Editorial

«As comemorações do Centenário inserem-se na luta que, hoje, travam os militantes comunistas»

ÁLVARO CUNHAL

Com a sessão realizada no sábado passado, em Lisboa, tiveram início as comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal. O Auditório da Faculdade de Medicina Dentária foi pequeno para acolher todos os que – militantes e amigos do Partido – queriam estar presentes naquela que foi a primeira de um vasto conjunto de iniciativas que, durante o ano, terão lugar em todo o País.

Trata-se, afinal, de prestar a devida homenagem ao camarada ao notável dirigente comunista que, ao longo de 74 anos de exemplar militância revolucionária, deu o mais relevante contributo para a construção do Partido com as características essenciais que tem hoje: com a sua identidade comunista assente num projecto de sociedade liberta de todas as formas de exploração; na sua natureza de classe; na ideologia do proletariado; no internacionalismo proletário; nas suas regras de funcionamento interno inspiradas no centralismo democrático; na sua permanente ligação à classe operária e às massas.

Trata-se, igualmente, de homenagear o intelectual autor de um diversificado trabalho criador que vai da ficção literária ao desenho, à pintura, à reflexão sobre os problemas da arte e da estética.

Trata-se, ainda, de evocar o grande teórico, autor de uma notável obra que o afirma como um dos nossos maiores pensadores e que marcou impressivamente a história e o percurso de luta do Partido – obra que constitui um elemento incontornável para a abordagem do nosso século XX e um contributo singular para o desenvolvimento criativo das ideias de Marx, Engels e Lénine; obra cujo estudo aprofundado, e sempre ligado à realidade, é uma vertente essencial da formação política e ideológica dos militantes comunistas. Enfim, uma obra que, como sublinhou o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, na intervenção proferida na sessão do passado sábado, é constituída por «um vasto e válido património que mantém toda a actualidade e que não é apenas um precioso legado do PCP, mas de todo o País e de todos os que aspiram ao conhecimento e à concretização de um mundo melhor e mais justo»

Quando, aos 17 anos de idade, aderiu ao ideal comunista e ao Partido – e fez dessa adesão uma opção de vida – Álvaro Cunhal iniciou um percurso ímpar na história dos comunistas portugueses.

Desde então, primeiro nas Juventudes Comunistas, depois enquanto militante e dirigente partidário, o Partido foi a sua preocupação de todos os momentos.

Desse percurso, regista-se, como etapas dominantes, a sua contribuição singular para o êxito da Reorganização de 40/41 e dos III e IV congressos que a complementaram – momentos decisivos para a construção do PCP como partido marxista-leninista; o papel de primeiro plano que desempenhou, após a fuga da prisão, na correcção do desvio de direita dos anos 56/59 e na construção do Programa para a Revolução Democrática e Nacional – de que o seu «Rumo à Vitória» foi base decisiva – e que viria a constituir um factor fundamental para a criação das condições que tornaram possível o 25 de Abril e a Revolução que se lhe seguiu – e que é texto inspirador do Programa da Democracia Avançada – os valores de Abril no futuro de Portugal; o valioso contributo na análise à revolução de Abril e, posteriormente, ao processo contra-revolucionário – um trabalho feito a partir de intervenções em milhares de iniciativas políticas e em duas obras de leitura e estudo indispensáveis: «A Revolução Portuguesa, o Passado e o Futuro» e «A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – a contra-revolução confessa-se».

E porque o Partido era, para ele, uma presença constante, ao Partido dedicou essa obra maior da sua produção teórica que é «O Partido com Paredes de Vidro», corolário notável de uma reflexão e de uma preocupação que o acompanharam desde a juventude e se mantiveram até aos últimos momentos da sua vida – como bem o expressam as mensagens que enviou ao XVI e ao XVII congressos, quando o seu estado de saúde já não lhe permitia estar ali presente.

Por tudo isto, o vasto programa de comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal insere-se na actividade do Partido, na luta que, hoje, travam os militantes comunistas. Uma luta que se desenvolve em duas vertentes essenciais. Por um lado, tendo como objectivo o sempre necessário e fundamental reforço do Partido – o reforço orgânico, interventivo e ideológico que, na sua complementaridade, assegurarão o fortalecimento da organização partidária; uma mais sólida ligação às massas; e a sua continuidade como partido revolucionário, marxista-leninista. Por outro lado, na resposta necessária à grave situação com que hoje se deparam os trabalhadores, o povo e o País, quer através da actividade própria do Partido – de que é exemplo o desfile contra o aumento do custo de vida que hoje se efectua no Porto, com a presença do camarada Jerónimo de Sousa – quer contribuindo, no plano unitário, para o desenvolvimento, intensificação e alargamento da luta organizada das massas, única via capaz de conduzir a uma solução que responda aos problemas e aos anseios dos trabalhadores e do povo. Ou seja: a luta contra a política de direita e por uma alternativa patriótica e de esquerda rumo a uma democracia avançada que, incorporando os valores de Abril, abra caminho à construção da sociedade socialista e comunista que é objectivo supremo do Partido. Uma luta com a qual «o nosso grande colectivo partidário», intervindo empenhadamente, presta a mais significativa de todas as homenagens ao camarada Álvaro Cunhal. E certamente a homenagem que ele mais apreciaria.


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