• Daniele Ganser

Os exércitos secretos da NATO
A guerra secreta em Portugal (II)

A rede Gládio, criada pela NATO e financiada pela CIA, dispôs de uma base eficaz em Portugal. O historiador suíço, Daniele Ganser, baseando-se em investigações feitas em Itália, explica a sua estreita colaboração com o fascismo português e com a sua polícia secreta – a PIDE.

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Ao lado de Guérain-Sérac, também o terrorista de extrema-direita Stefano Delle Chiaie participou na fundação da Aginter Press. «Agíamos contra os comunistas, contra a burguesia estabelecida e contra a democracia que nos tinha privado da nossa liberdade. Fomos portanto forçados a recorrer à violência», explicou mais tarde Delle Chiaie. «Consideravam-nos como criminosos mas na realidade éramos as vítimas de um movimento liberal antifascista. Queríamos espalhar as nossas ideias, queríamos ser ouvidos pelo mundo inteiro». Em meados dos anos 60, Delle Chiaie, que tinha na altura 30 anos, fundou com Guérain-Sérac, e com o apoio da CIA, o exército secreto Aginter. «Com um dos meus amigos franceses [Guérain-Sérac], decidi então [em 1965] fundar a agência de imprensa Aginter Press a fim de termos os meios para defender as nossas opiniões políticas».(1) No decurso dos anos seguintes, Delle Chiaie tornou-se talvez o combatente mais sanguinário da guerra secreta. Em Itália, tomou parte em golpes de estado e em atentados, entre os quais o da Piazza Fontana em 1969, e, com o nazi Klaus Barbie, conhecido como o «Carniceiro de Lyon», contribuiu para consolidar o poder de ditadores sul-americanos.(2)

 

Terrorismo contra comunismo

 

Como explicou pessoalmente o director da Aginter, Guérain-Sérac, «os nossos efectivos são formados por dois tipos de homens: 1) oficiais que se juntaram a nós depois de terem combatido na Indochina e na Argélia e alguns que se alistaram depois da batalha da Coreia; 2) intelectuais que, durante esse mesmo período, se interessaram pelo estudo das técnicas de subversão marxista». Esses intelectuais, como fez questão de observar, formaram grupos de estudo e partilhavam as suas experiências «para tentar dissecar as técnicas de subversão marxista e lançar as bases duma contra-técnica». Não havia qualquer dúvida de que a batalha devia ser travada em numerosos países: «No decurso desse período, estabelecemos contactos sistemáticos com grupos de ideias próximas das nossas que surgiram na Itália, na Bélgica, na Alemanha, em Espanha e em Portugal, na óptica de constituir um núcleo duma verdadeira Liga Ocidental de Luta contra o Marxismo».(3)

Saídos directamente de teatros de operações, muitos dos combatentes de sombra, e sobretudo os seus instrutores, entre os quais Guérain-Sérac, davam pouca importância e conheciam mal os métodos de resolução pacífica de conflitos. O próprio director da Aginter, como muitos outros, estava convencido de que a luta contra o comunismo na Europa ocidental implicava obrigatoriamente o recurso ao terrorismo: «Na primeira fase da nossa actividade política, devemos instaurar o caos em todas as estruturas do regime», declarou sem precisar a que país se referia. «Há duas formas de terrorismo que permitem obter esse resultado: o terrorismo cego (através de atentados visando um grande número de civis) e o terrorismo selectivo (através da eliminação de personalidades seleccionadas)». Tanto num caso como noutro, o atentado perpetrado secretamente pela extrema-direita devia ser imputado à esquerda, conforme sublinhou o paladino e ideólogo do terrorismo anticomunista: «Estes ataques contra o Estado devem, tanto quanto possível, passar por “actividades comunistas”». Os atentados terroristas dos exércitos secretos eram concebidos como um meio de desacreditar o regime vigente e de obrigá-lo a virar à direita: «De seguida, devemos intervir no coração do aparelho militar, do poder judicial e da Igreja, a fim de influenciar a opinião pública, propor uma solução e demonstrar claramente a fraqueza do arsenal jurídico actual (…). A opinião pública deve ser galvanizada a tal ponto que apareçamos como o único instrumento capaz de salvar a nação. É evidente que teremos necessidade de meios financeiros consideráveis para levar a bom termo tais operações.»(4)

 

De braço dado com a PIDE

 

A CIA e a PIDE, os serviços secretos militares de Salazar, encarregaram-se de fornecer os fundos necessários para o empreendimento terrorista do capitão Guérain-Sérac. É num documento interno da Aginter, intitulado «A Nossa Actividade Política», datado de Novembro de 1969, e que foi descoberto em 1974, que ele descreve como um país pode ser alvo de uma guerra secreta: «É nossa convicção de que a primeira fase da actividade política deve consistir em criar as condições favoráveis à instauração do caos em todas as estruturas do regime». Elemento essencial desta estratégia, as violências perpetradas deviam ser imputadas aos comunistas e, bem entendido, todos os indícios deviam levar a essa conclusão. «Pensamos que é necessário, num primeiro momento, destruir a própria estrutura do Estado democrático a coberto de actividades comunistas ou pró-chinesas». O documento insistia seguidamente na necessidade de infiltrar os grupos de militantes de esquerda a fim de melhor os manipular: «Além disso, dispomos de homens infiltrados nesses grupos que nos permitirão agir sobre a própria ideologia do meio – através de acções de propaganda e outras, realizadas de tal maneira que parecerão ser obra dos nossos adversários comunistas». Essas operações realizadas sob falsa bandeira, concluía esse plano de acção, «criarão um sentimento de hostilidade para com os que ameaçam a paz de cada um dos nossos países», ou seja, os comunistas.(5)

