Editorial

SÁBADO, NO TERREIRO DO PAÇO

Mantêm-se, e agravam-se, os traços essenciais caracterizadores da situação do País: o desemprego aumenta, atinge já mais de um milhão de trabalhadores e as perspectivas são de continuar a aumentar; cresce o número de trabalhadores com salários em atraso; intensifica-se o ataque aos direitos laborais; o número de falências de empresas não pára de aumentar; os preços dos bens de consumo essenciais fustigam as condições de vida de cada vez mais pessoas – e chegou agora o aumento dos preços dos transportes a atingir, e de que maneira, os mesmos de sempre: os trabalhadores e o povo; os efeitos dos roubos nos salários, nas reformas, nos subsídios abrem novas feridas nas vidas já dilaceradas dos trabalhadores e do povo; prossegue e intensifica-se o ataque ao Serviço Nacional de Saúde que ameaça transformar-se numa espécie de antecâmara da morte; há idosos a morrer todos os dias, carentes de tudo, abandonados, sozinhos em casa; são em número de milhões os homens, mulheres e crianças vivendo em condições precárias, flagelados pela pobreza, a miséria e a fome…

Tudo a confirmar que se quisermos encontrar situação semelhante à actual, teremos que recuar no tempo e procurá-la no regime fascista que durante quase meio século explorou, oprimiu, humilhou e ofendeu Portugal e os portugueses.

Em resumo: o País afunda-se num dramático desastre nacional rumo a um naufrágio que só a derrota do pacto das troikas e da sua política de direita poderá evitar.

 

Enquanto tudo isto – e muito mais – acontece, a Banca procede a uma colossal operação de propaganda, anunciando com grande clamor terríveis prejuízos – com isso tendo em vista tão-somente assegurar mais isenções e mais benefícios fiscais ao capital financeiro – sendo indispensável sublinhar, no entanto, que no que respeita à Caixa Geral de Depósitos, os tais prejuízos se devem aos milhões enviados para o BPN, sabe-se bem para quê e porquê,

Por seu lado, o Governo continua a política de afundamento do País, anunciando o prosseguimento do saque às empresas do sector público – agora é a REN que está no corredor da morte… – ao mesmo tempo que distribui doses massivas de propaganda, procurando esconder e mistificar a situação real existente e os dramas vividos pela imensa maioria dos portugueses – e no debate na Assembleia da República, o primeiro-ministro, não apenas finge que está tudo bem, como foge de responder, e tenta menorizar, as pertinentes questões concretas sobre a situação do País e do povo, colocadas pelos deputados comunistas.

Quanto ao secretário-geral do PS… lá anda, cumprindo a tarefa, que desta vez cabe ao seu partido (e no governo anterior coube ao PSD/CDS, e por aí fora…), de fingir que é oposição a uma política que apoia em tudo o que é essencial – e, por isso, cada vez mais enredado em contradições que sabe serem insanáveis, dizendo que sim e que não, que não e que sim, que está em desacordo mas que concorda, que concorda mas está em desacordo – e, com isso tudo, apoiando, de facto, o pacto de agressão decidido pela troika ocupante e aceite pela troika colaboracionista com os aplausos do Presidente da República.

Para uns e outros, valem as palavras certeiras do Secretário-geral do PCP, ao afirmar, com a convicção de quem sabe onde é que se situa a força da nação, que bem podem contar as mentiras que quiserem que «os trabalhadores e o povo irão derrotar o pacto de agressão e a política de desastre nacional».

 

Enquanto isso, os trabalhadores levam por diante relevantes e significativas lutas em numerosas empresas, designadamente na EMEF, na Cerâmica Valadares, na Jado Ibérica, nos Estaleiros de Viana.

Lutas que é necessário valorizar e saudar, tanto mais quanto, como sabemos, elas só são possíveis de concretizar superando muitos e aparentemente intransponíveis obstáculos, entre eles: os que decorrem, em cada vez mais casos, de chantagens e represálias no interior das empresas; os que resultam dos medos espalhados pelas consequências da política de direita; e os que são gerados pela colossal ofensiva ideológica ampla e massivamente difundida pelos media do grande capital, pregando a resignação, o conformismo, as inevitabilidades, o não-vale-a-pena… e sempre, sempre desvalorizando e apoucando as lutas concretizadas. Um exemplo: a luta do sector dos transportes, cuja greve do dia 2 foi cirurgicamente maltratada por esses media, procurando esconder que – mesmo construída sob o fogo de pressões inadmissíveis e mesmo registando níveis de adesão diferenciados – ela constituiu uma importante e expressiva jornada de luta.

De todas estas acções das massas trabalhadoras – tal como das múltiplas iniciativas das populações, levadas a cabo por todo o País – podemos dizer que, na situação actual, são como rios a correr para o mar imenso que no próximo sábado vai desaguar no imenso Terreiro do Paço, que já foi cenário de tantas outras imensas jornadas do movimento operário e popular.

E tão importante é que assim seja que, sem dúvida, a mobilização para a jornada de luta de 11 de Fevereiro constitui, daqui até lá, a tarefa das tarefas para os trabalhadores e os seus sindicatos e comissões de trabalhadores; para as populações e as suas comissões de utentes; para os reformados e as suas estruturas representativas; para os jovens, trabalhadores e estudantes – cujo futuro, ao fim e ao cabo, ali se joga.

No sábado, a luta é no Terreiro do Paço – que, nesse dia e por isso mesmo, será Terreiro da Luta e Terreiro do Povo.

E dali sairemos com mais força e mais confiança para as indispensáveis batalhas futuras.


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