Editorial

«Foram muitos, muitos mil em luta, sabendo o que queriam e o que não queriam»

UM MAR DE GENTE CONSCIENTE

Foi um mar de gente a desfilar em Lisboa e no Porto, no sábado passado.

Foi uma maré cheia de determinação, de confiança e de convicção.

Foram muitos milhares de trabalhadores a gritar bem alto a sua rejeição frontal, como coisa nefasta para Portugal e para os portugueses, do pacto de agressão aos trabalhadores e a povo, e a afirmar de forma inequívoca que não aceitam nem as imposições da troika ocupante, nem a subserviência e o servilismo antipatrióticos da troika colaboracionista.

Foi uma multidão imensa a dizer «não» à vaga de roubos perpetrados pelo Governo PSD/CDS, às injustiças sociais, à brutal ofensiva contra os direitos laborais.

Foram milhares e milhares de homens, mulheres e jovens em luta – muitos, muitos jovens! – sabendo os obstáculos que superaram para ali se encontrarem; sabendo que a sua presença naquela memorável jornada de luta era, por si só, uma vitória face à ofensiva ideológica que espalha a resignação, a passividade, o conformismo, o medo – e face à desavergonhada operação de silenciamento levada a cabo pela comunicação social dominante; sabendo que lhes cabe desempenhar um papel determinante na mudança, na derrota da política antipatriótica e de direita e na sua substituição por uma política patriótica e de esquerda; sabendo que, na situação actual, o desenvolvimento, ampliação e multiplicação das lutas nas empresas, nos sectores e nos locais de residência se apresenta como a questão maior e essencial para os trabalhadores, o povo e o País.

Foram muitos, muitos mil em luta, sabendo o que queriam e o que não queriam; sabendo por que estavam ali, por isso conscientes – com uma consciência, política e de classe, que os levou a assumir, ali mesmo, o compromisso de prosseguir a luta, de não dar tréguas às malfeitorias praticadas pelo Governo Passos Coelho/Paulo Portas, de fazer da semana de 20 a 27 de Outubro uma forte semana de luta, com greves, paralisações e acções de rua.

 

Na jornada de luta marcaram presença as muitas lutas levadas a cabo nos últimos tempos em empresas, em sectores profissionais, e pelas populações em defesa dos serviços públicos, especialmente de Saúde: elas lá estavam, referenciadas nos inúmeros cartazes e panos empunhados pelos manifestantes; elas lá estavam, as múltiplas pequenas e médias lutas que, não o esqueçamos, foram decisivas para o êxito da grande jornada de luta de sábado passado – e que prosseguirão e irão dar mais força à semana de luta convocada para o final de Outubro.

E este é um ensinamento que importa reter: o êxito da luta contra a política de direita e por um novo rumo para Portugal – luta dificílima tendo em conta os muitos e poderosos obstáculos que se lhe opõem – passa, sem dúvida, pelo desenvolvimento da luta de massas, da mesma forma que esse desenvolvimento tem nas lutas de todos os dias uma poderosa fonte de força.

A acção do Governo, a sua aceitação e aplicação do pacto das troikas, a sua intervenção ao serviço do grande capital nacional e estrangeiro, cria uma situação cada vez mais gravosa para a imensa maioria dos portugueses, uma situação que leva dificuldades enormes e dramas brutais a milhares de famílias.

A política do Governo em matéria, por exemplo, de Saúde e da sua proposta de um novo e violento pacote laboral, constitui um verdadeiro golpe contra a Constituição da República Portuguesa, uma autêntica operação terrorista que, a ser concretizada, afundará Portugal num buraco onde os ideais e os valores de Abril não terão lugar e serão substituídos pelos anti-valores do passado que em Abril, Abril venceu.

Acresce que os governantes, sem pudor nem vergonha, continuam a ameaçar com mais e mais roubos, com mais e mais assaltos aos direitos e interesses dos trabalhadores e do povo, agora na forma de umas chamadas «medidas adicionais», com as quais, à pala do défice e de outras balelas, se prepara para novos assaltos aos trabalhadores e ao povo.

E é isso que é necessário, imperioso e urgente impedir.

E é isso que só com a luta é possível impedir.

O Governo PSD/CDS já mostrou – e de que maneira! – ao que vem. E o «benefício da dúvida» que politólogos e comentadores persistem em invocar, não passa de uma forma de apoio à política de afundamento nacional por ele praticada.

 

Neste quadro, a semana de luta de 20 a 27 de Outubro, convocada pela CGTP-IN, reveste-se de particular relevância e tem que merecer, desde já, a máxima atenção por parte dos trabalhadores e das suas estruturas de classe – e, porque se trata de uma luta que diz respeito a todos os que sofrem as consequências da política de direita, ela é também a luta das populações, dos reformados, dos micro, pequenos e médios empresários, pelo que exige particulares cuidados a mobilização para a acção nos locais de residência, particularmente dos que têm vindo a desenvolver uma notável acção em defesa dos serviços públicos, designadamente dessa conquista de Abril que é o Serviço Nacional de Saúde.

Um aspecto a realçar na jornada de luta de 1 de Outubro é que ela mostrou, de forma concludente, que à necessidade de desenvolver e fazer crescer a luta, se juntam, agora, a possibilidade de isso acontecer.

E bem importante é que a anunciada semana de luta de 20 a 27 de Outubro venha a constituir um momento alto da luta de massas, não apenas pelo previsível êxito das iniciativas que vão ocorrer, mas também, e especialmente, pelas potencialidades de ela constituir um factor de dinamização do alargamento da luta e da sua projecção para patamares superiores que correspondam às exigências que a gravidade da situação impõe.

 


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