Durante a primeira fase do seu plano, os oficiais, mercenários e terroristas da Aginter Press empenharam-se em enfraquecer e aniquilar as facções de guerrilheiros que lutavam pela independência das colónias portuguesas. Por volta de meados dos anos 60, o primeiro teatro de operações da organização não foi pois a Europa, mas a África onde o exército português enfrentava os movimentos independentistas. A Aginter colocou os seus responsáveis de operações nos países limítrofes da África portuguesa. «Os seus objectivos incluíam a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação, a infiltração, o estabelecimento de redes de informadores e de agentes provocadores e a utilização de falsos movimentos de libertação». (6) Essas guerras secretas eram travadas em coordenação com a PIDE e outros serviços do governo português. «A Aginter correspondia-se por escrito com a PIDE no quadro das suas operações especiais e das suas missões de espionagem».(7)

Entre as personalidades mais importantes, que foram vítimas dos assassínios orquestrados pela Aginter em Portugal e nas colónias, figuram sem dúvida Humberto Delgado, personalidade destacada da oposição portuguesa, Amílcar Cabral, uma das figuras emblemáticas da revolução africana, e Eduardo Mondlane, líder e presidente do partido de libertação de Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que foi morto em Fevereiro de 1969.(8) Apesar da violência dos métodos utilizados, Portugal não conseguiu impedir que as suas colónias acedessem à independência. Goa foi recuperada pela Índia em 1961. A Guiné-Bissau tornou-se independente em 1974, Angola e Moçambique em 1975, enquanto, nesse mesmo ano, Timor Leste foi invadido pela Indonésia.

 

A cumplicidade das «democracias» europeias

 

Paralelamente a essas guerras coloniais, a Aginter Press desempenhou também um papel relevante nas guerras secretas travadas contra os comunistas da Europa ocidental. Os documentos disponíveis sobre os exércitos stay-behind da NATO e a guerra clandestina parecem indicar que a organização lisboeta foi responsável por mais violências e assassínios do que qualquer outro exército secreto do velho continente. Os seus soldados de sombra agiam com uma mentalidade à parte. Contrariamente aos seus homólogos do P26 suíço ou do ROC norueguês, participavam em verdadeiras guerras abertas nas colónias e matavam em série, sob o comando de um capitão que, baseando-se na experiência adquirida na Indochina, na Coreia e na Argélia, não concebia outro meio de acção que não fosse a violência.

A operação realizada pelos combatentes de sombra, em nome da luta contra o comunismo, sobre a qual estamos mais bem informados é provavelmente o atentado da Piazza Fontana, que atingiu pouco antes do Natal as capitais políticas e industriais da Itália – Roma e Milão – em 12 de Dezembro de 1969. Nesse dia, quatro bombas explodiram nas duas cidades, matando cegamente 16 civis, na sua maioria camponeses que se dirigiam ao Banca Nazionale Dell’Agricultura de Milan para depositar as suas modestas receitas de um dia de mercado. Outras 80 pessoas ficaram feridas ou mutiladas. Uma das bombas colocadas na Piazza Fontana não explodiu devido a avaria do temporizador, mas quando os agentes do SID e a polícia chegaram ao local, apressaram-se a explodi-la para destruir indícios comprometedores. A execução deste atentado obedeceu estritamente às estratégias de guerra secreta definidas por Guérain-Sérac. Os serviços secretos italianos atribuíram o acto à extrema-esquerda, chegando ao ponto de colocar componentes de um engenho explosivo na casa do editor Giangiacomo Feltrinelli, conhecido pelas suas ideias de esquerda, e aproveitaram para prender numerosos comunistas.(9)

Um relatório interno do SID, classificado como confidencial, e datado de 16 de Dezembro de 1969, já levantava a suspeita de que os atentados de Roma e Milão podiam ter sido feitos pela extrema-direita com o apoio da CIA.(10) No entanto, a opinião pública italiana ficou com a ideia de que os comunistas italianos, na altura muito influentes, tinham decidido recorrer à violência para conquistar o poder. Na realidade, a paternidade desses actos cabia às organizações fascistas Ordine Nuovo e Avanguardia Nazionale, que agiam em estreita colaboração com os exércitos stay-behind. O militante de extrema-direita, Guido Giannettini, que foi directamente implicado nos atentados, era colaborador próximo da organização portuguesa Aginter Press. «O inquérito confirmou que existiam efectivamente ligações entre a Aginter Press, a Ordine Nuovo e a Avanguardia Nazionale», revelou o juiz Salvini aos membros da comissão de inquérito senatorial. «Resulta claramente que Guido Giannettini estava em contacto com Guérain-Sérac em Portugal desde 1964. Ficou estabelecido que instrutores da Aginter Press (…) se deslocaram a Roma entre 1967 e 1968 e treinaram membros da Avanguardia Nazionale no manuseamento de explosivos». O juiz Salvini concluiu, com base nos documentos disponíveis e nos testemunhos recolhidos, que a Aginter Press, uma fachada da CIA, tinha desempenhado um papel decisivo nas operações de guerra clandestina realizadas na Europa ocidental e tinha executado uma série de atentados sangrentos a fim de desacreditar os comunistas italianos.(11)

