios das forças de ocupação.

Alegou o Governo – não por acaso utilizando as mesmas palavras de Obama quando, uns dias antes, sublinhara, em jeito de quem dá uma ordem, a necessidade de reconhecer a coisa – que este «Conselho Nacional de Transição» é «a autoridade governativa legítima da Líbia». Obviamente, não é. Bem pelo contrário.

A decisão dos governantes portugueses não mereceu mais do que meia dúzia de linhas e de segundos, sem comentários, no espaço e no tempo dos média dominantes.

Percebe-se: tal decisão insere-se na política a que PS, PSD e CDS/PP – enquanto representantes dos grandes grupos económicos e financeiros – condenaram Portugal e o povo português há trinta e cinco anos e que fez chegar o País ao estado dramático em que se encontra – uma política antipopular, antidemocrática e antipatriótica, de sujeição total aos ditames dos EUA e da União Europeia.

E, não fora a imediata tomada de posição do PCP, condenando veementemente a atitude dos actuais executantes da política do grande capital e manifestando o seu apoio solidário ao povo líbio em luta contra a agressão estrangeira, esse reconhecimento passaria praticamente despercebido – como convinha…

 

Registe-se ainda que o reconhecimento, pelo Governo Passos Coelho/Paulo Portas, do chamado «Conselho Nacional de Transição da Líbia» – que significa o apoio, de facto, à brutal agressão a um país soberano desencadeada pelas hordas imperialistas – constitui mais uma grosseira violação da Constituição da República Portuguesa. Esta nossa Lei Fundamental que tão maltratada tem sido por sucessivos governos, com o apoio cúmplice de sucessivos presidentes da República, no decorrer dos últimos trinta e cinco anos. Esta nossa Lei Fundamental mais uma vez desprezada com a submissão subserviente da troika nacional aos ditames da troika ocupante. Esta nossa Lei Fundamental que, porque constitui, ainda, uma referência de Abril, tão odiada é pela política de direita.

Como justamente sublinhou o Secretariado do Comité Central, «o PCP apela ao povo português para que exija o fim imediato dos bombardeamentos e da agressão externa, a solução pacífica do conflito, o respeito pelos direitos do povo líbio, da sua soberania e da independência e integridade territorial deste país».

Sendo certo que desenvolver a justa e necessária solidariedade activa para com o povo líbio é, também, uma forma de combater a política de direita.

 

Reconhecer o chamado «Conselho Nacional de Transição da Líbia» é, nas circunstâncias actuais, apoiar o crime perpetrado pelo imperialismo contra o povo líbio – um crime «justificado» com uma hipocrisia inaudita.

«Humanitários», ou «em nome da democracia, da liberdade e dos direitos humanos», ou «para proteger civis», assim são designados pelos que os ordenam – Obama, Cameron, Sarkozi – os bombardeamentos e demais acções de agressão inseridas naquilo a que os EUA deram o pomposo nome de «Operação Responsabilidade de Proteger».

«Proteger civis» lançando toneladas de bombas sobre bairros residenciais, escolas, edifícios públicos, estações de televisão e de rádio. Bombas que ferem, estropiam, matam, milhares de homens, mulheres e crianças inocentes. Bombas que destroem e matam quando rebentam e que, por efeito do urânio empobrecido que contêm, continuam a espalhar o sofrimento e a morte pelos tempos fora.

É também para «proteger civis» que a NATO, às ordens desses três benfeitores do povo líbio, e num verdadeiro crime humanitário, impede a entrada de víveres e de medicamentos em Tripoli e nas outras cidades não ocupadas, condenando à fome e à doença... precisamente os civis.

E com tudo isto, com toda esta hipocrisia, o que procuram é esconder as razões essenciais que estão na origem da agressão: apropriar-se dos valiosos recursos naturais da Líbia e não olhar a meios para o conseguir.

É um facto que raras vezes a hipocrisia destes profissionais do crime em massa atingiu tal dimensão.

 

«Proteger civis», ou «salvar vidas humanas», foi sempre, ao longo da história, o pretexto invocado pelo imperialismo norte-americano para impor a sua presença dominadora à escala planetária, para assegurar a defesa dos seus interesses em qualquer parte do planeta, para avançar no seu sonho maior de domínio do mundo.

Foi para «salvar vidas humanas» que, ao longo de décadas, o imperialismo norte-americano bombardeou, invadiu e ocupou dezenas de países, destruindo, matando, saqueando, espalhando o horror – e marcando terreno...

Numa altura em que passa mais um aniversário do lançamento, pelos EUA, das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaqui – «o mais desumano, cruel e horroroso morticínio da História» – vale a pena recordar, porque isto anda tudo ligado, que também esse crime monstruoso foi cometido sob o pretexto hipócrita de «salvar vidas humanas».

E é pertinente e necessário lembrar que os EUA, tendo sido o primeiro (e até agora único) país a lançar bombas atómicas contra populações, se arroga, hoje, o direito de decidir que países podem ou não podem ter bombas atómicas.

E foi tudo isto que o Governo Passos Coelho/Paulo Portas apoiou ao reconhecer a colossal farsa que é esse «Conselho Nacional de Transição».


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