• Francisco Mota

A coroa espanhola: sexo, drogas e... corrupção

Image 10524

A Casa Real Espanhola é constituída pelos reis, os príncipes herdeiros e as outras irmãs, incluindo o marido de uma e os filhos de todos. Recebe anualmente, como chefia do Estado espanhol, uns nove milhões de euros, de que não tem que apresentar contas ao Parlamento ou ao Tribunal de Contas. Nesta verba não estão incluídas as despesas com viagens,representaçoes segurança, pessoal do Palácio (cerca de 500 pessoas), etc. Todas as tentativas feitas por partidos de esquerda para conhecer as contas foram sempre vetadas pelo PP e pelo PSOE.

 

Os reis – Juan Carlos Primeiro foi escolhido e educado por Franco, para continuar a sua «obra» quando o caudilho fascista morresse. No último discurso de Franco na varanda do Palácio Real, no centro de Madrid, pouco tempo antes da sua morte, Juan Carlos estava ao seu lado direito. A rainha Sofia, grega de nascimento, é irmã de Constantino, rei da Grécia e golpista fascista, o que o levou ao exílio juntamente com toda a família real grega, sendo privados de nacionalidade e bens até hoje. Por razões de conveniência política Juan Carlos e Sofia casam-se em Roma, unindo assim a casa dos Bourbons com a dos Absburgo, casa real dominante no Império austro-húngaro, de que descende Sofia.

Durante muito tempo o rei conseguiu manter uma imagem de pessoa simpática, chegado ao povo e com uma família feliz. No entanto, os rumores sobre a vida privada do rei sempre se ouviram, atribuindo-lhe longas listas de amantes, o que para alguns espanhóis tinha até uma conotação positiva, pelo machismo existente.

Há cerca de uns quinze ou vinte anos, os serviços secretos espanhóis (na altura o CESID), situados na autoestrada A-6, no limite de Madrid, dispunham de tecnologia para gravar até 1000 conversas de telemóveis, num raio de um quilómetro, ao mesmo tempo. Neste raio situa-se não só a sede do governo, Palácio da Moncloa, mas também o da Zarzuela, onde vive o rei. Muitos telefonemas do rei foram gravados. Nesse serviço existia um Tenente Coronel Perote, que achou que podia mudar de vida e ter um pecúlio interessante. Assim pensando, conseguiu gravar em cassetes as conversas mais comprometedoras do rei com as suas amigas, marcando encontros e falando dos seus assuntos, basicamente, de alcova. Copiou esta cassete umas dezenas de vezes e foi visitar os donos dos principais jornais, rádios, bancos, empresas e não se sabe se até alguma embaixada estrangeira. Todos lhe compraram a cassete por um preço avultado. Quando o CESID tomou conhecimento, processou Perote e o caso saiu nos jornais. Perote exigiu que não lhe fosse aplicado nenhum castigo e admitiu sair dos Serviços Secretos, caso contrário divulgaria massivamente o conteúdo da cassete para toda a gente. O CESID aceitou e do Ten. Coronel Perote nunca mais se ouviu falar. De momento ficamos por aqui.

 

Infanta Helena – Filha mais velha dos reis e eventual sucessora enquanto não nasceu Filipe. Não se sabe muito bem a que se dedica, parecendo ser educadora infantil, sem que saiba onde. Casou-se com Jaime de Marichalar, de quem teve filhos, mas ao fim de poucos anos começou-se a ouvir falar de problemas de saúde, estadias longas nos Estados Unidos em clínicas especiais, até que ficou claro para os espanhóis que Marichalar era adicto às drogas, chegando a ter graves problemas cardíacos que hoje ainda o fazem coxear claramente. Esta situação e a imagem que dava à Casa Real levaram à separação, anunciada como «cesse temporal de convivência», maravilhoso eufemismo de «separação». As negociações foram longas até se chegar a um acordo, em que se supõe que o marido recebeu uma importante quantia de dinheiro para assinar o divórcio. Há poucas semanas, estando o filho mais velho com «Marichalado» (como diz o povo espanhol), a este sujeito ocorreu-lhe, para passar o tempo com o filho, dar-lhe uma espingarda calibre 36, com que o miúdo de 13 anos deu um tiro no pé, tendo que ser operado várias vezes para extrair os grãos de chumbo. Acontece que este tipo de arma só pode ser usado por maiores de 14 anos, com uma licença especial, dada caso a caso. A Guarda Civil tomou conta da ocorrência, por ordem do tribunal de Soria, ouviu o pai, que deu três versões diferentes do acontecido e depois começou a instalar-se o silêncio, ainda que o caso não esteja fechado.