Estes factos foram confirmados em Março de 2001 pelo general Giandelio Maletti, antigo patrono da contra-espionagem italiana, que testemunhou no quadro do processo de militantes de extrema-direita, acusados de terem provocado a morte de 16 pessoas nos atentados da Piazza Fontana. Perante o tribunal de Milão, Maletti declarou: «A CIA, seguindo as directrizes do seu governo, queria fazer nascer um nacionalismo italiano capaz de travar a viragem à esquerda do país e, nesta óptica, não é impossível que tenha recorrido aos terroristas de extrema-direita». Este depoimento crucial comparava a CIA a uma organização terrorista. «Não se esqueçam que era Nixon que se encontrava na altura à frente do país», lembrou o general, «e Nixon não era um homem vulgar, era um político muito astuto, mas um homem de métodos pouco ortodoxos».(12) O juiz italiano Guido Salvini confirmou que todas as pistas conduziam a «um serviço de informações estrangeiro». «Quando diz “serviço de informações estrangeiro” está a referir-se à CIA?», insistiram os jornalistas italianos, ao que Salvini respondeu prudentemente: «Estamos em condições de afirmar que sabemos pertinentemente quem participou na preparação dos atentados e quem estava sentado à mesa quando foram dadas as ordens. Isso é incontestável.»(13)

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Tradução de Margarida Ferreira (Resistir.info)

Revisão e subtítulos da responsabilidade da redacção do Avante!


Daniele Ganser é um historiador suíço, especialista em relações internacionais contemporâneas. É professor na Universidade da Basileia.

 

Este artigo, publicado em www.voltairenet.org/a170466, foi extraído do livro Armées secrètes de l’OTAN, ed. Demi-lune (2007).

 

Notas
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(1) Egmont Koch e Oliver Schröm, Deckname Aginter. Die Geschichte einer faschistischen Terror Organisation, p. 4. (Ensaio não publicado de 17 páginas. Não datado, cerca de 1998).

(2) Ver Christie, delle Chiaie, passim.

(3) Idem, ibidem, p. 29.

(4) Este documento foi aparentemente descoberto no antigo escritório de Guérain-Sérac, depois da revolução portuguesa. Consta do dicionário do terrorismo na Bélgica de Manuel Abramowicz.

(5) Extracto de Christie, delle Chiaie, p. 32. Igualmente em Lobster, Outubro de 1989, p. 18.

(6) Idem, ibidem, p. 30

(7) João Paulo Guerra, «Gládio actuou em Portugal», O Jornal, de 16 de Novembro de 1990.

(8) Idem, ibidem e Christie, delle Chiaie, p.30.

(9) Senato della Repubblica. Commissione parlamentare d’inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabiliy delle stragi : Il terrorismo, le stragi ed il contesto storico politico. Redatta dal presidente della Commissione, senador Giovanni Pellegrino. Roma, 1995, p.157.

(10) Os investigadores Fabrizio Calvi e Frédéric Laurent, especialistas em serviços secretos, realizaram provavelmente o melhor documentário sobre o atentado da Piazza Fontana: Piazza Fontana: Storia di un Complotto, difundido em 11 de Dezembro de 1997 às 20h50 no canal público Rai Due. Uma adaptação francesa intitulada L’Orchestre Noir: La Stratégie de la tension, foi difundida em duas partes no canal franco-alemão Arte nos dias 13 e 14 de Janeiro de 1998 às 20h45. No seu filme interrogam um grande número de testemunhas incluindo os juízes Guido Salvini e Gerardo D’Ambrosio, que investigaram durante anos o caso, activistas fascistas como Stefano Delle Chiaie, Amos Spiazzi, Guido Giannettini, Vincenzo Vinciguerra e o capitão Labruna, o antigo primeiro-ministro Giulio Andreotti, bem como Victor Marchetti e Marc Wyatt da CIA.

(11) Commissione parlamentare d’inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi. 9ª sessão, 12 de Fevereiro de 1997.

(12) Philip Willan, «Terrorists ‘helped by CIA’ to Stop Rise of Left in Italy», diário britânico The Guardian, 26 de Março de 2001. Willan é um especialista em intervenções secretas norte-americanas em Itália. É autor do interessante livro Puppetmasters. The Political Use of Terrorism in Italy (Constable, Londres, 1991).

(13) Diário italiano La Stampa, 22 de Junho de 1996.



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