• Anselmo Dias

O estado actual do País resulta em grande medida da desindustrialização
A desindustrialização do País
Um crime de lesa-economia

De acordo com os dados tornados públicos em 2011 pelo Ministério da Solidariedade e Segurança Social, reportados a Outubro de 2009, havia apenas 619 821 trabalhadores por conta de outrem a laborar nas indústrias transformadoras. Estamos perante um número modesto, fruto de uma consertada política de desindustrialização levada a cabo conscientemente após o 25 de Abril, a qual explica, em parte, a natureza e a dimensão do actual estado de coisas.

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Importa, pois, para conhecer uma importante parcela dos défices do País, conhecer a dimensão dessa desindustrialização.

Para o efeito, estabelecemos como baliza do nosso estudo quatro parâmetros:

o ano de 1985, data anterior à integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE);

o ano de 2009, data dos elementos estatísticos disponíveis;

o universo dos 308 concelhos do País;

o número de trabalhadores por conta de outrem.

Correlacionado tudo isto os resultados são os que se seguem.

Desindustrialização a nível distrital

Entre 1985 e 2009 as maiores quebras no trabalho por conta de outrem no conjunto de todas as indústrias transformadoras abrangeram, em termos absolutos, os seguintes distritos: Lisboa, menos 86 414 trabalhadores; Porto, menos 71 378; Setúbal, menos 34 734, Braga, menos 9149; Castelo Branco, menos 5829; Coimbra, menos 5234.

A estes, seguem-se com valores inferiores a 5000 trabalhadores os seguintes distritos: Aveiro, Santarém, Leiria, Guarda, Faro, Madeira e Portalegre.

Entretanto, no decurso do período atrás referido, houve aumentos episódicos, todos eles inferiores a 1000 empregos, nos distritos de Évora, Vila Real, Bragança, Beja e Açores.

Concluindo : considerando a significativa diminuição do emprego industrial em 12 distritos e na Madeira e o ligeiro aumento em seis distritos e nos Açores, o resultado final é o seguinte: entre 1985 e 2009 o número de trabalhadores por conta de outrem nas indústrias transformadoras passou de 833 299 para 619 821, o que corresponde a uma quebra de cerca de 26%. (Nota: estes dados constam dos Quadros de Pessoal e não incluem, como é óbvio, a economia paralela).

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Desindustrialização a nível concelhio (em valores absolutos)

As maiores quebras no emprego industrial em termos absolutos verificaram-se nos seguintes concelhos:

Lisboa, menos 51 685 trabalhadores por conta de outrem; Porto, 33 111; Matosinhos, 18 843; Vila Nova de Gaia, 12 808; Setúbal, 11 871; Almada, 10 106.

Há, também, quebras significativas nos concelhos de Santo Tirso, Guimarães e Loures, parte das quais são explicadas com a criação dos concelhos de Trofa, Vizela e Odivelas, cujos fluxos não foi possível quantificar.

A estes concelhos seguem-se, por ordem decrescente, as seguintes reduções no emprego industrial:

entre 5000 e 9999 trabalhadores por conta de outrem: Maia, Vila Nova de Famalicão, Amadora, Vila Franca de Xira, Barreiro, Coimbra, Seixal, Gondomar, Oeiras, Covilhã e Vila da Feira.

entre 2000 e 4999 trabalhadores por conta de outrem: São João da Madeira, Sintra, Cascais, Aveiro, Funchal, Braga, Seia, Marinha Grande, Montijo, Caldas da Rainha, Espinho e Vila do Conde.

Seguem-se mais 85 concelhos com diminuição de mão-de-obra.

No conjunto dos 308 concelhos:

cerca de 38% foram vítimas da redução de emprego industrial;

cerca de 62% beneficiaram do aumento de emprego industrial.

Estes dados, à primeira vista, podem parecer positivos.

Mas não são, porque a dimensão o emprego destruído em 118 concelhos é muitíssimo superior ao mitigado emprego criado em 190 concelhos.

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Desindustrialização a nível concelhio (em valores relativos)

A desindustrialização, analisada em termos relativos, apresenta dados muito mais demolidores do que a análise feita no plano absoluto.

Com efeito, 44 concelhos tiveram, no período em apreço, quebras no emprego industrial a taxas iguais ou superiores a 50%!

Os concelhos mais afectados, em termos relativos foram, sequencialmente: Almada, Lisboa, Porto, Barreiro, Setúbal, Matosinhos, Coimbra, Funchal, Seixal, Faro, Caldas da Rainha, Oeiras e Vila Franca de Xira, todos eles com taxas superiores a 50% e com uma população residente superior a 50 mil habitantes.

Os casos mais extremos referem-se a Almada, Lisboa e Porto, com taxas de 84%, 83% e 83%, respectivamente. Uma barbaridade.

A Península de Setúbal foi particularmente castigada, porque passou de 65 834 trabalhadores por conta de outrem em 1985 para 31 100 em 2009.

Estes números, comparativamente a 25 de Abril, pecam naturalmente por defeito na medida em que não entram em linha de conta com a «limpeza» feita entre 1974 e 1985 pelas políticas do bloco central de interesses na destruição das empresas metalúrgicas e da reparação e construção naval.

