• Anabela Fino

O nosso e o deles

O que poderá haver de comum entre a freguesia de Alvorninha, nas Caldas da Rainha, e cidades como Amesterdão, Roterdão, Amstelveen ou Dublin? Aparentemente nada. E no entanto, vendo bem as coisas, se admitirmos que as terras são o que delas fazem os homens – não a arraia miúda, claro, mas os que escrevem a história oficial –, bem se pode concluir que Alvorninha, com os seus escassos três mil habitantes e uma barragem que seis anos depois de inaugurada continua sem uso para nada quando podia ter uso para todos, pode rivalizar com as cidades que têm o duvidoso privilégio de ser uma espécie de santuários do capital.

O feito deve-se ao cardeal-patriarca José Policarpo, um filho da terra, que no passado fim-de-semana ali comemorou o seu jubileu sacerdotal. O dia era de festa, mas não é em vão que D. Policarpo anda a pregar há 50 anos: na homilia da missa que oficiou zurziu nos grupos que preferem o «nós individual» ao «nós grupal». A formulação, no mínimo esdrúxula, foi clarificada quando D. Policarpo disse não gostar de ver esses «grupos» que andam para aí a «fazer reivindicações grupais, de classe», e a ameaçar com greves contra as medidas que «até foram impostas» por esses beneméritos que fazem o favor de nos emprestar dinheiro... a juros agiotas. Esta parte dos juros o cardeal não disse, obviamente, somos só nós a contextualizar a coisa. O cardeal também não terá, segundo os relatos vindos a público, usado em qualquer momento a palavra sindicatos, mas também não foi preciso; toda a gente sabe somar dois e dois, embora possa ter dificuldade em perceber como é que os interesses de uma classe, que manifestamente só pode ser a classe trabalhadora, podem ser classificados de interesses do «nós individual», mas isso já são contas de outro rosário que não cabe aqui desfiar. Importante mesmo é o facto de D. Policarpo considerar que Portugal tem de ultrapassar este momento «em diálogo com os outros países, mas sobretudo dando as mãos, procurando o bem de Portugal e não o bem de cada grupo, de cada pessoa». «Todos somos chamados a vencer o egoísmo, a pensar no nós e não no eu», enfatizou. Ora é justamente neste ponto que Aldorninhas – local onde tudo isto foi dito, recorda-se – se cruza com cidades como Amesterdão, Roterdão, Amstelveen ou Dublin, que é onde 17 dos 20 maiores grupos económicos cotados na bolsa portuguesa têm sociedades gestoras de participações sociais (Público, 21 Agosto), o que lhes permite – e aos respectivos accionistas – fugir aos impostos que teriam de pagar em Portugal. Estamos a falar da PT, Sonae, Galp, Petrogal Trading, Zon, Jerónimo Martins, Mota-Engil, Cimpor, entre outros. Já os bancos cotados no PSI20 (BES, Banif e BPI) preferem as Ilhas Caimão ou paraísos fiscais similares para sedear as suas sociedades, com idêntico resultado para os cofres do Estado. Não tendo D. Policarpo feito referência a esta matéria, presume-se que para ele tais empresas defendem o «nós grupal» e não o «nós individual» como fazem os egoístas dos trabalhadores que ousam contestar as medidas das troikas. Se há quem acredite que «é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus», não será certamente o cardeal-patriarca, por ventura mais dado a mostrar que ínvios são os caminhos do seu mister.



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