 

Infanta Cristina e Urdangarin – A filha do meio tem fama de ser a mais viva dos três irmãos, vivia em Barcelona onde o Banco La Caixa a empregava, não se sabe bem em quê. Urdangarin era conhecido por ter sido jogador profissional de andebol, quer no Barcelona, quer na Seleção de Espanha, tendo ganho importantes competições. Durante anos a vida desta gente não era notícia, não se conhecia ocupação a Urdangarin, excepto quando o meteram no Comité Olímpico Espanhol e pouco mais. O escândalo que apareceu em público há poucos meses tem a ver com ele e com o seu sócio Diego Torres, com quem montou uma empresa sem fins lucrativos – NÓOS – para realizar projectos desportivos ou outros para as comunidades autónomas do PP, sobretudo Valência e Baleares. Até aqui, tudo bem. O que acontecia realmente era que as comunidades assinavam os contratos com o «genro do rei» e a NÓOS e esta passava esses contratos a empresas comerciais por valores muito superiores e a cobrar em dinheiro negro, que ia parar a paraísos fiscais como Belize. Entre elas estava a Aizoon propriedade de Cristina e Urdangarin. Diz-se que quando o rei soube disto proibiu o genro de ter tais actividades e mandou-o para Washington, onde a simpática Telefónica lhe deu imediatamente um óptimo emprego. Estas informações viram-se apoiadas no discurso de fim de ano do rei onde este declarou que «todos somos iguais perante a Justiça e as pessoas com responsabilidades públicas temos que ter um comportamento exemplar». Entendeu-se, portanto, que o rei estava zangado e dizia coisas com que toda a gente estava de acordo. Mas há sempre algum problema: o primeiro foi que Urdangarin não deixou estes negócios e a segunda foi a publicação, no El País, de emails enviados por Urdangarin ao seu sócio Torres, onde o informa de que o rei tinha falado com certas pessoas para lhes darem contratos, colaborando activamente com o genro e a filha e, segundo se deduz dos emails, Cristina teria tido uma posição muito mais activa do que sempre se disse e não só a de ser accionista passiva da Aizoon. Diego Torres está furioso há bastante tempo porque Urdangarin o culpou de ser responsável de tudo, garantindo que ele era só uma espécie de relações públicas. Por outro lado, no processo em tribunal estão implicados Urdangarin, Torres e a mulher deste, ficando de fora Cristina. O sócio ameaça entregar à imprensa centenas de emails onde o rei e Cristina não ficariam bem parados. A Casa Real admite que Urdangarin «pode ter escrito alguma coisa inconveniente para a imagem da Casa Real». Em contrapartida, para se calar, Torres pede 10 milhões de euros e um emprego estável (!).

 

Príncipes Felipe e Letícia – Felipe é o mais novo dos filhos dos reis e o herdeiro ao trono. Não se lhe conhecem escândalos, tenta ser simpático mas não tem carisma pessoal. De voz monocórdica, não desperta paixões nem ódios. Letízia, plebeia, com vida conjugal anterior ao seu casamento, é inteligente, fala bem e permitiu-se interromper o príncipe em momentos em que viu que este ia patinar. Ex-jornalista de televisão em vários canais, os espanhóis ficaram surpreendidos quando a viram apresentar o principal telejornal sem saber quem era aquela locutora. Isto passou-se uns seis meses antes do casamento e o que se estava a fazer era «vender» a imagem da eventual futura rainha de Espanha.