Tal destruição provocou o desemprego de trabalhadores com larga experiência profissional, com elevada consciência de classe, vítimas não apenas da perda de trabalho como alvo de um labéu posto a circular pela direita, associando-os à «aristocracia operária» e a hábitos de consumo próprios de uma pequena burguesia bem instalada.

Quem, a este propósito, não se lembra de dirigentes do PS atribuírem aos metalúrgicos o crime ostentatório de comerem frequentemente lagosta às refeições, estigma a fazer lembrar aquela outra provocação de se atribuir aos comunistas o hábito diário de comerem criancinhas ao pequeno almoço?

Concelhos que beneficiaram
do emprego industrial

Os concelhos que mais beneficiaram com o aumento do emprego industrial foram: Palmela, com mais 6924 trabalhadores por conta de outrem; Barcelos, com 6425; Paços de Ferreira, com 5138; Felgueiras, com 4824; Penafiel, com 4509.

Todos os restantes concelhos ficaram abaixo deste último valor.

No conjunto destes concelhos há um aspecto que convém salientar e que nos ajuda na discussão quanto ao modelo de desenvolvimento que o País deve privilegiar, tendo em conta, naturalmente, as opções de investimentos criteriosos numa economia planificada, opção que não existe, nem existirá, no decurso dos governos do PS, PSD e CDS-PP.

Dois exemplos: o de Palmela e o de Paços de Ferreira.

Em 1985, o valor do salário médio praticado no sector industrial em Palmela superava o de Paços de Ferreira em cerca de 79%.

Em 2009 esse valor subiu para os 142%, percentagem explicada pelo facto de as médias salariais serem, respectivamente, de 1451,10 euros e 600,80 euros.

Quando se olha para estes dados compreende-se perfeitamente porque é que a IKEA escolheu o concelho de Paços de Ferreira para instalar uma fábrica de mobiliário, investimento saudado por José Sócrates, o mesmo que saudou os investimentos nos chamados call-center e nos célebres PIN na área da hotelaria e dos campos de golfe, sectores, uns e outros, onde pontificam os baixos salários e a flexibilidade laboral.

Concelhos com maior concentração
de emprego industrial

A profunda desindustrialização levada a cabo nos últimos anos, associada ao reduzido investimento, explica que, hoje em dia, não haja grandes concentrações operárias.

No conjunto dos 308 concelhos apenas 33 albergam mais de 5000 trabalhadores por conta de outrem no conjunto de todas as indústrias transformadoras.

Essa reduzida concentração circunscreve-se a um reduzido espaço nos distritos do Porto, Aveiro e Braga os quais, sozinhos, detêm cerca de 73% dos concelhos com a maior mão-de-obra industrial.

Na zona Centro só há três concelhos com mais de 5000 trabalhadores industriais.

Em toda a zona Sul esse número limita-se a cinco concelhos, dos quais apenas um está a Sul do rio Tejo, ou seja, Palmela.

Vejamos, então, os concelhos com maior número de trabalhadores na área industrial:

distrito do Porto: Vila Nova de Gaia, Felgueiras, Maia, Paços de Ferreira, Santo Tirso, Paredes, Matosinhos, Vila do Conde, Porto, Lousada, Penafiel, Gondomar e Trofa;

distrito de Aveiro: Vila da Feira, Oliveira de Azeméis, Águeda, Aveiro, Ovar e São João da Madeira;

distrito de Braga: Guimarães, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Braga e Fafe;

distrito de Lisboa: Sintra, Lisboa, Loures e Vila Franca de Xira;

distrito de Leiria: Leiria, Marinha Grande e Alcobaça;

distrito de Setúbal: Palmela;

distrito de Viana do Castelo: Viana do Castelo.

No conjunto destes concelhos destacam-se os dois mais industrializados: Vila Nova de Famalicão, com 22 655 trabalhadores e Guimarães com 29 158, um e outro muito distantes daquele que, em 1985, era na altura o concelho mais industrializado do país. Referimo-nos a Lisboa, então com 61 992 trabalhadores por conta de outrem.

Presentemente, em toda a zona Sul, cabe a Sintra uma posição cimeira, com 15 152 trabalhadores.

Na restante parte do território, parafraseando uma expressão popular, diríamos «que o resto é paisagem».

Com efeito, nessa região há apenas pequenas bolsas industriais, havendo, inclusive, distritos com menos de mil trabalhadores, como sejam os casos de Vila Real, Beja e Bragança, a que se juntarão, em breve, Faro e Portalegre, caso se mantenha o nível de destruição do respectivo sector industrial.

Eis, pois, um outro aspecto que importa discutir: a distribuição racional da indústria por todo o território nacional, facto que deve mobilizar a opinião pública, embora saibamos que, em nome da livre iniciativa do mercado, tal assunto seja mera música de ouvido para o poder instalado.

Concluindo:

O Norte é mais industrializado, mas com salários mais baixos;

O Sul é menos industrializado mas tem, do ponto de vista relativo – e apenas relativo –, salários mais elevados.

Com efeito, em Guimarães – o concelho mais industrializado do País – a média salarial no sector industrial é de 701 euros, enquanto em Sintra – o concelho mais industrializado do Sul – é de 1212 euros, facto que não deixará de estar presente quando chegar a altura de discutirmos seriamente o modelo de desenvolvimento necessário a Portugal.



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