 

A bomba rebenta

 

Menos de uma semana depois de o rei ter declarado que tinha dificuldade em dormir quando se lembrava de que cerca de 50% dos jovens espanhóis não tinham emprego, parte em avião privado para o Botswana, aparentemente sem haver sequer informado o governo. O PP, no mesmo dia, declara pela voz do seu número três que o governo só soube que o rei não estava em Espanha quando lhe comunicaram o acidente. Passadas poucas horas, Rajoy afirma que o rei lhe tinha dito que não ia estar em Espanha. A conclusão que toda a gente tirou foi a de que o PP deitou um capote ao rei para o proteger.

Esta foi uma das muitas caçadas organizadas pela «princesa» Corinna zu Sayn Wittgenstein, que não é princesa porque se separou do segundo marido, embora tenha conseguido continuar a usar os seus apelidos. A presença desta alemã de 47 anos ao lado do rei está documentada em muitas fotos onde aparecem juntos e até terá velejado no iate de competição, que uns fidelíssimos empresários ofereceram ao rei. Consta que vive em El Pardo agora, a escassos cinco minutos do Palácio da Zarzuela. Também saíram notícias segundo as quais Corinna terá representado o rei em negócios privados, quer na Arábia Saudita, quer em algumas monarquias do Golfo Pérsico. No Botswana, Corinna estaria também na luxuosa tenda, onde não faltava nada, e segundo alguns nem bebidas alcoólicas, cujo uso imoderado terá levado à queda e ruptura da anca em plena noite. Estas informações não puderam ser confirmadas e só são do conhecimento de quem estava na tenda nesse momento. Informações oficiais referem que há uns meses o rei apareceu com o lado esquerdo da cara com bastantes nódoas negras e óculos escuros, dando-se como explicação que tinha batido contra uma porta meio aberta. Coisas!

Quando se soube que o rei estava na caça a matar elefantes, numa viagem que custou mais de 35 000 euros e, segundo parece, paga por um negociante árabe, toda a gente, jornais, rádio e televisão ultrapassou a linha que todos tinham assumido durante mais de trinta anos, e começaram a aparecer comentários, revelações, críticas, enfim uma avalanche que fez tremer toda a Casa Real e pôs muita gente a pensar quem era esta gente que assumia a chefia do Estado espanhol e se não seria melhor uma República. Supõe-se que totalmente furiosa, a «dedicada» esposa do rei, Sofia, só volta a Espanha três dias depois do rei ser operado, porque estava na Grécia a comemorar a Páscoa ortodoxa grega. Foi do aeroporto para o hospital onde se demorou 15 (quinze) minutos na visita ao marido. Outra bomba dentro da bomba. Citemos dois jornais, para que se entenda bem o estado da vida do rei nestes momentos. Primeiro, o jornalista talvez mais respeitado de Espanha, Iñaki Gabilondo, que faz um comentário diário no El País online, critica o comportamento do rei e diz algo impensável uma semana antes «... o rei pode divorciar-se, pode abdicar, mas não pode faltar ao cumprimento das suas funções como chefe de Estado». Visto com mais calma, Iñaki está a deitar um salva vidas à monarquia. Segundo, no ABC, jornal conservador e monárquico durante toda a sua existência, escreve o comentarista e ex-director do ABC, Zarzalejos: «...há que admitir o fracasso do matrimónio com D. Sofia de quem vive praticamente separado». E mais adiante: «... A sua grande e íntima amizade com Corinna deixou de ser um boato para converter-se numa certeza». Perante esta situação, ao sair do quarto, o rei declara para os jornalistas e câmaras de televisão: «Lo siento mucho. Me he equivocado y no volverá a ocurrir». Com estas onze palavras pensa o rei que soluciona o problema. Muito enganado está. As anedotas, as declarações e comentários de pessoas de esquerda e direita de que a monarquia não tem sentido, a livre crítica que de repente apareceu em todos os meios de comunicação e, sobretudo, a inexistência de vozes apoiando a Casa Real, são um sinal muito forte de que os espanhóis começaram a pensar, sem medo de outra Guerra Civil, em mudar de rumo. Muitos espanhóis dizem hoje «Juan Carlos Primero y Ultimo».



 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: